Casamento e luta de classes

07/06/2010

Nietzsche propõe o casamento moderno como testemunha da perda de valor das instituições, e afirma  que essa perda diz respeito “a nós”: “Depois que perdemos todos os instintos dos quais nascem as instituições, estamos perdendo as instituições mesmas, porque não mais prestamos para elas.” (Crepúsculo dos ídolos, Incursões de um extemporâneo, 39) O que ele chama de “casamento moderno” é o “casamento por amor”: “A crescente indulgência para com o casamento por amor praticamente eliminou o fundamento do matrimônio, aquilo que faz dele uma instituição.” (idem) Qual seria esse fundamento? A racionalidade própria a essa instituição: “A racionalidade do casamento estava em sua indissolubilidade por princípio: com isso adquiriu um tom capaz de fazer-se ouvir, perante o acaso de sentimento, paixão e momento.” O sentimento moderno é justamente esse abandono do futuro em favor do momento presente; o medo de um retorno à escravidão diante de qualquer autoridade. Medo que evidencia a falta de uma vontade de tradição, “de responsabilidade por séculos adiante”. Sem essa vontade, não se funda algo como o Imperium Romanum. Nietzsche se declara anti-liberal “até a malvadeza”, e diz no final do aforismo que “quando a sociedade mesma não pode garantir-se como um todo, até as mais remotas gerações por vir, não há sentido no casamento. – O casamento moderno perdeu seu sentido – portanto, está sendo abolido.-“ Pesadas as marteladas do filósofo … De fato, a indissolubilidade não aparece mais na definição do que chamamos casamento. Casa-se para o momento e, declara-se, por amor.

Duras são também as considerações do escritor húngaro (e leitor de Nietzsche), Sándor Márai, sobre esse assunto:

“A maioria dos casamentos é um equívoco. Os próprios parceiros não desconfiam do motivo por que, com a passagem do tempo, se vêem separados em margens opostas. Nunca descobrem que o ódio ardente que alimenta a convivência não é apenas a falência do contato sexual, mas, simplesmente, um ódio de classes … Odeiam, desdenham ou invejam a outra classe … A família é sempre também a luta de classes.” (Confissões de um burguês, capítulo 13)

O lamento de Márai parece vir de um tempo (o nosso tempo) que Nietzsche pôde observar com algum distanciamento. Márai era filho de um casamento moderno.

Mais otimista era Thomas Mann. Em “Sua alteza real” ele nos presenteia com uma fábula lindíssima: a história de um princípe que nasceu com uma das mãos defeituosas (e é relevante dizer que o defeito se deu por acidente, e não por falha genética: na existência intra-uterina, a mão que se tornou defeituosa ficou amarrada pelo cordão umbilical) e que se casa com a filha de um milionário norte-americano que foi tratar sua doença respiratória com os ares mais puros do principado. O dinheiro do burguês milionário serviu para a reabilitação econômica do principado falido, e as rosas que cheiravam a mofo no jardim do palácio recuperaram seu perfume. O amor ensejou a conciliação do refinamento aristocrático com a “pujança” burguesa.

Nietzsche e Márai eram conservadores. Mann era um otimista …

Proust? Swann e Odette.

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