Juntos

06/11/2009

Parece que enquanto Nietzsche aposta na tragédia, isto é, na música e no drama (especialmente na música!), Freud e Lacan apostam na psicanálise.

Mas, para aproximar todas eles, talvez seja prudente pensar a cultura e o indivíduo como “psicologias” distintas. Talvez seja necessário tomar o  pensamento de Nietzsche, que está declaradamente endereçado à cultura, como analogia para pensarmos a psicologia dos indivíduos. É mais ou menos como o exercíco de Platão na República: para podermos responder o que é a justiça, ao invés de procurá-la imedidatamente no homem, vamos procurá-la na pólis: uma vez que tenhamos apreendido (ou recuperado) a idéia de justiça, voltamos então ao homem para poder enunciar o que é um “homem justo”.

Talvez seja necessário mais um passo ainda. Tomamos a cultura adoecida descrita por Nietzsche, e a terapêutica que ele propõe (a tragédia) e uma vez munidos desses elementos, voltamos ao sujeito do divã, a quem propomos a psicanálise: será que podemos encontrar nesse sujeito o dionisíaco, o apolíneo e o socrático? Será que esse sujeito está estabelecido como uma cultura dionisíaca (esquizofrênico) ou apolínea (paranóico)? Socrática (o simbólico subjuga o real, “a música se submete às palavras”) ou trágica (o real inspira o simbólico). O passo além é voltar à cultura e saber se, junto com a tragédia proposta por Nietzsche, podemos propor a psicanálise. Para mim, foi importante atravessar o texto de Nietzsche para acompanhar o movimento que ela faz da Grécia até a  Alemanha, para poder acreditar num renascimento da tragédia no lugar da “ópera”, onde a música é “funcionária” das palavras. É mesmo nos capítulos finais em que aparecem no texto dele “drama” e “música” como coisas distintas. Isso me faz pensar que o sintoma é como um drama sem música, como uma ópera: talvez seja por isso que ele se torna ridículo depois que é atravessado na análise (em geral, a ópera me parece ridícula). Um certo riso do paciente certamente marca esse atravessamento do “drama”. Penso que esse tipo de atravessamento permita à orquestra trocar as partituras e tocar música pra valer. O herói do drama está lá para ser atravessado; está lá para morrer: isso está muito bem escrito por Nietzsche, e foi bem falado por Lacan naquela palestra em Louvain: “Vocês fazem muito bem em crer que vão morrer! Do contrário, como poderiam suportar essas vidas que vocês levam …”

Ora, não ouvimos aí um eco da fala do Sileno, apresentada por Nietzsche nos primeiros capítulos do Nascimento da Tragédia? Mas ele avisa: para entendê-lo, é preciso ter experimentado a música, e avisa também que nem todos são músicos. Aliás, “muitos carregam o tirso, mas poucos são os místicos” (Sócrates, momentos antes de morrer), ou “muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos” (Cristo). Será que isso que vale para a música, vale também para a anáĺise? Parece que vale …

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Uma resposta to “Juntos”

  1. usernarme Says:

    Uau! A fala de Lacan é impactante. O seu texto é muito bom também, gostei das aproximações, fazendo o movimento de aproximar e distanciar da tragédia. Concordo com você…


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