O mesmo

24/01/2009

Então o real é “o mesmo”? Isso, na escrita de uma lacaniano cortês: Alfredo Eidellsztein, in “La topologia en la clínica psicanalítica”.

“O mesmo” não apareceu para mim apenas na experiência da análise. Talvez seja minha afeição às profundezas, ou talvez seja minha ambição iluminista. A questão é que sempre quis entender e, para entender, é preciso reconhecer. Para reconhecer, é preciso deparar-se com “o mesmo”. No entanto, seria muita presunção afirmar “aqui eu me deparo com ‘o mesmo’!”, fora do ambiente controlado de um experimento dito científico. Acontece que queremos que algo seja “o mesmo”, se é que podemos querer alguma coisa … Podemos formular uma questão: quem quer que algo seja “o mesmo”? Nesse esforço de igualação (e todo esforço conceitual é esforço de igualação), circunscreve-se algo (ao menos dois). O que isso tem de real? O que isso pode interessar para a clínica?

Um amigo me disse não sentir a idade que tem. Como ele pode saber que o seu estado de espírito não corresponde à sua idade? Logicamente, ele só poderia reconhecer estados de espírito que já experimentou em idades anteriores. Talvez ele possa ter feito uma projeção, em um determinado momento de sua vida: “então é assim que me sentirei quando tiver tantos anos!”

Pensemos no “déjà-vu”. Uma tentativa de explicação desse fenômeno é: um determinado arranjo circunstancial engendra o mesmo estado de espírito de um outro arranjo e, por isso, experimentamos a nova sensação como um “já visto”. No entanto, o que se repete é a sensação e não a situação. O que reconhecemos é uma determinada sensação de ser que venho chamando de estado de espírito, com clara inspiração heideggeriana.

“O mesmo” implica identificação e repetição.

Repetição e identificação implicam Freud.

Continuemos com Heidegger: a partir da minha leitura de “Ser e Tempo”, que fiz em inglês, na  tradução de Macquarrie e Robinson (daí porque leio “estado de espírito” – state-of-mind – ao invés de “afinação de humor” ou “disposição em que alguém se encontra”, como já ouvi traduzido para o português “Befindlichkeit”), penso que a angústia é o único estado-de-espírito que se sabe como tal. Mas, o  que isso pode significar na fala de um paciente que enuncia: “estou angustiado”? Chama a atenção o fato de que na construção dessa frase seja difícil colocar um objeto. Parece haver uma intransitividade da angústia, como se esta fosse sem objeto. Angústia com objeto já se tornou medo; já é articulável; dizível. O medo vela a angústia. A angústia é “o mesmo”: “uma ponta do real no imaginário”, como propõe Didier Castanet.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: