Hálito

11/01/2010

“Come mortadela e arrota perú”. Essa máxima do senso comum encanta os ressentidos. Muita vez serve para atacar os “presunçosos” e “arrogantes”. Serve para atacar aqueles que se arriscam  a revelar um “gosto” que parece, aos olhos do ressentimento, vedado àqueles que não apresentam os brasões de uma  “alta burguesia” que imaginam existir, e revela a concepção do humano como mero aparelho digestivo.

Essa alegoria da mortadela e do perú trata da questão do hálito do arroto: daquilo que sai da boca dos sujeitos. Trata da fala e também do discurso, num sentido amplo. Mergulhando na alegoria, podemos dizer que esse hálito é questão de formação, e que essa formação se dá na dieta. Quem tem hálito de perú, arrota perú, mesmo que coma mortadela, e quem tem hálito de mortadela sempre arrota mortadela. O que determina o hálito é a dieta na qual o sujeito alimenta sua fala: ideías mais sutis, delicadas, sofisticadas produzem um hálito afim. Ideías grosseiras, de acento forte, de sabor muito limitado, produzem hálito grosseiro.

No limite, podemos pensar que o hálito é o sujeito, porque tratamos de algo que é mais do que mero tubo digestivo. O que o senso comum considera é que o hálito, ou sujeito, se faz na quantia de dinheiro que o sujeito gasta e, a partir disso, que a diferença entre mortadela e perú é uma diferença de quantidade. Se o sujeito ganha mortadela e gasta perú, é um presunçoso. Mas, não nos espanta essa concepção. o senso comum percebe quase que exclusivamente a quantidade. Não tem discernimento para qualidade.

Fiquemos com Wittgenstein:

“A main cause of philosophical disease – an unbalanced diet: one nourishes one’s thinking with only one kind of example.” Philosophical Investigations, 593

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5 Respostas to “Hálito”

  1. Maria Says:

    Oi Stelio! fazia tempo que eu não vinha dar uma espiada em vc. Tem se superado “cumpadi”. beijos. Maria

  2. usernarme Says:

    Gostei do que escreveu, achei cômico, bem bolado, mas não entendi a referencia aos ressentidos. Engraçado, eu pensava em outro tipo de pessoa nessa frase, na verdade, mais ligada a uma idéia de farsa mesmo. Pensava não em quem fala esse tipo de coisa, mas em quem faz. Na verdade conhecia a versão: “come sardinha, arrota caviar”. Se alimentar de uma coisa popular e se gabar de outra só para parecer “melhor” aos olhos de pessoas ingênuas.

    • Stelio de Carvalho Neto Says:

      Oi Karen,

      pensei nos ressentidos porque a maioria das vezes em que ouvi essa “máxima”, foi na voz desses tipos. A intenção nessa enunciação é desqualificar alguém, como se quem enuncia soubesse da “verdade” do outro e, por conta disso, se arroga o direito de revelar A Verdade que afere com sua medida nefasta. Nesse processo, o que se revela é a verdade do gozo ressentido.

      Beijo

      Beijo

  3. ana rüsche Says:

    (não tem a ver, mas tem a ver)
    a parte que mais gosto do desqualificar-alguém ocorre quando um corrige o ‘português’ do outro. principalmente em caixa de comentário de blogue do estadão, nesses populares. invariavelmente há um erro do acusador. anota. 😉
    beijo


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