Mal ético

16/07/2012

Nietzsche ainda causa desconforto. Ele não se deixa apanhar. Talvez esteja em algum lugar entre o livre arbítrio dos modernos,  e o cativo arbítrio dos positivistas. Não se tratando de uma coisa, nem outra, a liberdade não tem lugar marcado: é a liberdade de “tornar-se o que se é”, prerrogativa da vontade de poder “saudável”. Mas, colocando as coisas nesses termos, permanecemos ainda presos à “liberdade”, que só pode ser desiderato de escravos. O que, em nós, anseia por libertação é a porção mais fraca de nossas forças, e já esse “nossas” é indevido, é posterior.  O “eu” que participa do “nós” é uma ilusão (fundamental em sua função de máscara, mas uma ilusão). Aludindo à nobreza de Platão, ele diz: ” … na oposição à evidência dos sentidos estava o encanto do modo platônico de pensar, que era um modo nobre de pensar — entre homens, talvez, que desfrutavam de sentidos até mais fortes e imperiosos do que os de nossos contemporâneos, mas que sabiam ver um triunfo mais elevado em permanecer mestres desses sentidos: e isto mediante pálidas, cinzentas, frias redes de conceitos, que jogavam sobre o variegado torvelinho dos sentidos — a turba dos sentidos, como disse Platão.” Essa tomada de posição em relação aos sentidos é o movimento nobre de Platão. O problema é o estancamento que cancela o movimento para instaurar o Mundo das Ideias, locus da Verdade: o “gozo” de Platão fica velado quando ele pretende apresentar-se para além da própria máscara, transformando esta em ídolo. “Nessa interpretação e superação do mundo à maneira de Platão havia uma espécie de gozo distinto daquele que nos oferecem os físicos de hoje, ou os darwinistas e antiteleólogos entre os que trabalham na fisiologia, com seu princípio da ‘força mínima’ e da estupidez máxima.” E se essa “maneira de Platão” for a possibilidade de se querer o que se deseja, lançando mão aqui de uma proposição lacaniana? A ultrapassagem do cativo arbítrio descrito por uma fisiologia que é muito mais um fisiologismo? A travessia do fantasma?

“A neurose, um mal ético e não uma doença predestinada a classificações e tratamentos médicos, é a impotência ou a renúncia ante a jogada que cada um deveria fazer para chegar a ser.”, constatou Néstor Braunstein. Então, não se confunda o psicanalista com o sacerdote! O ascetismo está em outro lugar: está em um “saber fazer” sem inventividade, que opera a partir do “dado”: “Onde o homem nada encontra para ver e pegar, nada tem a fazer’ — este é sem dúvida um imperativo diferente do platônico, mas para uma raça dura e laboriosa de futuros mecânicos e construtores de pontes, que não terá senão trabalho grosseiro a executar, pode bem ser o imperativo justo.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: