Leitura de férias

07/07/2011

Férias são sempre boas para tirar os livros de literatura da estante. Desta vez, parece, não haverá tempo para isso. Não serão propriamente férias: o trabalho com Freud e Husserl no próximo semestre demanda que se adiante a leitura desses autores.

Mas, tirei da estante a “Minima Moralia” para ler esses dias, antes de passar na biblioteca para pegar a ” Crise das Ciências Européias e a Fenomenologia Transcendental”. O texto do Adorno é bonito, e os aforismos têm essa velocidade que cativa. Esse jeito de rajada. Cheguei na terceira parte, onde estão os aforismos escritos em 1946-1947. Ele começa tratando do tempo e, depois, do amor, sempre apresentando contradições que não se resolvem, afinal, tratam-se de reflexões sobre a vida lesada, ou mutilada (beschädigten). E aí, deparo com isso:

“A cigana que lê a sorte, admitida pela porta da frente, libera-se na senhora visitante e se transfigura no anjo salvador. Ela escapa da felicidade da aproximação mais íntima ao enlaçá-lo ao mais distante. É isso que espera a inteira existência da criança, e assim ainda deverá esperar mais tarde aquele que não tenha esquecido o melhor da infância. O amor conta as horas até aquela em que a visita transpõe a soleira e recompõe a vida desbotada num imperceptível: ‘Aqui estou de volta, vinda do vasto mundo’.”

O título do aforismo é Heliótropo. Provavelmente uma referência ao heliotropismo, ao movimento de algumas plantas em direção ao sol.

No aforismo anterior (Desmancha-Prazeres) ele tratou do tédio, da claustrofobia das relações amorosas burguesas:

“A sentença de que todo o animal é triste post-coitum deriva do desprezo burguês pela humanidade: em nenhum outro ponto o humano se diferencia tanto da melancolia da criatura. Não é ao êxtase, mas ao amor socialmente sancionado que se segue o nojo; ele é, nas palavras de Ibsen, pegajoso. Para quem está eroticamente absorvido o cansaço se converte em pedido de carinho, e a impossibilidade momentânea do sexo é compreendida como acidental e inteiramente alheia à paixão. Não é casual que Baudelaire tenha associado paixão erótica cativa e fulguração do espírito, e tenha pronunciado igualmente imortais o beijo, o aroma, a fala.”

Mas a claustrofobia é mais sufocante em “Tocante Fidelidade”:

“No momento em que opera o desencantamento do homem, cujo poder se estriba no ganhar dinheiro arvorado em estatuto humano, a mulher exprime a verdade sobre o casamento no qual busca sua verdade inteira. Nenhuma emancipação sem a da sociedade.”

Haverá um sol para orientar nossos movimentos na direção do vasto mundo, para além do familiarismo avarento?

Ainda que não haja tal sol, precisarei de óculos escuros para suportar a claridade dolorosa das páginas deste livro.

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8 Respostas to “Leitura de férias”

  1. Drita Says:

    Não achei o Desmancha-prazeres claustrofóbico. Pelo contrário, pareceu-me libertária a concordância com Baudelaire no sentido de que o erotismo está associado a questões do espírito, e não a questões do corpo.
    A não ser que se veja o gozo (e não o casamento, como parece ser a idéia do Adorno) como “o amor socialmente sancionado”…

    • Stelio de Carvalho Neto Says:

      Oi Drita! No final do aforismo ele diz:

      “Culpa pelo desgosto cabe menos aos sentidos exaustos do que ao institucional, ao permitido, ao incorporado, à falsa imanência do prazer em uma ordenação na qual ele é julgado e convertido em mortalmente triste no momento mesmo em que é decretado.”

      Acho que a claustrofobia que eu senti está no aforismo todo. Nesse trecho ele fala justamente do que não se dá. É a parte arejada do texto.

      • Drita Says:

        Nossa! Agora, sim, pesou mesmo… E fez sentido o título do aforismo: só o prazer institucionalmente enquadrado está fora de julgamento e, portanto, de condenação. Triste.

  2. Stelio de Carvalho Neto Says:

    E o interessante é que, muito hegelianamente, Adorno jamais seria um libertário, e muito menos um libertino. No aforismo “Constança” ele escreveu:

    “Só ama quem tem força para se apegar ao amor. Quando a vantagem social, sublimada, pré-forma até mesmo o impulso sexual e espontaneamente faz parecer atraente ora este ora aquele em mil matizes daquilo que a ordem chancela, então a isso se opõe a inclinação assumida quando, diante da oposição da sociedade, persiste contra toda intriga, da qual a ordem costuma se servir. Prova-se o sentimento quando ele se supera pela persistência, mesmo que como obsessão … é apenas pela fidelidade que a liberdade alcança a insubordinação ao comando da sociedade.”

    Uma amiga minha fala em “fidelidade orgânica”. Talvez seja uma forma de dizer essa fidelidade do Adorno, que não é fidelidade institucional.

    Parece que já dá pra ler aqui a “desublimação repressiva” do Marcuse.

    • Drita Says:

      Concordo que ele não fosse um libertino (ufa!), mas quanto ao libertário, há controvérsia! Não vi indícios de que liberdade e fidelidade sejam necessariamente antagônicos, mas também não sei se estou forçando a minha percepção nas palavras dele…

      (Adorno nunca foi uma leitura fluida pra mim. Até agora não entendi o que é essa inclinação que se opõe à vantagem social. É o próprio impulso sexual? O que “persiste”? O impulso sexual transformado em sentimento?).

      Completamente ignorante do que fosse “dessublimação repressiva”, dei um Google e, mais uma vez, desde que a mais-valia entrou na minha vida ginasial, fui impressionada pela capacidade de os filósofos transformarem idéias longas em conceitos (o link que me iluminou: http://pt.scribd.com/doc/55293648/4/A-%E2%80%9CDessublimacao-Repressiva%E2%80%9D).
      Nada mais contemporâneo do que ser presa da própria liberdade!

      • Stelio de Carvalho Neto Says:

        Sim! É isso! Liberdade e fidelidade não são antagônicos. A liberdade só é possível na constância. Não há liberdade nem na fidelidade claustrofóbica da família burguesa, nem na liberalidade inconstante do gozo desmedido. O que persiste é o apego ao amor, me parece: na medida em que o impulso sexual é administrado, e a inconstância é o modo da administração, a constância é liberdade.

  3. Drita Says:

    Onde eu pressiono o Curtir?

  4. Drita Says:

    De algum modo, a relação entre constância e liberdade me conforta.


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