Não fica louco quem quer

30/01/2009

Ontem estava conversando com um amigo sobre escolhas.  Ele contava como, no ano passado, passou por um momento crítico, em que precisava definir o rumo que ia dar ao seu negócio. É óbvio que a decisão implicava o desejo desse meu amigo, principalmente porque ele é uma espécie de artesão-inventor, envolvido muito diretamente com o que produz. A questão era: produzir e vender as máquinas que constrói, ou vender no mercado o serviço que pode oferecer com essas máquinas. Ele figura a situação com dois eixos cartesianos, um para cada atividade, e pensa que se ele se empenhar nos dois eixos, se tornará uma reta resultante, que não está em nenhum dos dois eixos e que, por isso, não será coisa alguma: uma vetor enfraquecido. Seria preciso escolher uma dos vetores e investir exclusivamente neste: tornar-se artesão ou inventor.

É bem esse o engano cartesiano: postular a consistência do “eu”. Identificar-se com um dos dois eixos, é apostar numa ilusão. Se cada eixo representa um vetor, então somos um feixe desses vetores, e investimos cada um deles com intensidades diferentes. O “eu” é a resultante: não uma força, mas uma imagem formada numa construção lógica, e se transforma de acordo com as mudanças no investimento dos n vetores que atravessam algo que chamamos de sujeeito. Identificar-se com apenas um dos vetores me parece empobrecedor.

No entanto, essa é a mensagem numa sociedade em que a divisão do trabalho tornou-se absurdamente específica. “Foco” é ponto fundamental no pensamento estratégico das corporações e, agora que somos Você S.A., isso vale para nossas experiências com o desejo, isso é, para a vida humana.

Nada disso: somos múltiplos, esquizos, isso e aquilo e aquilo outro.

Um pouco de lacanês: somos a multiplicidade das pulsões, cujos objetos estão representados como o ramalhete de flores no esquema ótico do espelho curvo. “Eu” é uma formação imaginária que dá corpo às pulsões; é a resultante no eixo cartesiano descrito acima, e essa resultante muda de tamanho e muda de posição, no tempo.

Talvez, a esquizofrenia seja a falta da fórmula que permite o cálculo que permite o desenho da resultante.

Importante lembrar que esse feixe de vatores que nos atravessa implica forças antagônicas, isto é, contradições. Identificar-se com uma força, ou outra, pode ser uma tentativa de superar essas contradições. Uma maneira de evitar a falta de sentido, ou a loucura.

No entanto, trata-se de um esforço desnecessário, afinal, como postulou Lacan, não fica louco quem quer …

Anúncios

6 Respostas to “Não fica louco quem quer”

  1. Ary Handler Says:

    Prezado comandante Stelio,

    Você truca com Lacan,eu retruco com Winnicott.

    Há um (verdadeiro) self que pode ser construído a partir das experiências vividas que as faz ter sentido e unidade.

    Para se construir um futuro, há que se alucinar um seio e depois encontrá-lo.

    Se o dilema do seu amigo é decidir se ele deve construir as máquinas, explorar o serviço, ou ambos, talvez ele não deva conversar com um psicanalista e sim com um coach. Esta não é uma questão imaginária, é uma questão real.

    Para Winnicott, “real” não é palavrão…

    Ou não.

    Abraços e obrigado por criar um espaço para polemizar,

    Ary

  2. karen Says:

    gostei bastante!

  3. Rafael Says:

    Que bom ver vc delirando com tanta propriedade, Stelio!
    Vou ler sempre.

    Abraço./

  4. OM Says:

    Bacana!!! Multifacetados.

  5. Ale Says:

    Concordo com o seu ponto de vista sobre a questão do “ou”. Melanie Klein formulou essa questão entre o “ou” e o “e” em seus conceitos de posição esquizoparanoide(trabalho mental a partir do “ou”) e depressiva (trabalho mental a partir do “e”). A posição depressiva tem um carater integrador a partir do “e”, mas ao mesmo tempo e paradoxalmente algo é perdido no processo. Para se ganhar é preciso perder, e o mínimo que se perde é o narcisismo, um pouco do “eu”. Quanto mais se caminha em direção ao ser, menos se é.

    Ale

  6. Aline Says:

    Esse assunto nos é bem familiar, né Stelio? Se alguém tem apenas uma coisa que baste para definir sua identidade, que bom, este alguém está com mais sorte do que os que possuem mais coisas que tocam os seus corações. Para estes não é preciso escolher entre uma coisa ou outra, ainda resta a opção de tentar conciliar, o difícil será suportar a angústia de aguardar mais tempo para colher os frutos…Apesar disso, não sei se ajudará o seu amigo, para mim a conciliação continua sendo a melhor escolha.
    Gostei do blog Stelio, vou acompanhar sempre que der. Bejos, Aline.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: