O insuportável e o pálido

05/05/2011

Nietzsche parece ser insuportável para nossa sensibilidade. Ao menos para as sensibilidades daqueles que ainda são tocados pela liberdade, igualdade e fraternidade da revolução. Talvez seja possível preservar a fraternidade a partir das idéias de Nietzsche, mas, a partir do percurso que fiz até agora pela obra do filósofo, é muito difícil preservar a liberdade e a igualdade.

E o que fazer agora que fomos seduzidos pela beleza de seus escritos? Pela agudeza de sua argumentação? Pela pertinência de suas idéias?

É bom lembrar que Nietzsche não formulou uma teoria do Estado. Ele não foi propriamente um pensador político. No mais das vezes declarou-se psicólogo. Talvez seja possível, a partir dessa psicologia, apreender uma racionalidade que possa servir de paramêtro para crítica de qualquer teoria do Estado: o Estado proposto é condição para afirmação da vontade de poder, ou é uma construção do ressentimento, negadora da vontade? Ele é parte de uma cultura exuberante, ou de uma cultura acanhada?

Mas, o que é uma cultura exuberante? Ora, e aí vem a parte dura: uma cultura onde os melhores possam ser melhores. Isso não quer dizer que a neoliberalidade toda possa regozijar-se e exaltar-se por ter encontrado o seu filósofo! Não! Esse nosso capitalismo está fundamentado em uma cultura do medo. Não tem exuberância. É feio! É fraco!Talvez caiba sobre ele o comentário de Nietzsche sobre a satisfação secreta do filósofo na Grécia antiga: este sabia que havia muito mais escravos do que parecia haver. Os “melhores” do nosso tempo não são os melhores da história, assim como alguns dos “melhores” da aristocracia grega. Piores ainda são os “melhoradores”, esses perpetuadores do ressentimento. E há quem faça malabarismos incríveis com os aforismos de Nietzsche para fazer a pregação de um mundo melhor. Um mundo “pata todos”, emancipado da condição culpada e ressentida.  O difícil é encontrar este “para todos” em Nietzsche … Abunda o “para alguns”, e isso dói. Isso traz dúvida. Afinal, qual o lugar de cada um de nós no eterno retorno? E se eu for um escravo, condenado à posição ressentida? Isso, é a ação que revela (de fato, não é nem pertinente dizer “Eu sou” com Nietzsche: deve-se dizer apenas “É”. Só o verbo importa, só a ação importa. “Eu” é ilusão gramatical). Nesse movimento fica cancelado até mesmo um ideal para o Eu.

Mas há quem queira melhorar o mundo a partir do legado de Nietzsche, esquecendo os aforismos sobre os “melhoradores” da humanidade publicados no “Crepúsculo dos Ídolos”. Chegam a evocar o “Criminoso Pálido” de “Assim Falou Zaratustra” para encontrar em Raskolnikov alguma potência de superação da culpa. Ora, isso só é possível se desconsiderarmos a leitura tanto de “Crime e Castigo”, quanto da “Genealogia da Moral“. Raskolnikov não pode ser um herói! O que há de heróico no assassinato da velha agiota e da sobrinha abobada?!? O que há de nobre nessa ação?!? O que há de superação da culpa no ajoelhar-se em público e clamar plo perdão divino?!? A palidez desse criminoso aparece quando o comparamos ao criminoso da “Genealogia da Moral”, que não se arrepende de seu crime, mas apenas de ter sido pego. Aparece na incapacidade de assumir a vontade de sangue, a “sede pela alegria da faca”; na necessidade de justificar o assassinato pelo roubo; na comparação com os detentos da Casa dos Mortos.. O criminoso palido é o “inimigo”, “inválido” e “tolo”, nas palavras de Zaratustra. Não parece que ele seja passagem para a nova sensibilidade do Além-do-homem. Seu crime é vulgar. É trivial.

Não parece boa a estratégia de comparar o criminoso pálido ao delinquente por sentimento de culpa de Freud, para encontrar no primeiro algum potencial disruptivo de um enodamento civilizatório amarrado pela culpa. O crime de Raskolnikov não é motivado por sentimento de culpa. Parece que é motivado por um delírio de presunção A tentativa besta de igualar-se aos “extraordiunários” da história. Raskolnikov era um “ordinário”. de acordo com a classificação proposta pro ele mesmo. É cúmplice da velha usurária na manutenção da ordem do “Último Homem”: a ordem do conforto anestesiado e das perversõezinhas cotidianas; a ordem dos atiradores de Columbine, ou do atirador de Realengo.

Por que essa aproximação de Nietzsche e Freud?!? Para propor a psicanálise como via de passagem para o Além-do-Homem?

Aparece aí a palidez de uma certa leitura da obra de Nietzsche.

Zaratustra declara que o Além-do-Homem não é uma nova razão, mas umanova sensibilidade, e isso pode ser uma boa meta para orientação de uma análise. Mas essa leitura que faz da culpa o combustível de alguma ruptura, e a transformação da culpa em responsabilidade como desiderato de um final de análise, fica aquém dessa nova sensibilidade, da qual não podemos dizer nada, porque é nova, ao menos para aqueles que procuram a nós, analistas, em nossos consultórios. Eles não estão em busca de um sistema filosófico, ou de um novo ordenamento moral, ou de esclarecimento, mas de uma nova sensibilidade.

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