Alexitimia?!?!?

19/08/2009

Então inventaram esse termo: alexitimia. Foi em 1973, um tal Peter, se não me engano. O termo serve para designar um determinado quadro “clínico”: a incapacidade do “paciente” em falar sobre seus sentimentos. Uma tradução literal do termo, que se forma a partir de significantes gregos, poderia ser “sem palavras para as emoções”. Mas, quem tem palavras para as emoções? Não é preciso forjá-las sempre? Não é esse o trabalho do poeta lírico? Não é esse o legado de Arquíloco? Que alguém tente me descrever a angústia sem passar pelo lirismo! As tentativas de descrever isso com base em processos físicos e químicos me parecem poesia menor. Tomar a maneira de Lacan, através de grafos, equações e figuras topológicas é o recital enfadonho da poesia dele, que tem sua genialidade.

Enquadrar a incapacidade lírica no discurso da ciência, através de um termo, de uma tabela de valores, de um protocolo de pesquisa, parece servir apenas para neutralizar qualquer possibilidade de crítica. Ainda bem que as palavras forjadas e arranjadas por Nietzsche e Heidegger não perden sua força diante da poesia fraca do discurso da ciência!

Essa timidez poética (e não será essa a natureza de toda timidez?) é, nos textos científicos, associada às questões da psicossomática da seguinte maneira (grosso modo): as lesões no corpo substituem a fala sobre os sentimentos, que não se dá. Bem ,se for assim, a psicossomática é uma maneira possível de descrever os sentimentos. Mas, falta explicar por que é escolhida essa maneira? Eu ainda prefiro trabalhar na minha hipótese do “corpo ad hoc”, isto é, de que esses pacientes não têm “corpo”, e o fenômeno psicossomático é a tentativa de esculpir um corpo na própria carne.

Numa pesquisa da qual participo, sobre psicossomática, constata-se mesmo essa dificuldade dos pacientes em expressarem o que sentem na fala. Outro dia, numa reunião do grupo que faz essa pesquisa, levantei a possibilidade de que essa timidez poética esteja ligada a fatores socioculturais, dado que a pesquisa é realizada numa insituição da rede pública de saúde, e a maioria absoluta dos pacientes é de classe financeiramente pobre. Fui considerado preconceituoso, como se estivesse dizendo que pobres não fazem poesia. Não creio que a proposição “pobres não fazem poesia” seja consequência necessária de meu raciocínio. De qualquer maneira, essa proposição não é minha!

Mas, será que podemos levantar a hipótese de que nesses tempos em que a razão instrumental hegemônica tende a aniquilar a poesia (sua contrária), e em que o acesso às formas mais sublimes da cultura (sim, eu acredito em formas mais sublimes da cultura) está, numa medida importante, possibilitado por condições financeiras melhores e, ao mesmo tempo, dificultado para aqueles que alimentados pela indústria alimentícia, cozinham no caldeirão do Huck – será que podemos levantar a hipótese de que essa timidez lírica seja consequência da racionalidade de nossos tempos, e que essa consequência seja mais perversa entre os mais pobres? É evidente que, ainda bem, muitos sujeitos escapam à essa lógica, tanto nas classes mais ricas, quanto nas mais pobres. É possível que a realidade não seja tão adorniana quanto parece …

O preconceito linguístico não ajuda em nada. Já percebi que alguém pode se calar simplesmente por vergonha de falar diante do “doutor”. Os personagens de Guimarães Rosa se expressavam à sua maneira, porque se expressavam no sertão. Talvez se calassem na metrópole ubíqua contemporânea: seriam personagens de Graciliano Ramos …

Em suma, isso que se chama “alexitimia” é coisa antiga. Talvez exista desde o tempo em que os gregos deixaram de ser pessimistas e trágicos, e se transformaram em otimistas e teóricos. Não sei o que se ganha associando isso à psicossomática. É evidente que o fenômeno se apresenta para muito além disso. Bem dizer “alexitimia” pode ser dizer “apoesia”. Melhor manter a primeira bem longe do consultório, psicanalítico, bem dito.

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5 Respostas to “Alexitimia?!?!?”

  1. usernarme Says:

    Cara de saco, você não vai comentar o meu novíssimo blog?!
    Vou te propor um desafio: ilustrar sua hipótese com a clínica. Tome os devidos cuidados.
    beijoca

    • Stelio de Carvalho Neto Says:

      Vi o seu blog, li e propus um desafio também! Vou trabalhar na ilustração da minha hipótese com uma vinheta clínica, mas não com um caso.

  2. Mariana Says:

    gostei muito da sua fala.


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