Orgulho

17/02/2010

the-comtesse-dhaussonville-ingres

Comtesse d'Haussonville (1845), de Jean-Auguste-Dominique Ingres

“Some women have been made unhappy by petty considerations of pride and social convention, and have been placed in an intolerable position by the pride of their relatives. In generous compensation for all their misfortunes, Destiny decreed that they should know the bliss of loving and being loved with passion. But there comes a day when they borrow from their enemies that same insensate pride which had made them unhappy, only to destroy the unique happiness left to them, and to bring misfortune upon themselves and those who love them.” Stendhal, Love, Chapter 30, A Strange and Sorry Spectacle

Aqui vai o trecho traduzido do inglês (prefiro ler esses clássicos em inglês, porque as edições parecem mais cuidadosas e custam muito menos do que as edições em português):

“Algumas mulheres têm sido infelizes por conta de mesquinharias do orgulho e da convenção social, e têm sido colocadas numa posição intolerável por conta do orgulho de seus parentes. Como compensação generosa por todos os seus infortúnios, Destino decretou que eles devam conhecer a alegria de amar e serem amadas com paixão. Mas chega o dia em que elas tomam de seus inimigos o mesmo orgulho insensato que as têm feito infelizes, unicamente para destruir a única felicidade que resta para elas, e para trazer infortúnio para elas mesmas e para aqueles que as amam.”

No original francês:

“Les petites considérations de l’orgueil et des convenances du monde on fait les maulheurs de quelques femmes, et par orgueil leurs parents les ont placés dans une position abominable. Le destin leur avait réservé pour consolation bien supériere à tous leurs malheurs le bonheur d’aimer et d’êtrte aimées avec passion; mais voilá qu’un beau jour elles empruntent à leurs ennemies ce même orgueil insensé dont elles furent les preimières victimes, et c’est pour tuer le seul bonheur qui leur reste, c’est pour faire leur propore malheur etl le malheur des qui les aime.”

Stendhal escreveu isso no século XIX. Me parece que o tom é um tanto o quanto machista. Como se o autor estivesse pedindo que as mulheres não efetivassem o orgulho fálico, para que o amor pudesse acontecer.

Isso me remete à discussão atual sobre industrialização e mudanças climáticas. Os países não industrializados reivindicam o direito de industrializar-se, para entrarem no jogo da economia cacifados. A reivindicação parece justa. Mas, como é usual nesses debates, não se discute a industrialização mesma. é realmente uma boa estratégia para os conservadores: vamos manter as coisas como estão para preservar a Terra.

O mesmo poderia dizer-se do homem que pede à mulher que não seja orgulhosa, para o bem do Amor, reservando para si o direito à imbecilidade. Não acredito que essa possa ser a intenção de Stendhal. ele parece estar bem acima disso.

Nessa hora eu posso me entusiasmar com Lacan, por ele ter separado o feminino da vulva, do clitóris e das glândulas mamárias; e o masculino do pênis e dos testículos. Isso me dá a oportunidade de voltar a Stendhal pensando que o feminino é a capacidade de “amar e ser amado com paixão”, e o masculino é o “orgulho insensato”. O arranjo social distribui esses elementos pelos organismos.

A psicanálise enriquece a leitura de livros como “Do Amor”. Stendhal afirma que o amor acontece em estágios. Um dos estágios fundamentais é o que ele chama de “cristalização”: nesse estágio, atribuímos à pessoa amada tantas perfeições que, num determinado ponto, não podemos mais reconhecer a pessoa que serve de suporte para a cristalização, e oferece como imagem para mostrar essa ideia o “graveto de Slazburg”: em partes abandonadas das minas de sal de Salzburg, joga-se um graveto sem folhas e depois de alguns meses é possível retirá-lo de onde foi deixado coberto por um “depósito brilhante de cristais”. O interessante, é que para ele o processo tem um gatilho fisiológico. A cristalização começa com um impulso da Natureza, mas é a imaginação que cuida de efetivá-la. Para isso, o arranjo social é fundamental.

Stendhal chega afirmar que “nenhuma forma racional de governo pode recapturar a cristalização” (“recapturar”, ou “refazer”, porque acontecem duas cristalizações no amor, e a segunda é mesmo uma “refação” da primeira, que precisa ser maculada, afim de que uma cristalização mais forte se dê). O exemplo máximo, para o autor, de um governo absolutamente “anti-imaginação”, é o governo dos Estados Unidos da América. Nesses arranjos sociais, o amor não vai além do que Stendhal chamou de amor-físico, porque as pessoas não têm tempo ou disposição para a cristalização.

As categorias lacanianas Real, Simbólico e Imaginário (R.S.I.) aparecem bem na formulação de Stendhal e, por sua vez, revelam a força crítica deste: até agora, as mulheres têm sido encarregadas de preservar o feminino em nosso arranjo social.

Talvez seja interessante distribuir essa tarefa …

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: