O estranho

11/09/2009

Jack Torrance é um tipo “estranho”, tomando este termo no sentido que Freud dá para ele no artigo sobre o “Das Umheiliche”.

A cena que mais me impressiona em “O Iluminado” é aquele na qual a esposa de Jack ouve, com alívio, o som familiar dos tipos da máquina de escrever chocando-se com o tambor da máquina para depositar tinta sobre a folha de papel que desliza entre os dois: os tipos e o tambor.

Ah, que alívio importante da tensão provocada pelo isolamento no Overlook Hotel! Jack está trabalhando! Tão produtivo! Parece um pianista inspirado executando um concerto exuberante no teclado da máquina de escrever … quando, num momento em que Jack se afasta da mesa de trabalho, ela pode ler o que ele vêm produzindo, ela encontra página s e páginas preenchidas com a frase “All work and no play makes Jack a dull boy” …

Tudo tão familiar e tudo tão estranho … acho isso muito mais arrepiante (“espeluznante” na tradução de Freud para o espanhol) do que as aparições das crianças gêmeas, da mulher na banheira etc.

Jack Torrance no salão de festas Do Overlook, em 1921 ... estranho ...

Jack Torrance, na parte de baixo, ao centro (Salão de festas do Overlook, 1921): estranho ...

Outro toque absolutamente “Umheilich” é a foto do baile que aconteceu no hotel em 1921, em que Jack aparece como um “mestre de cerimônias”, ou um anfitrião: “Wish you were here”, está grafado nessa imagem … Agradeço a intenção, mas declino  …

Mas o que é mesmo esse fenômeno do estranhamento? Parece ser o desvelamento de que pode haver um outro sentido, uma  outra razão, operando para além do sentido da cotidianidade. Um sentido inapreensível até mesmo para essas narrativas fantásticas. Kubrick não “fecha” a história … permanecemos na estranheza, sem uma explicação dos acontecimentos no Overlook Hotel. O que fica desvelado é a fragilidade do sentido.

Quando nos deparamos com trabalhos como O Iluminado (e falo somente do filme: não li o livro), talvez tenhamos a oportunidade de vislumbrar o que está para além do mundo como o conhecemos. Não se trata aqui de algo sobrenatural; de um outro mundo onde vigoram outras leis: trata-se mesmo do único mundo existente, sobre o qual, geralmente, estamos bem seguros, mas que não deixa de ser estranho …

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Uma resposta to “O estranho”

  1. usernarme Says:

    Gostei da parte da “fragilidade do sentido”. Mediante “o estranho”, a objetividade do conhecimento mostra sua fraqueza.


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