Ao invés de cortar a própria orelha, colorir o mundo!

25/02/2009

“Who draws the conclusion, that I mentally medicate a human who has broken his leg, is very true – but I adjust the fracture and dress the wound. And then – I give him a massage, make exercises with him, give a daily bath to the leg, with water of 45 centigrade for half an hour and I take care, that he does neither gorge nor booze, and every now and then I ask him: Why did you break your leg, you yourself ?”

Minha tradução:

“Quem chega à conclusão de que eu curo mentalmente um humano que fraturou sua perna, está muito certo – mas eu ajusto a fratura e cubro a ferida. Então – eu faço uma massagem, faço exercícios com ele, aplico um banho diário à perna, com água a 45 graus centígrados por meia hora e cuido para que ele não coma exageradamente nem beba e, de tempos em tempos pergunto: porque você fraturou sua perna, você mesmo?

A quem Georg Groddeck dirigia essa pergunta?

Se ele foi um psicanalista, é certo que não ao “eu”.

A tese dele é que criamos as nossas doenças, até mesmo as somáticas, cujo substrato é psíquico. No limite, até mesmo as doenças infecciosas são criação nossa: os bacilos estão aí para todos; por que somente alguns adoecem por conta deles?

Parece radical, e é, mas, não da maneira como o senso comum trataria essa idéia como radical. A radicalidade aparece aqui como uma autonomia total do “eu” voluntarioso.

A pergunta que Groddeck coloca ao paciente da perna fraturada pode ser colocada a uma instância que está mais além do “eu” e do princípio de prazer. As falas de um analista são colocadas para Isso que responde, e não para a pessoa no divã.

Aliás, o termo Isso foi introduzido no discurso analítico por Groddeck. Freud dá notícia disso em “O Ego e o Id”, e ele chegou a perguntar para Groddeck se o uso do termo foi inspirado por Nietzsche.

Na Genealogia da Moral, Nietzsche escreveu que o agente, o sujeito da frase, é um erro da linguagem: o que existe é a ação, o verbo. Não precisaríamos dizer “a luz ilumina”; bastaria dizer “ilumina”. Não deveráimos dizer “eu penso”, mas dizer “isso pensa”, ou, ainda melhor, apenas “pensa”.

Tanto a formulação do Isso, quanto a idéia de que a doença é uma criação parecem ter inspiração nietzscheana.

No entanto, não é apropriado chamar essa criação de “doença”. Isso seria patologizar o que somos. Será doença na medida em que essa criação não for promotora da vida, mas for negação desta. Melhor chamar essa criação empobrecedora de sintoma. Ela proporciona um gozo miserável. Sáude é, então, gozar alegremente da criação desejante; gozar alegremente do desejo: ao invés de cortar a própria orelha, colorir o mundo!

O psicanalista pergunta ao Isso, para que o desejo responda.

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3 Respostas to “Ao invés de cortar a própria orelha, colorir o mundo!”

  1. Karen Says:

    O texto do Groddeck é ótimo! Seu post foi muito bonito.

  2. OM Says:

    Muito bom. Mim querer colorir o mundo. Estarei amanhã no seu aniversário para que possamos não cortar as orelhas e ganhar forças para colorirmos o mundo. Não foi de graça que o primeiro quadro no multiuniversus era o “Noite Estrelada” do Van Gogh. Grande abraço

  3. Adriana Fegyveres Says:

    Agora que li de novo……só não saquei direito o último parágrafo…rsrsrsrs
    Ele era fundamental para a compreensão do todo, ou só com o que eu entendi eu já posso colorir o mundo e não cortar a orelha e nem ser atingida pelos bacilos ?????

    ã? ã?
    Beijos


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