Por causa da Versagung

24/06/2009

“A strong ego affords some protection against falling ill; but in the end we must necessarily start loving if we are not to fall ill, and we must necessarily fall ill if refusal* makes us incapable of loving.”

(Freud, On the introduction of Narcissism, trad.  John Reddick)

*[Freud’s important but challenging term is Versagung, from the verb versagen, itself cognate with English ‘forsake’ – one now-obsolete meaning of wich is ‘To decline or refuse (something offered)’ (OED – Oxford English Dictionary). What he means by the term is rather more clearly shown by the opening sentences of ‘Die am Erfolge scheitern’ (‘Those who founder on Success’): ‘Our work in psychoanalysis has presented us with the following proposition: People incur neurotic illness as a result of refusal. What is meant by this is that their libidinal desires are refused gratification’ – i.e. by the savagely censorious entity within that oversees their very thought and deed. See also the penultimate sentence of this present essay: ‘We can thus more readily understand the fact that paranoia is frequently caused by the ego being wounded, by gratification being refused within the domain of the ego-ideal.’ The Standard Edition routinely and astonishingly mistranslates the term as ‘frustration’.]

Minha tradução:

“Um ego forte conta com alguma proteção contra o adoecimento; mas, no final das contas, precisamos necessariamente começar a amar se não vamos adoecer, e necessariameente adoeceremos se a recusa nos fizer incapazes de amar.”

“O termo importante mas desafiador de Freud é Versagung, do verbo versagen, ele mesmo cognato do inglês forsake – cujo um dos significados, agora obsoleto, é ‘declinar ou recusar (alguma coisa oferecida). O que ele significa com o termo é mostrado mais claramente nas sentenças de abertura de ‘Aqueles que fracassam no sucesso’: ‘Nosso trabalho na psicanálise nos apresentou a seguinte proposição: as pessoas incorrem no adoecimeento neurótico como resultado de recusa. O que se significa com isso é que seus desejos libidinais têm gratificação recusada.’ Isto é, pela entidade interior selvagemente censuradora que supervisiona seus próprios pensamentos e intenções. Veja-se também a penúltima sentença do presente ensaio: ‘Nós podemos então entender mais prontamente o fato da paranóia ser frequentemente causada pelo ego sendo ferido, pela gratificação sendo recusada dentro do domínio do ego-ideal.’ A Edição Standard [Stratchey] rotineiramente e assustadoramente traduz erroneamente o termo como ‘frustração’.”

Minha leitura:

Não se trata então de “frustar a demanda” do paciente, mas de “recusar a demanda” deste. Como? Recusando a oferta de reconhecimento que ele nos faz. Oferta de reconhecimento=demanda de amor.

Outro problema de tradução que, se for ultrapassado pode facilitar o entendimento disso: por que verter “discours du maître” como “discurso do mestre”?!?!? É tão óbvio que trata-se do “discurso do senhor”! Senhor que é a verdade do escravo,  como mostra o “discurso do universitário” que poderia, talvez, chamar-se também “discurso do escravo”.

Ao recusar o reconhecimento que o paciente oferece como dádiva, o analista recusa a demanda que este lhe faz. Qual seja: a demanda de aceitá-lo (o paciente) como sua verdade (a do analista). Isto é, ao recusar a oferta de reconhecimento que o paciente lhe faz, o analista recusa-se a reconhecê-lo como sua verdade, o que engendraria uma relação de amor.  Isto está em Hegel. Lembremos que “senhor e escravo” em francês diz-se “maître et esclave”. (por que traduziram “maître” como “mestre”?!?!?)

Poderia-se advogar a favor da tradução corrente recorrendo à uma relação “mestre/universitário” ao invés de “senhor/escravo”. Isso só me faz preferir a oposição “senhor/universitário”.

Nessa recusa, o analista cancela a dialética do reconhecimento proposta por Hegel. O senhor da psicanálise é o senhor para além de bem e mal. Senhor cuja ética é a ética da psicanálise, como pode enunciar veementemente Néstor Braunstein em seu Gozo*. Esse senhor afirma-se em seu ato; ele é ato: isso está documentado nas páginas da Genealogia da Moral, d’isso que cataloga-se sob “Nietzsche”.

Ao propor o mestre no lugar do senhor perde-se a coloração ética. Mas não é de ética que se trata?!?!?

De agora em diante lerei “recusa da demanda” e “discurso do senhor”.

Mas, não posso deixar de agradecer aos maus tradutores o material para fricção. Os erros deles tornam mais divertido pensar a psicanálise. Vou brincar um pouco com “a-senhorar-se” e “a-mestrar-se”. Vou brincar também com a idéia de que o paciente chega procurando Hegel e encontra Nietzsche!

* se faço argumento à autoridade evocando Braunstein, faço isso por exigência da brevidade que este meio, o email, sugere. Estou disposto e disponível para desenvolver esse argumento em outros meios.

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8 Respostas to “Por causa da Versagung”

  1. Karen Says:

    Stelio, vou aproveitar para fazer uma outra pergunta, que não tem a ver diretamente com o tema do post: a idéia de que existem no mundo, senão interpretações, o perspectivismo, está em Nietzsche tal e qual, ou é uma interpretação do Deleuze? Isso porque tive que escrever uma nota de rodapé sobre: “as forças que se apoderam das coisas”, precisava da referência mais precisa para procurar.

  2. Stelio de Carvalho Neto Says:

    Fala Karen!

    Não entendo que as perspectivas, ou interpretações, tenham estatuto ontológico. Isto é, o que existe é força e vontade de poder. São estas que engendram as perspectivas, ou “verdades”. Entendo “as forças se apoderam das coisas” como afirmação de que as forças conduzidas por uma vontade de poder determinada se apoderam das coisas afirmando uma verdade também determinada: uma interpretação, portanto.

    Levo muito a sério o Deleuze diz que foi enrabado pelo Nietzsche: até agora, tenho a impressão de que ele n]ão acrescentou nada ao que está nos escritos do filósofo. Como bom professor, o que ele fez foi organizar um roteiro de leitura.

    Em “Além do Bem e do Mal”, Nietzsche trabalha bem o desvelamento da verdade como interpretação.

  3. Karen Says:

    Sim, obrigada. Depois quero que você leia meu artigo do Deleuze e da crítica à clínica. Quiçá assinemos juntos, se seus superpoderes nietzschianos assim o prouverem.

    Ai, Stelio… cá com meus botões, eu entendo que idéias de Deleuze são sim remisssíveis a Nietzsche, assim como algumas da psicanálise… mas como em toda repetição engendra uma diferença, a do próprio ato de repetir, ao menos, esta diferença criada com o ato da repetição não se pode diluir ela mesma em um abismo… porque o modelo de Deleuze é a natureza, no fundo, o rizoma em sua multiplicidade, se diferenciando. Assim, como os animais, temos espécies, territórios e não podemos territorializar o pensamento de Deleuze com o de Nietzsche. A menos que considere que elogio ao esquizo, a resistência ao capitalismo, o rizoma, sejam formas puras nietzschianas, estruturais, não sei bem.

    Por um interpretação Deleuzeana do pensamentos de Deleuze, avante!

    Além do que o Deleuze disse que o filosófo do coração dele é o Spinoza. Coração ou rabo?
    Qual máquina-órgão interpreta o mundo?

    • Stelio de Carvalho Neto Says:

      Pois é Karen … o coração participa na interpretação, mas quem produz é o rabo … o rabo do sujeito barrado!

      Me furtei de fazer uma ressalva importante: estou me referindo especificamente ao volume “Nietzsche e a Filosofia”, e não aos escritos de Deleuze em que ele apresenta seu pensamento.

      Concordo com você sobre o fato de que ele colocou idéias próprias e de que está aí, disposto a enrabar quem dele quiser se aproximar!

  4. Karen Says:

    Uma lamentação: perdi meu Anti Édipo! snif!

  5. Stelio de Carvalho Neto Says:

    Regozije-se! Vocẽ terá mais tempo para o Nascimento da Tragédia!

  6. Claudia Says:

    Vocês são muito cabeçudos!

  7. Karen Says:

    Mas, castrados! Não to fazendo nada, você também, que tal bater um papo assim castrado com alguém!


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