Papai e mamãe

11/02/2009

Em resposta a Karen Alves:

Pois é Karen: você sabe qual é minha posição sobre o Anti-Édipo. Trata-se do Anti-Cristo de Deleuze. Ele faz um movimento muito parecido com o de Nietzsche. Para o filósofo alemão, o Cristo pregou a celebração desta vida que experimentamos, mas os cristãos cuidaram em transformar Jesus num dispositivo para negação da vida, instituição de ideais ascéticos e de uma moral da culpa e do ressentimento.

Parece que Deleuze faz a mesma coisa, elegendo a psicanálise como possibilidade de descodificação e desterritorialização do desejo, para depois acusar os psicanalistas de uma “edipianização furiosa” da existência humana:

“A aventura da psicanálise é extremamente curiosa. Se não fosse um canto de vida, não valeria nada. Praticamente, ela devia ensinar-nos a cantar a vida. E eis que dela emana o canto da morte mais triste e mais pálido: eiapopeia.”

Isso ele declara no Anti-Édipo.

Entendo que a queixa dele é que a psicanálise não se arrisca para além do papai e da mamãe. Essa crítica é, no mínimo, datada … nenhum dos psicanalistas que conheço afirmaria que o final de uma análise é a resolução do Édipo. Talvez, a crítica de Deleuze tenha sido assimilada. Talvez, ela nunca tenha feito sentido …

O fato é que a maioria de nós é produto de uma relação sexual. Papai comeu a mamãe, ou, mamãe comeu o papai, não importa (na verdade, importa, mas não para esse argumento). É possível que mamãe estivesse de quatro; talvez ela tenha tido um orgasmo; papai poderia estar pensando no financiamento do apartamento;  ou extremamente concentrado no ato; estavam apaixonados?

Mas, alguém pode ser produto de uma fecundação in vitro, cuja gestação se deu em um útero emprestado, e entregue para um casal de pais adotivos que nunca se relacionaram intimamente. Se a criança tiver consciência dessa sua história, valerá o Édipo?

Acredito que valerá na medida em que as crianças são afastados do conhecimento sobre o sexo até a adolescência, quando podem enfim entender o significado de expressões tão comuns quanto “vai se foder”, ou “vai tomar no cú”. Até então, a conta não fecha. Aparece a falta: falta de significado para muitos significantes. Não é possível nem mesmo formular a demanda que o corpo insiste em colocar. É preciso distrair-se com a falta, para desviar-se do corpo. É preciso vestir-se. Faltam as roupas para o humano nú. Porque houve privação de significado, é oferecida a cultura. Em nosso caso, uma cultura familiarista, que trata de preservar essa instância de acumulação fundamental para o capitalismo. Li num post do  Multiversus que o casamento vai acabar: as pessoas vão assumir o que ele realmente é: um contrato de instituição de pessoa jurídica …

No limite, entendo que Deleuze tem uma posição revolucionária, e acusa a psicanálise de “reformismo”. Não acredito que o consultório seja um dispositivo revolucionário, porque não acredito em revoluções em nível individual. Acreditar nisso é fortalecer o individualismo que sustenta a calamidade de nossos tempos. Mas, acredito que a psicanálise pode restaurar a possibilidade de amar se os psicanalistas puderem conduzir as análises para além do papai e da mamãe. Para que haja alguma revolução no nível em que esta tem que acontecer, isto é, no nível em que se formam os laços sociais pela produção, as pessoas tem que estar fortemente ligadas. A psicanálise possibilita que eles venham para esse encontro como são: desejo!

A manutenção do Édipo é equivalente ao esforço dos capitalistas no refreamento da história. Essa frase pode soar datada, mas acredito nisso. A revolução é inevitável, assim como a destruição do Édipo. Enquanto isso não acontece, gozamos miseravelmente …

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Uma resposta to “Papai e mamãe”

  1. Karen Says:

    Gosto muito da sua posição sobre o Anti èdipo, você sabe disso. Fiz uma provocaçãozinha pra saber como você iria se posicionar qto ao diagnóstico diferencial, pois se é certo que a psicanálise fez um culto à castração(como Deleuze aponta), e se utilizou do Édipo para tanto, depois de absorvida a crítica, como ficariam as questões clínicas, a direção do tratamento, o diagnóstico diferencial? Qual é o valor clínico do Édipo que não pode ser abandonado, este é o ponto que quero avançar contigo.

    É certo que ficamos, ao que tudo indica, com Lacan e a formalização do Nome do Pai como uma função desprovida dos significados culturais atribuídos? É possível isto, de fato? É pergunta que me faço.

    Acho que você bateu no gatilho certo ao comparar o Anti èdipo ao Anti Cristo, pois é certo que a crítica de Deleuze, no tom raivoso e pejorativo que ela se faz, tem como alvo o círculo de negação da vida, do culto à castração.

    Agora, tem um ponto interessante ainda que acho que não avançamos no grupo de discussão: o estatuto da linguagem para a constituição deste que tanto falamos, o ser. Nesse ponto, acho que há bastante por fazer…


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