“A strong ego affords some protection against falling ill; but in the end we must necessarily start loving if we are not to fall ill, and we must necessarily fall ill if refusal* makes us incapable of loving.”

(Freud, On the introduction of Narcissism, trad.  John Reddick)

*[Freud’s important but challenging term is Versagung, from the verb versagen, itself cognate with English ‘forsake’ – one now-obsolete meaning of wich is ‘To decline or refuse (something offered)’ (OED – Oxford English Dictionary). What he means by the term is rather more clearly shown by the opening sentences of ‘Die am Erfolge scheitern’ (‘Those who founder on Success’): ‘Our work in psychoanalysis has presented us with the following proposition: People incur neurotic illness as a result of refusal. What is meant by this is that their libidinal desires are refused gratification’ – i.e. by the savagely censorious entity within that oversees their very thought and deed. See also the penultimate sentence of this present essay: ‘We can thus more readily understand the fact that paranoia is frequently caused by the ego being wounded, by gratification being refused within the domain of the ego-ideal.’ The Standard Edition routinely and astonishingly mistranslates the term as ‘frustration’.]

Minha tradução:

“Um ego forte conta com alguma proteção contra o adoecimento; mas, no final das contas, precisamos necessariamente começar a amar se não vamos adoecer, e necessariameente adoeceremos se a recusa nos fizer incapazes de amar.”

“O termo importante mas desafiador de Freud é Versagung, do verbo versagen, ele mesmo cognato do inglês forsake – cujo um dos significados, agora obsoleto, é ‘declinar ou recusar (alguma coisa oferecida). O que ele significa com o termo é mostrado mais claramente nas sentenças de abertura de ‘Aqueles que fracassam no sucesso’: ‘Nosso trabalho na psicanálise nos apresentou a seguinte proposição: as pessoas incorrem no adoecimeento neurótico como resultado de recusa. O que se significa com isso é que seus desejos libidinais têm gratificação recusada.’ Isto é, pela entidade interior selvagemente censuradora que supervisiona seus próprios pensamentos e intenções. Veja-se também a penúltima sentença do presente ensaio: ‘Nós podemos então entender mais prontamente o fato da paranóia ser frequentemente causada pelo ego sendo ferido, pela gratificação sendo recusada dentro do domínio do ego-ideal.’ A Edição Standard [Stratchey] rotineiramente e assustadoramente traduz erroneamente o termo como ‘frustração’.”

Minha leitura:

Não se trata então de “frustar a demanda” do paciente, mas de “recusar a demanda” deste. Como? Recusando a oferta de reconhecimento que ele nos faz. Oferta de reconhecimento=demanda de amor.

Outro problema de tradução que, se for ultrapassado pode facilitar o entendimento disso: por que verter “discours du maître” como “discurso do mestre”?!?!? É tão óbvio que trata-se do “discurso do senhor”! Senhor que é a verdade do escravo,  como mostra o “discurso do universitário” que poderia, talvez, chamar-se também “discurso do escravo”.

Ao recusar o reconhecimento que o paciente oferece como dádiva, o analista recusa a demanda que este lhe faz. Qual seja: a demanda de aceitá-lo (o paciente) como sua verdade (a do analista). Isto é, ao recusar a oferta de reconhecimento que o paciente lhe faz, o analista recusa-se a reconhecê-lo como sua verdade, o que engendraria uma relação de amor.  Isto está em Hegel. Lembremos que “senhor e escravo” em francês diz-se “maître et esclave”. (por que traduziram “maître” como “mestre”?!?!?)

Poderia-se advogar a favor da tradução corrente recorrendo à uma relação “mestre/universitário” ao invés de “senhor/escravo”. Isso só me faz preferir a oposição “senhor/universitário”.

Nessa recusa, o analista cancela a dialética do reconhecimento proposta por Hegel. O senhor da psicanálise é o senhor para além de bem e mal. Senhor cuja ética é a ética da psicanálise, como pode enunciar veementemente Néstor Braunstein em seu Gozo*. Esse senhor afirma-se em seu ato; ele é ato: isso está documentado nas páginas da Genealogia da Moral, d’isso que cataloga-se sob “Nietzsche”.

Ao propor o mestre no lugar do senhor perde-se a coloração ética. Mas não é de ética que se trata?!?!?

De agora em diante lerei “recusa da demanda” e “discurso do senhor”.

Mas, não posso deixar de agradecer aos maus tradutores o material para fricção. Os erros deles tornam mais divertido pensar a psicanálise. Vou brincar um pouco com “a-senhorar-se” e “a-mestrar-se”. Vou brincar também com a idéia de que o paciente chega procurando Hegel e encontra Nietzsche!

* se faço argumento à autoridade evocando Braunstein, faço isso por exigência da brevidade que este meio, o email, sugere. Estou disposto e disponível para desenvolver esse argumento em outros meios.

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Função poética

23/06/2009

Arquíloco

Arquíloco

Jakobson, 1960:

“A poesia épica, centrada na terceira pessoa, põe intensamente em destaque a função referencial da linguagem; a lírica, orientada para a primeira pessoa, está intimamente vinculada à função emotiva …”

Nietzsche, 1872:

“O gênio lírico sente brotar, da mística auto-alienação e estado de unidade, um mundo de imagens e de símiles, que tem coloração, causalidade e velocidade completamente diversas do mundo do artista plástico e do épico. Enquanto este último vive no meio dessas imagens, e somente delas, com jubilosa satisfação e não se cansa de contemplá-las amorosamente em seus menores traços, enquanto até mesmo a imagem de Aquiles enraivecido é para ele apenas uma imagem cuja raivosa expressão desfruta com aquele seu prazer onírico na aparência – de tal modo que, graças a esse espelho de aparência, fica protegido da unificação e da fusão com suas figuras -, as imagens do poeta lírico, ao contrário, nada são exceto ele mesmo e como que tão-somente objetivações diversas de si próprio. Por essa razão, ele, como centro motor daquele mundo, precisa dizer ‘eu’: só que essa ‘eudade’ [Ichkeit] não é a mesma que a do homem empírico-real, desperto, mas sim a única ‘eudade’ verdadeiramente existente [seiende] e eterna, em repouso no fundo das coisas, mediante cujas imagens refletidas o gênio lírico penetra com o olhar até o cerne do ser.”

Gozo místico?

Gozo místico?

Como saber se Santa Teresa d’Ávila de fato gozava? E se fosse apenas mascarada? Que provas ela deva de seu gozo? Basta o relato desse gozo?

Diz-se que ela levitava durante a missa … Uau! Que gozada! Também, pudera, estava sendo copulada pelo próprio Deus!

As santas do nosso tempo não levitam: ejaculam!

p.s.: o chamado “gozo místico” parece ser possível, em graus diferentes. Isso, aprendi com Nietzsche e com a música. Soube do ue se trata com Bataille, no capítulo “Misticismo e Santidade” de seu “Erotismo”. É possível gozar para além do falo. É um gozo de entrega, que não precisa se mostrar. Um gozo de quem pôde, por instantes, ultrapassar os limites do “eu”, isto é, os limites do corpo, entendido aqui como o corpo da psicanálise. O gozo do outro sexo: da mulher. Um gozo que não se imaginariza: daí o desespero e a urgência em ver Teresa levitando, ou Carly ejaculando. Dersconfia-se da mulher, quando o que é preciso, não é obter provas de seu gozo, mas aprender a gozar com ela.