No princípio era o sexo …

18/02/2009

… mas não sabíamos disso. Isto, é sabíamos, mas não podíamos falar disso e, se não podíamos falar, isso não era. Mas, o Isso era. Eu não sabia, mas Isso sabia. Que júbilo ouvir falar do sexo! Que júbilo falar do sexo. Se, quando crianças, podíamos exercitar essa fala específica de maneira rudimentar (não vamos esquecer do prazer com os palavrões), depois da descoberta do sexo, passamos a falar disso de maneira muito mais sofisticada! Ganhamos o erotismo e o que era uma mera desconfiança tornou-se oficial: existe uma arkhé; o sexo é a arkhé!

Júbilo da mesma natureza, tive quando li o One-dimensional Man, de Herbert Marcuse. Infelizmente, esse júbilo não veio acompanhado de maravilhamento … Depois da leitura deste livro, passei a entender a dinâmica que engendrava a minha ansiedade no mundo do trabalho. Nunca entendi porque as pessoas se agridem tanto no trabalho. Tenho a impressão de que, em geral, as relações dentro das empresas e entre as empresas que, de fato, são relações entre pessoas, são muito ruins. Também, pudera: na falta de oportunidade de efetivar-se a partir do desejo, os trabalhadores entregam-se a relações de gozo, tomando como objeto seus companheiros. Parece que estão todos esperando o momento oportuno para dar sua gozadinha. Ah, e como gozam os nossos heróis da classe trabalhadora!

“Keep you doped with religion and sex and TV
And you think you’re so clever and classless and free
But you’re still fucking peasants as far as I can see
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be”

O trecho acima é da canção do John Lennon, e não do Marcuse! Mas acho que o Marcuse concordaria com o que nele se afirma.

A capa da edição que tenho desse livro é sensacional!

marcuse

Muitas vezes me sentei nessa cadeira … Muitas vezes pensei em qual era o sentido do que eu fazia ali, junto com outras pessoas que também sentavam nessa cadeira. Eu achava que passava tempo demais nesse lugar! O que eu não entendia era porque se o trabalho que alí fazíamos, era feito para o homem, sofria-se tanto na experiência desse trabalho. O que justificava as úlceras e o mau humor? A resposta já estava escrita, em 1964, nas páginas do One-Dimensional Man. Então era isso, desde o princípio!

“Vivemos e morremos racionalmente e produtivamente. Sabemos que a destruição é o preço do progresso, assim como a morte é o preço da vida; que a renúncia e o esforço são pré-requisitos da gratificação e da alegria, que os negócios devem continuar e as alternativas são utópicas. Essa ideologia pertence ao aparato social estabelecido; é um requisito para o seu funcionamento contínuo e parte de sua racionalidade.”

Então é por isso que sofremos na sociedade industrial avançada!

Outros textos que me proporcionaram esse júbilo em que não há maravilhamento foram A Ideologia Alemã, de Marx e Engels, e A Genealogia da Moral, de Nietzsche. Isso, para não mencionar uma lista muito longa, que incluiria Adorno, Horkheimer, Foucault, Deleuze, Heidegger, Lacan, Freud, Spinoza e muitos outros. Esses pensadores todos não concordariam entre si, mas suas idéias tentam dar conta da intuição de que existe alguma coisa que não está muito bem explicada no discurso estabelecido, assim como muitas coisas não estavam explicadas no discurso dos adultos antes de eu saber das moções do sexo.

Isso deve ser suficiente para que o homem deseje a filosofia.

E pensar que tem gente achando que a crise atual do capitalismo é uma crise psicológica … bastaria aplicar uma boa terapia comportamental para  estimular o consumo e as coisas se resolveriam … pfui … é como tentar sair de um estado depressivo indo às compras … pfui mais uma vez …

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3 Respostas to “No princípio era o sexo …”

  1. Karen Says:

    clap, clap!

  2. miguel Says:

    lendo o seu texto nao tive dúvida! acho que nasceu sob a regência de netuno. Se chutar 19 de março está muito fora? Pensando bem, acho que sim, pois um amigo, nativo desse dia, é muito menos perspicaz e interessante. Ah, só para constar, embora nao seja importante, nao sou gay! Abraços. Está indo muito bem!!!

  3. Adriana Fegyveres Says:

    Ah tá…….


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