Alma imoral?

28/03/2009

Uma contradição em termos no título do monólogo apresentado no auditório de uma livraria famosa em São Paulo. Na mesma parede do auditório, do lado de fora, é possível encontrar a lombada vermelha, com letras amarelas, do volume que contém a edição brasileira da Genealogia da Moral, de Nietzsche.

O monólogo, baseado na obra de um sacerdote dito progressista, mantém o mesmo fundamento do ascetismo negador da vida e desprezador do corpo desmascarado pelo filósofo.

Na tentativa de evocar Dioniso, a atriz livra-se do tecido que cobre seu corpo para lançar seu discurso. O velho deus recusa-se a manifestar-se e a coisa toda se transforma numa palestra em que a palestrante senta-se nua diante da platéia para falar da virtude transgressora da alma, em oposição às forças conservadoras do corpo, instituindo uma moralidade da transgressão tão ascética quanto a moralidade de rebanho porque, como essa, fundamenta-se na separação de corpo e alma, como se existissem duas instâncias separadas (corpo e alma) que juntas compõe o Ser humano.

Por que manter as coisas nesses termos?

Isso que no monólogo é denominado corpo, pode ser encontrado no pensamento de Freud como pulsão de morte, e no de Lacan como gozo. Trata-se de um retorno ao inanimado, o que não quer dizer exatamente o que entendemos por morte. Quem tem medo de morrer é o “eu”. Para “isso” não existe diferenciação entre vida e morte. Fazer do corpo uma instância de conservação e perpetuação da espécie é desconsiderar as descobertas da psicanálise. Obviamente, não esperamos que um sacerdote fundamente seu discurso nessas descobertas. O que pretendemos é fazer ver que o que parece transgressão no discurso dele é conservadorismo, adaptação, auto-ajuda.

Somos corpo. Somos isso onde se forma um eu, essa instância de determinação e identidade ilusórias, indispensável para que participemos do órgão compartilhado que é a linguagem. Órgão do desejo.

Não se trata de articular o corpo pecaminoso e a alma imortal: trata-se de articular prazer e morte; desejo e gozo, para além de bem e mal.

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2 Respostas to “Alma imoral?”

  1. Xico Lennon Says:

    Stelião,
    Tanta coisa importante para se preocupar e aquele povo ainda fica se preocupando em justificar as próprias decisões.
    Alguém inteligente que ainda precisa de autorização moral para ser senhor de seus atos simplesmente não me desce goela abaixo.
    Já é tão estreita a margem que a realidade dá para a gente andar, para quê inventar limites ainda maiores.
    Será que a esperança de continuar sendo depois de morrer justifica tudo isso? Será que ficar lembrando pela eternidade o que foi vivido vale tanto a pena?
    Putz, que sono.
    Até
    Xico

  2. dani Says:

    eu até ia assistir mas perdi a vontade, e vc indica mesmo assim?


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