Contatos

16/11/2009

Assisti esse documentário sobre o Cartier-Bresson ontem, depois de ver a exposição de suas fotos no SESC Pinheiros. Quando cheguei na sala de exibição do vídeo, este já estava começado. Não peguei a parte em que ele diz que “a prova de contatos é como o divã do psicanalista” mas a relação entre o ofício desse fotógrafo e o ofício do psicanalista se apresentou de maneira muito evidente na parte que vi do documentário. As imagens são de provas de contato: acho que isso não se usa mais nos tempo das câmeras digitais, mas quem fotografou com filme vai se lembrar delas. São cópias dos negativos em tamanho natural (sem ampliação). A partir dessa prova você escolhe que “cliques” vai ampliar. No documentário “Contacts”, a câmera percorre a folha de contato, deslizando pelos vários cliques até se fixar naquele escolhido para ser ampliado por Cartier-Bresson.

Eu já tinha saído da exposição com esse pensamento: o fotógrafo está lá, imerso no fluxo do mundo, com o dispositivo fotomecânico: a câmera. Ele entende de luz, de química, de mêcanica. Ele sabe ajustar a abertura do diafragma e a velocidade dessa abertura para, regulando a luz que sensibiliza o filme, conseguir a foto que dá aos olhares dos outros: “somos ladrões, mas é para dar”, diz ele no documentário. Então, ele liga o olho ao visor da câmera e prepara sua entrada no mundo. Ele deve entrar desprevinido: “Não se deve buscar. É preciso estar disponível, receptivo. É importante não pensar.” No momento oportuno, ele clica: num momento, vários instantes. Ele revela os negativos e imprime a prova de contatos: “A prova de contatos é como o divã do psicanalista”. Então, na folha de contatos, ele encontra uma composição, uma narrativa insuspeitada: “Tudo vem do inconsciente: não sabemos nada. É inconsciente”. Está lá o instantâneo! O feito! O ato! A ação do clicar efetivou a composição revelada na foto. Revela-se uma composição que não se apresenta ao mero olhar. Ou melhor, se apresenta como ato, depois do clique do fotógrafo.

Indicações preciosas de um fotógrafo para um psicanalista.  “Não se deve buscar … é importante não pensar”! Como disse Lacan, “é preciso não compreender depressa demais”. Não antes do ato … No momento oportuno, pontuamos os instantes e, talvez, alguma composição se revele em nossa prova de contatos. Talvez, o paciente queira ampliá-la. Talvez ele queira enxergar as coisas como elas se apresentaram relacionadas no instante daquele clique, remetendo a uma ordem que não se revela ao mero escutar.

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2 Respostas to “Contatos”

  1. Xico Lennon Says:

    Stelião,
    Vá escrever bem assim na casa do caralho. Tô com inveja. Até!
    Xico

  2. Stelio de Carvalho Neto Says:

    Valeu Xico!


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