O self, o Selbst e o si-mesmo

03/02/2009

Sobre o post anterior, “Não fica louco quem quer”, um amigo coach comentou, apoiando-se em Winnicott, que existe uma unidade que pode dar sentido e autenticidade às nossas escolhas.  Essa unidade é o self.

Não conheço as idéias de Winnicott profundamente mas, será que o self coincide com o eu? Acredito que não, porque se coincidisse, não seria necessário o uso de outro termo, ao invés do consagrado ego.  Me parece que o self coincide mesmo com o Selbst de Heidegger, em português, o si-mesmo.  Trata-se do mesmo conceito.

O si-mesmo é aquilo que, por exemplo, sente a angústia. A náusea de  Antoine Roquentin (personagem principal de A Náusea, de Jean Paul Sartre) é sentida por ele. Não há dúvida de que isso engendra uma sensação de unidade e integridade, mas não se tratra de uma unidade fechada. Assim como o self de Winnicott pode ser verdadeiro ou falso, o si-mesmo de Heidegger pode estar na autenticidade ou na impessoalidade (das Man).

Antes da náusea, Roquentin está capturado no eu que se entrega à tarefa sem sentido de escrever a biografia de um marquês que pouco importa. Ele mal percebe si-mesmo (talvez percebesse quando algum inseto o incomodasse, ou se alguma comida lhe tivesse “caído mal”). É na experiência da angústia, em que eu não faz mais sentido e revela-se instância de desconhecimento, que ele pode saber de seus diversos possíveis. Obviamente, ele tem que fazer escolhas, mas não existe uma unidade de  sentido para orientar, ou constranger essas escolhas. É também óbvio que ele não pode escolher um impossível. Se alguém permanece por tempo suficiente na angústia, talvez possa enxergar a multiplicidade de seus possíveis. Se não aguentar até esse ponto, pode cair de volta na impessoalidade, ou no medo, que é uma forma de dar sentido à angústia.

Isso explica a orientação lacaniana para que a direção da análise não se torne um exercício de fortalecimento do eu, porque isso seria fortalecimento da neurose.

Não acredito que Winnicott pensasse de maneira diferente porque, afinal, era psicanalista, não coach. 😉

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6 Respostas to “O self, o Selbst e o si-mesmo”

  1. Ale Says:

    Qual a direção de uma análise?
    Ale

  2. Ary Handler Says:

    Comandante Stelio,

    Freud disse “Temos a tendência de desqualificar aquilo que desconhecemos”. Como muitas das coisas que ele disse, considero isso uma afirmação verdadeira (é verdade que ele disse também muita bobagem, mas deixa pra lá…).

    Ora, considerando-se que eu não conheço Heidegeger nem Sartre ou Lacan e você não conhece Winnicott, receio que o nosso diálogo se tornaria apenas uma tentativa de desqualificar o adversário.

    Seria, como disse o Starchey, o diálogo de dois surdos monoglotas, um deles inglês e o outro alemão.

    E tem mais, segundo Loparic, Winnicott não é um psicanalista da linha freudiana, mas sim um novo paradigma.

    Abraço,

    Ary

  3. stelioneto Says:

    Ale,

    penso que a para falr na direção de uma análise, é mais instigante pensar no verbo “dirigir”. Trata-se de uma operação. Penso na direção de veículos, e nos trabalhos de um motorista de ônibus e de um taxista. O motorista de ônibus dirige por uma rota determinada, fazendo suas paradas em pontos marcados do trajeto. Já o motorisata de táxi, conduz o veículo de acordo com o passageiro. Obviamente essa imagem não dá conta do que é a direção do tratamento, mas me ajuda a pensar a respeito.

    Wittgenstein afirmou no Tractatus que na lógica não existem surpresas (proposição 6.1251). Me parece que numa análise é possível encontrar lógicas surpreendentes quando o analista conduz a fala do paciente por conexões que se desviam do eu.

  4. Ale Says:

    Caro Stelio,

    De uma olhada nesse artigo que creio que tem interface com que estamos discutindo:

    http://www.apsicanalise.com/notacaoatencaointerpretacao.html

    Ale

  5. Karen Says:

    Acredito que a passagem de Stelio do “self” de Winnicott para o si-mesmo de Heiddeger tenha sido um pouco apressada para os leitores aqui. Certamente, ele teve seus motivos de compará-los e, de fato, à princípio, parecem colar. Mas colagens entre conceitos sempre me assustam um pouco, porque o que se faz na verdade é uma redução de um conceito à outro a partir de um certo grau de funcionalidade, porque ele operam uma lógica parecida. Se um funciona aqui e outro acolá, e eles funcionam parecido, ok. Assim, se que se perde o valor original do conceito dentro da teoria ‘x’ ou ‘y’, as suas condições de aparecimento que são tão importantes para entendê-los. Da minha perspectiva, os conceitos têm sempre algo de irredutível, de original no seu aparecimento, de unicidade.

  6. Karen Says:

    Sobre o texto de Ale, senti falta de um espaço para comentar em seu site. Li também para poder participar da discussão e meu ponto é que me pareceu “técnico” demais. Muito aderido às teses dos autores e com um grau de impermeávelibilidade quase nociva, pois a clínica (de onde provêm tais textos) é tão fluida e, por isso, difícil. Senti falta de uma discussão mais aprofundada das entrelinhas, de um posicionamento crítico.


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