A mulher; uma mulher
15/12/2009
Até sábado eu lia a proposição de Lacan “a mulher não existe” como enunciado de que o modo de gozo da mulher não existe. Então, numa conversa com Rodolpho Ruffino ele me disse: “o que interessa aí é o artigo definido”. Pronto! Isso enriquece a leitura da proposição.
Muitas vezes, ouvi psicanalistas remetendo essa senteça à proposição afirmativa universal da lógica aristotélica. Alguns chegaram mesmo a referir o artigo definido “a” à letra “A”, que indica a proposição universal afirmativa no esquema que os medievais usavam para codificar a lógica.
Na lógica aristotélica, existem quatro tipo de sentenças:
- universais afirmativas: “todo mamífero é mortal”
- universais negativas: “nenhum mamífero é vegetal”
- particulares afirmativas: “algum mamífero é anfíbio”
- particulares negativas: “algum mamífero não é vivíparo”
Os medievais usavam as vogais dos termos “afirmo” e “nego” para designar os quatro tipo de sentenças, de forma que “a” servia para as universais afirmativas e “i” para as particulares afirmativas; “e” servia para as universais negativas e “o” para as particulares negativas.
Ora, o que alguns propuseram é que o “a” de “a mulher não existe” é o “a” que os medievais usavam para designar sentenças universais afirmativas, entendendo que a proposição de Lacan quer dizer que “a mulher” não existe como universal, isto é, não existe o conceito de mulher.: não é possível descrever a mulher. A sentença foi psicologizada a ponto de muitos dizerem que por isso as mulheres não fazem grupo: elas não têm um conceito comum ao qual poderiam se referir. Já os homens podem formar esse conceito, a partir da imagem do “pai da horda” e, por isso, podem se reunir em grupo. Se a intenção de Lacan era manter o pensamento no âmbito da lógica, essas interpretações colocam de volta na teoria psicanalítica as genitálias de organismos masculinos e femininos e a observação quase etológica do comportamento dito humano.
Tentemos manter a abstração: pensamos que Lacan esteja se referindo a um modo de gozo, e não às chamadas “mulheres”. Com a observação de Ruffino, posso abandonar a interpretação de que o modo de gozar “mulher” não existe, para pensar que existe apenas como um modo de gozar indefinido, sem forma, sem sentido.
Aí, aproximo mais uma vez Lacan e Nietzsche, para entender esse gozo da mulher como o gozo de uma mulher. Não é possível capturá-lo de uma vez por todas em um significante ou em uma imagem. É preciso experimentá-lo a cada vez. Trata-se aqui do que Nietzsche encontrou em Dioniso. Trata-se da música em sentido absurdamente amplo.
Proust ajuda a mostrar isso quando apresenta o momento em que Swann ouve a frase musical da sonata de Vinteuil que anunciava para ele o gozo sem forma. Nese trecho de “Um amor de Swann”, quem toca a melodia é Odette, uma mulher que Swann amou (a citação é longa, mas deliciosa):
“A sede de um desconhecido encanto despertava-a nele aquela frase, mas não lhe trazia nada de preciso para aplacá-la. De sorte que as partes da alma de Swann em que a frase apagara o cuidado dos interesses materiais, as considerações humanas e válidas para todos, tinham ficado vagas e em branco, e ele era livre de ali inscrever o nome de Odette. Depois, ao que a afeição de Odette pudesse ter de um pouco estreito e decepcionante, vinha a frase acrescentar, amalgamar a sua essência misteriosa. A julgar pela fisionomia de Swann enquanto escutava a frase, dir-se-ia que estava ele absorvendo um anestésico que lhe dava maior amplitude à respiração. E o prazer que lhe dava a música e que em breve ia criar nele uma verdadeira necessidade, assemelhava-se com efeito, em tais momentos, ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não fomos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem siginifcado porque escapa à nossa inteligência, e nós só o atingimos por um único sentido. Que grande repouso, que misteriosa renovação para Swann – ele cujos olhos, embora delicados amadores de pintura, cujo espírito, embora fino observador de costumes, carregavam para sempre a marca indelével da secura de sua vida – sentir-se assim transformado numa criatura estranha à humanidade, desprovida de faculdades lógicas, quase um licorne, uma criatura quimérica que percebia o mundo apenas pelo ouvido.”
Fica uma questão: será que a música apenas anuncia Dioniso, ou será que ela é Dioniso?
Contatos
16/11/2009
Assisti esse documentário sobre o Cartier-Bresson ontem, depois de ver a exposição de suas fotos no SESC Pinheiros. Quando cheguei na sala de exibição do vídeo, este já estava começado. Não peguei a parte em que ele diz que “a prova de contatos é como o divã do psicanalista” mas a relação entre o ofício desse fotógrafo e o ofício do psicanalista se apresentou de maneira muito evidente na parte que vi do documentário. As imagens são de provas de contato: acho que isso não se usa mais nos tempo das câmeras digitais, mas quem fotografou com filme vai se lembrar delas. São cópias dos negativos em tamanho natural (sem ampliação). A partir dessa prova você escolhe que “cliques” vai ampliar. No documentário “Contacts”, a câmera percorre a folha de contato, deslizando pelos vários cliques até se fixar naquele escolhido para ser ampliado por Cartier-Bresson.
Eu já tinha saído da exposição com esse pensamento: o fotógrafo está lá, imerso no fluxo do mundo, com o dispositivo fotomecânico: a câmera. Ele entende de luz, de química, de mêcanica. Ele sabe ajustar a abertura do diafragma e a velocidade dessa abertura para, regulando a luz que sensibiliza o filme, conseguir a foto que dá aos olhares dos outros: “somos ladrões, mas é para dar”, diz ele no documentário. Então, ele liga o olho ao visor da câmera e prepara sua entrada no mundo. Ele deve entrar desprevinido: “Não se deve buscar. É preciso estar disponível, receptivo. É importante não pensar.” No momento oportuno, ele clica: num momento, vários instantes. Ele revela os negativos e imprime a prova de contatos: “A prova de contatos é como o divã do psicanalista”. Então, na folha de contatos, ele encontra uma composição, uma narrativa insuspeitada: “Tudo vem do inconsciente: não sabemos nada. É inconsciente”. Está lá o instantâneo! O feito! O ato! A ação do clicar efetivou a composição revelada na foto. Revela-se uma composição que não se apresenta ao mero olhar. Ou melhor, se apresenta como ato, depois do clique do fotógrafo.
Indicações preciosas de um fotógrafo para um psicanalista. “Não se deve buscar … é importante não pensar”! Como disse Lacan, “é preciso não compreender depressa demais”. Não antes do ato … No momento oportuno, pontuamos os instantes e, talvez, alguma composição se revele em nossa prova de contatos. Talvez, o paciente queira ampliá-la. Talvez ele queira enxergar as coisas como elas se apresentaram relacionadas no instante daquele clique, remetendo a uma ordem que não se revela ao mero escutar.
Juntos
06/11/2009
Parece que enquanto Nietzsche aposta na tragédia, isto é, na música e no drama (especialmente na música!), Freud e Lacan apostam na psicanálise.
Mas, para aproximar todas eles, talvez seja prudente pensar a cultura e o indivíduo como “psicologias” distintas. Talvez seja necessário tomar o pensamento de Nietzsche, que está declaradamente endereçado à cultura, como analogia para pensarmos a psicologia dos indivíduos. É mais ou menos como o exercíco de Platão na República: para podermos responder o que é a justiça, ao invés de procurá-la imedidatamente no homem, vamos procurá-la na pólis: uma vez que tenhamos apreendido (ou recuperado) a idéia de justiça, voltamos então ao homem para poder enunciar o que é um “homem justo”.
Talvez seja necessário mais um passo ainda. Tomamos a cultura adoecida descrita por Nietzsche, e a terapêutica que ele propõe (a tragédia) e uma vez munidos desses elementos, voltamos ao sujeito do divã, a quem propomos a psicanálise: será que podemos encontrar nesse sujeito o dionisíaco, o apolíneo e o socrático? Será que esse sujeito está estabelecido como uma cultura dionisíaca (esquizofrênico) ou apolínea (paranóico)? Socrática (o simbólico subjuga o real, “a música se submete às palavras”) ou trágica (o real inspira o simbólico). O passo além é voltar à cultura e saber se, junto com a tragédia proposta por Nietzsche, podemos propor a psicanálise. Para mim, foi importante atravessar o texto de Nietzsche para acompanhar o movimento que ela faz da Grécia até a Alemanha, para poder acreditar num renascimento da tragédia no lugar da “ópera”, onde a música é “funcionária” das palavras. É mesmo nos capítulos finais em que aparecem no texto dele “drama” e “música” como coisas distintas. Isso me faz pensar que o sintoma é como um drama sem música, como uma ópera: talvez seja por isso que ele se torna ridículo depois que é atravessado na análise (em geral, a ópera me parece ridícula). Um certo riso do paciente certamente marca esse atravessamento do “drama”. Penso que esse tipo de atravessamento permita à orquestra trocar as partituras e tocar música pra valer. O herói do drama está lá para ser atravessado; está lá para morrer: isso está muito bem escrito por Nietzsche, e foi bem falado por Lacan naquela palestra em Louvain: “Vocês fazem muito bem em crer que vão morrer! Do contrário, como poderiam suportar essas vidas que vocês levam …”
Ora, não ouvimos aí um eco da fala do Sileno, apresentada por Nietzsche nos primeiros capítulos do Nascimento da Tragédia? Mas ele avisa: para entendê-lo, é preciso ter experimentado a música, e avisa também que nem todos são músicos. Aliás, “muitos carregam o tirso, mas poucos são os místicos” (Sócrates, momentos antes de morrer), ou “muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos” (Cristo). Será que isso que vale para a música, vale também para a anáĺise? Parece que vale …
Apólogo do surfista
02/10/2009

Se nascemos, estamos no mar, e o mar é muito maior do que a gente: o mar é gozo e a areia é o nada. Fálicos, temos nossas pranchas e podemos manobrar sobre as ondas. Surfando, gozamos o mar. O bom surfe, a boa manobra, é aquela que entusiasma nossos companheiros para além da rebentação: assim sendo, somos surfistas desejantes. As ondas são o movimento que chamamos destino: podemos deixar algumas delas passarem, podemos esperar alguma que vai se formando de um jeito que promete as melhores manobras, mas a descida é sempre uma aposta. Amar a onda escolhida é amar o destino, é amar a onda e nela desenhar o nosso movimento.
“Parece muito seguro de si esse seu surfista!” Compreensão apressada de quem não está surfando … ele se arrisca assim diante da incomensurabilidade de Poseidon justamente porque encontrou seus camaradas para além da rebentação. Porque encontrou o amor ele se arrisca sem medo: se cair e, por instantes, for tragado pelo movimento inexorável do mar, não estará sozinho; e, se ele surfa para entusiasmar, também foi entusiasmado por alguém.
O surfe é um esporte peculiar: está próximo da arte. Em nosso tempo, anda meio entristecido, como aquela. Os homens da areia vieram para administrar o surfe: estabeleceram uma contabilidade e regras. Estabeleceram um circuito e uma racionalidade. Como é possível calcular o valor de uma manobra?!?!? Como é possível calcular o efeito que ela pode ter em cada um daqueles que a testemunharam?!?!? Os homens da areia gostam de pontuar … pontuam no surfe, pontuam nas artes, pontuam até na filosofia! E produzem heróismarionetes, afinal, postulam, “surfistas também precisam ‘ganhar a vida”.
Já o surfista de alma sabe que é preciso perder a vida para ganhar a vida … mas se o seu surfe é ousado, é por amor, e não por destemor (nosso surfista não é um maníaco).
Mas os homens de areia não perdem tempo e querem também “marcar” o surfista de alma, assim como “marcam” os artistas e os filósofos. Amar os camaradas parece ser a maneira de resistir à sedução dos homens da areia, que engendram o desprezo e, junto com ele, a ilusão de que é seguro surfar sozinho.
Está claro quem são os homens da areia?!? São aqueles que não podem surfar! Eles precisam que o surfista de alma reconheça o que eles têm para oferecer! Sentem-se esquecidos na areia, porque os outros olhares acompanham aqueles que manobram no mar. Desesperados, querem desviar para si esses olhares e, para isso, buscam colar espelhos que reflitam a areia nas pranchas dos surfistas de alma.
Uma vez eu vi numa praia umas crianças caiçaras surfando e, num outro momento do mesmo dia, alguns adultos organizando um campeonato entre elas. Será que esses adultos sabiam o que estavam perpetuando? Acho que não. Acho que os escravos não formam o saber de sua emancipação, como no sonho de Hegel.
Mas, será que o surfista de alma é um surfista possível? Será que o amor é possível?
[Interlúdio da concha: é porque no mar tem concha, que podemos dormir de conchinha. Para dormir ao lado de alguém, nú, é preciso confiar muito. Para experimentar o orgasmo com intensidade de "petite mort" é preciso estar com alguém, e é preciso confiar muito para morrer assim, ao lado de alguém ... Assim é no meu sono sereno e alegre.]
Serenidade e alegria é o que imagino na expressão do surfista de alma que está sozinho na onda, mas não está sozinho no mar.
Assim é no meu sonho nietzscheano.
Trata-se de uma ilusão?
Tanto melhor!
O estranho
11/09/2009
Jack Torrance é um tipo “estranho”, tomando este termo no sentido que Freud dá para ele no artigo sobre o “Das Umheiliche”.
A cena que mais me impressiona em “O Iluminado” é aquele na qual a esposa de Jack ouve, com alívio, o som familiar dos tipos da máquina de escrever chocando-se com o tambor da máquina para depositar tinta sobre a folha de papel que desliza entre os dois: os tipos e o tambor.
Ah, que alívio importante da tensão provocada pelo isolamento no Overlook Hotel! Jack está trabalhando! Tão produtivo! Parece um pianista inspirado executando um concerto exuberante no teclado da máquina de escrever … quando, num momento em que Jack se afasta da mesa de trabalho, ela pode ler o que ele vêm produzindo, ela encontra página s e páginas preenchidas com a frase “All work and no play makes Jack a dull boy” …
Tudo tão familiar e tudo tão estranho … acho isso muito mais arrepiante (“espeluznante” na tradução de Freud para o espanhol) do que as aparições das crianças gêmeas, da mulher na banheira etc.

Jack Torrance, na parte de baixo, ao centro (Salão de festas do Overlook, 1921): estranho ...
Outro toque absolutamente “Umheilich” é a foto do baile que aconteceu no hotel em 1921, em que Jack aparece como um “mestre de cerimônias”, ou um anfitrião: “Wish you were here”, está grafado nessa imagem … Agradeço a intenção, mas declino …
Mas o que é mesmo esse fenômeno do estranhamento? Parece ser o desvelamento de que pode haver um outro sentido, uma outra razão, operando para além do sentido da cotidianidade. Um sentido inapreensível até mesmo para essas narrativas fantásticas. Kubrick não “fecha” a história … permanecemos na estranheza, sem uma explicação dos acontecimentos no Overlook Hotel. O que fica desvelado é a fragilidade do sentido.
Quando nos deparamos com trabalhos como O Iluminado (e falo somente do filme: não li o livro), talvez tenhamos a oportunidade de vislumbrar o que está para além do mundo como o conhecemos. Não se trata aqui de algo sobrenatural; de um outro mundo onde vigoram outras leis: trata-se mesmo do único mundo existente, sobre o qual, geralmente, estamos bem seguros, mas que não deixa de ser estranho …
Alexitimia?!?!?
19/08/2009
Então inventaram esse termo: alexitimia. Foi em 1973, um tal Peter, se não me engano. O termo serve para designar um determinado quadro “clínico”: a incapacidade do “paciente” em falar sobre seus sentimentos. Uma tradução literal do termo, que se forma a partir de significantes gregos, poderia ser “sem palavras para as emoções”. Mas, quem tem palavras para as emoções? Não é preciso forjá-las sempre? Não é esse o trabalho do poeta lírico? Não é esse o legado de Arquíloco? Que alguém tente me descrever a angústia sem passar pelo lirismo! As tentativas de descrever isso com base em processos físicos e químicos me parecem poesia menor. Tomar a maneira de Lacan, através de grafos, equações e figuras topológicas é o recital enfadonho da poesia dele, que tem sua genialidade.
Enquadrar a incapacidade lírica no discurso da ciência, através de um termo, de uma tabela de valores, de um protocolo de pesquisa, parece servir apenas para neutralizar qualquer possibilidade de crítica. Ainda bem que as palavras forjadas e arranjadas por Nietzsche e Heidegger não perden sua força diante da poesia fraca do discurso da ciência!
Essa timidez poética (e não será essa a natureza de toda timidez?) é, nos textos científicos, associada às questões da psicossomática da seguinte maneira (grosso modo): as lesões no corpo substituem a fala sobre os sentimentos, que não se dá. Bem ,se for assim, a psicossomática é uma maneira possível de descrever os sentimentos. Mas, falta explicar por que é escolhida essa maneira? Eu ainda prefiro trabalhar na minha hipótese do “corpo ad hoc”, isto é, de que esses pacientes não têm “corpo”, e o fenômeno psicossomático é a tentativa de esculpir um corpo na própria carne.
Numa pesquisa da qual participo, sobre psicossomática, constata-se mesmo essa dificuldade dos pacientes em expressarem o que sentem na fala. Outro dia, numa reunião do grupo que faz essa pesquisa, levantei a possibilidade de que essa timidez poética esteja ligada a fatores socioculturais, dado que a pesquisa é realizada numa insituição da rede pública de saúde, e a maioria absoluta dos pacientes é de classe financeiramente pobre. Fui considerado preconceituoso, como se estivesse dizendo que pobres não fazem poesia. Não creio que a proposição “pobres não fazem poesia” seja consequência necessária de meu raciocínio. De qualquer maneira, essa proposição não é minha!
Mas, será que podemos levantar a hipótese de que nesses tempos em que a razão instrumental hegemônica tende a aniquilar a poesia (sua contrária), e em que o acesso às formas mais sublimes da cultura (sim, eu acredito em formas mais sublimes da cultura) está, numa medida importante, possibilitado por condições financeiras melhores e, ao mesmo tempo, dificultado para aqueles que alimentados pela indústria alimentícia, cozinham no caldeirão do Huck – será que podemos levantar a hipótese de que essa timidez lírica seja consequência da racionalidade de nossos tempos, e que essa consequência seja mais perversa entre os mais pobres? É evidente que, ainda bem, muitos sujeitos escapam à essa lógica, tanto nas classes mais ricas, quanto nas mais pobres. É possível que a realidade não seja tão adorniana quanto parece …
O preconceito linguístico não ajuda em nada. Já percebi que alguém pode se calar simplesmente por vergonha de falar diante do “doutor”. Os personagens de Guimarães Rosa se expressavam à sua maneira, porque se expressavam no sertão. Talvez se calassem na metrópole ubíqua contemporânea: seriam personagens de Graciliano Ramos …
Em suma, isso que se chama “alexitimia” é coisa antiga. Talvez exista desde o tempo em que os gregos deixaram de ser pessimistas e trágicos, e se transformaram em otimistas e teóricos. Não sei o que se ganha associando isso à psicossomática. É evidente que o fenômeno se apresenta para muito além disso. Bem dizer “alexitimia” pode ser dizer “apoesia”. Melhor manter a primeira bem longe do consultório, psicanalítico, bem dito.
Dualismo imanente
31/07/2009
Deleuze e Guattari já haviam notado e anotado em seu Anti-Édipo: a imagem psíquica do corpo é a última versão da alma.
Sendo assim, a alma da psicanaĺise é imanente. Melhor chamá-la “corpo” e relacioná-la com a carne. Ao invés do dualismo corpo e alma, propõe-se o dualismo corpo e carne.
No Fédon , de Platão, discute-se a natureza da alma e sua relação com o corpo. Sócrates argumenta para justificar sua tranqüilidade no dia em que tomaria a cicuta: se não teme a morte é porque, experimentado na filosofia, sabe da indestrutibilidade da alma, e sabe que depois da morte, que é apenas do corpo, estará melhor do que aprisonado à carne grosseira. Me parece que a psicanálise está no argumento de Símias, em oposição à Sócrates: a alma está para o corpo, assim como a harmonia está para a lira.
Isto é, a alma é efeito do corpo, e se forma a partir dele, e se desfaz quando ele se corrompe. Tomando os termos da psicanálise, o corpo é efeito da carne; o corpo é imagem que se articula no simbólico, e o real é a carne. Daí podemos inferir que o corpo morre junto com a carne, e que, vivos, somos o corpo e somos a carne. Ou melhor, somos essa relação ente corpo e carne.
No entanto, entre psicanalistas, “dualismo” parece ser um termo maldito. Especialmente porque remete ao dualismo “corpo e alma” de um pensamento que despreza o corpo e a carne. Dizer que corpo e carne são coisas diversas me parece fundamental para a teoria lacaniana da corporeidade, e esta posição é dualista, isto é, o corpo é dual: é carne incorporada.
Me parece até que essa dualidade permite superar o problema do hilomorfismo aristotélico como base para o entendimento da relação entre corpo e alma nos seres vivos (a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um bom artigo a respeito bem aqui). Aristóteles postula que sem alma, o corpo não é mais corpo. Sendo assim, um cadáver não é corpo. Penso que Lacan concordaria com isso. Talvez ele disesse: “é óbvio que um cadáver não é mais corpo! Para continuar sendo corpo, tem que ser sepultado!” Se fizesse isso, tiraria Aristóteles de uma grande enrascada. Ele não fez, mas deixou em Radiofonia a condição de fazermos …
A Case of You
24/07/2009
Então essa mulher fez uma canção pra esse cara que, como convém, fazia ela sofrer um pouco … Quando ele a ouviu cantando sentiu-se pequeno … muito menor do que o homem que ela amava na letra da canção. No entanto, aquela melodia, aquela voz, aquela arranjo das palavras (“you’re in my blood like holy wine / you taste so bitter and so sweet”) tinham uma beleza absurda, do tipo que provoca uma dorzinha gostosa, como aquela que faz algumas pessoas cutucarem de leve a gengiva até sentirem um gostinho de sangue. Ele a fez sofrer mais um pouco e então prendeu-se ao mastro, fazendo de conta que era um herói.
Outras mulheres cantam essa canção, quando querem ser penélopes …
Chocolate
17/07/2009
Ele calcula cuidadosamente as mordidas: a quantidade de chocolate oferecida as suas papilas degustativas deve ser suficiente para que goze deste sabor e ao mesmo tempo garanta a permanência da barra pelo maior período que consiga. Seu ideal é que ela termine extamente no instante de sua morte, e garanta com isso que ele gozou na maior medida possível durante sua existência. Se a barra terminar antes que ele morra, restará um tempo de vida reduzido à espera resignada pela morte: tempo miserável. Se, no instante derradeiro, constatar a sobra de algum (ou alguns) dos pequenos quadriláteros que compõem a barra de chocolate, experimentará o amargor de ter gozado menos do que poderia em cada mordida avarenta que deu na vida.
Ela se lambuza inteira. Morde avidamente tentando ultrapassar-se no sabor do chocolate e, por maior que seja a mordida, não consegue saborear o tanto que imagina poder. Nenhum chocolateiro conseguiu, até agora, preparar a massa com sabor intenso suficiente para que ela possa dizer afinal que gosto tem o chocolate.
Ele tem medo de morrer. Ela, de enlouquecer.
Aliterações
15/07/2009
Um dia escreverei um poema com o título:
“Lacan, Esfinge do Caralho”
por Stelio de Carvalho;
Neto, seja dito!

