Justiceiros

24/07/2012

O efeito que não consegue se justificar em si mesmo precisa de uma “causa”.

Hierarquia

18/07/2012

“Existe, afinal, uma hierarquia de estados anímicos, à qual corresponde a hierarquia dos problemas; e os problemas mais altos repudiam sem piedade todo aquele que ousa se avizinhar, sem estar predestinado a resolvê-los pela altura e o poder de sua espiritualidade. De que serve hábeis sabichões ou inábeis e honestos empíricos e mecânicos forçarem uma aproximação, como hoje é tão comum, tentando penetrar com ambição plebéia nessa ‘corte das cortes’!” Aí também Nietzsche parece próximo a Platão que, em sua República, coloca o filósofo no comando. Mas, quem é o filósofo? Não o encontraremos entre os “hábeis sabichões ou inábeis e honestos empíricos”, entre os “eruditos” do tempo de Nietzsche, que ainda é o nosso tempo. Ele não é o cientista, nem tampouco o especialista. Esses devem trabalhar para o filósofo, catalogando ideias e acelarando partículas. O filósofo é um “predestinado”, para Platão, porque antes de retornar ao mundo sensível bebeu um bocado menor das águas do rio do Esquecimento, e conservou uma lembrança mais nítida das Verdades Eternas que contemplou no Mundo das Ideias. Para Nietzsche, ele é um destino, porque foi “cultivado”. E esse cultivo, que se faz por gerações, não engendraria um erudito, porque exige vivências que não são as do erudito: “Para o surgimento do espírito e filósofo independente, forte, talvez a dureza e a astúcia forneçam condições mais favoráveis que a suave, fina, complacente disposição, a arte de aceitar as coisas com leveza, que é apreciada e justamente apreciada num filósofo.”

Supondo que um sorriso de sarcasmo persiste por baixo do bigode: “Tremendo provocateur, o nosso Filósofo!”

Mal ético

16/07/2012

Nietzsche ainda causa desconforto. Ele não se deixa apanhar. Talvez esteja em algum lugar entre o livre arbítrio dos modernos,  e o cativo arbítrio dos positivistas. Não se tratando de uma coisa, nem outra, a liberdade não tem lugar marcado: é a liberdade de “tornar-se o que se é”, prerrogativa da vontade de poder “saudável”. Mas, colocando as coisas nesses termos, permanecemos ainda presos à “liberdade”, que só pode ser desiderato de escravos. O que, em nós, anseia por libertação é a porção mais fraca de nossas forças, e já esse “nossas” é indevido, é posterior.  O “eu” que participa do “nós” é uma ilusão (fundamental em sua função de máscara, mas uma ilusão). Aludindo à nobreza de Platão, ele diz: ” … na oposição à evidência dos sentidos estava o encanto do modo platônico de pensar, que era um modo nobre de pensar — entre homens, talvez, que desfrutavam de sentidos até mais fortes e imperiosos do que os de nossos contemporâneos, mas que sabiam ver um triunfo mais elevado em permanecer mestres desses sentidos: e isto mediante pálidas, cinzentas, frias redes de conceitos, que jogavam sobre o variegado torvelinho dos sentidos — a turba dos sentidos, como disse Platão.” Essa tomada de posição em relação aos sentidos é o movimento nobre de Platão. O problema é o estancamento que cancela o movimento para instaurar o Mundo das Ideias, locus da Verdade: o “gozo” de Platão fica velado quando ele pretende apresentar-se para além da própria máscara, transformando esta em ídolo. “Nessa interpretação e superação do mundo à maneira de Platão havia uma espécie de gozo distinto daquele que nos oferecem os físicos de hoje, ou os darwinistas e antiteleólogos entre os que trabalham na fisiologia, com seu princípio da ‘força mínima’ e da estupidez máxima.” E se essa “maneira de Platão” for a possibilidade de se querer o que se deseja, lançando mão aqui de uma proposição lacaniana? A ultrapassagem do cativo arbítrio descrito por uma fisiologia que é muito mais um fisiologismo? A travessia do fantasma?

“A neurose, um mal ético e não uma doença predestinada a classificações e tratamentos médicos, é a impotência ou a renúncia ante a jogada que cada um deveria fazer para chegar a ser.”, constatou Néstor Braunstein. Então, não se confunda o psicanalista com o sacerdote! O ascetismo está em outro lugar: está em um “saber fazer” sem inventividade, que opera a partir do “dado”: “Onde o homem nada encontra para ver e pegar, nada tem a fazer’ — este é sem dúvida um imperativo diferente do platônico, mas para uma raça dura e laboriosa de futuros mecânicos e construtores de pontes, que não terá senão trabalho grosseiro a executar, pode bem ser o imperativo justo.”

Amar e trabalhar

11/05/2012

Se a questão é amar e trabalhar, que se faça o trabalho do amor.

A manhã seguinte

24/04/2012

E se a manhã de Elefante for a manhã seguinte à noite de American Graffiti? Duas coisas, de cara, parecem autorizar o estabelecimento dessa continuidade: os dois tratam da mesma fase da vida (ou, ao menos, da mesma idade cronológica): a adolescência colegial; os dois acontecem em um período do dia (a noite de American Graffiti e a manhã de Elefante). Mas, o que se ganha com essa continuidade? Talvez seja possível perceber o movimento de desrealização do real que culmina na hiper-realidade descrita por Baudrillard. Da tentativa de reencontrar o sentido “inocente” da vida no interior da Califórnia numa noite de 1962, empreendida em 1972 por George Lucas e Francis Coppola: a modelagem dos tipos, as cores, a música, a distância nostálgica; até a manhã cansada de Gus Van Sant em 2003: a luz pastel, a proximidade do fato, a despersonalização homogeneizante. No interior da escola de Elefante, o espectador é movido como se estivesse percorrendo os labirintos de Wolfgang 3D, saltando de uma perspectiva para outra, sem encontrar o excesso de estímulos do jogo. Ao invés disso, o que ele encontra é o real desertificado, o pai bêbado, a mãe sem cabeça, os diálogos que não importam, a despersonalização homogeneizante que exige a escrita dos nomes a cada mudança de perspectiva. Tudo lento e banal até a entrada dos atiradores vestindo traje camuflado: um toque de estranheza. Mas, mesmo durante o horror, a velocidade não se altera; a câmera não perde a serenidade. Sem ritos de passagem, resta a prisão do instante: todos imóveis como a flecha de Zenão. Talvez seja pertinente pensar que a hiper-realidade que está presente em Elefante (sem se mostrar porque encapsulada nos indivíduos), já estivesse latente na mostração excessiva de American Graffiti: estranha passagem da diversão ao mal-estar. Saberemos garimpar o real, em busca das diferenças e dos encontros?

Divertido

12/04/2012

Adorno diz que divertir-se é estar de acordo.

Adorno escreve na Minima Moralia: “Seria porém tão difícil imaginar Nietzsche sentado até as cinco da tarde à escrivaninha de um escritório em cuja antesala uma secretária atende o telefone como jogando golfe após a jornada … Enquanto o trabalho e o divertimento cada vez se assemelham mais na estrutura, com tanto mais rigor eles são apartados por linhas de demarcação invisíveis. De ambos o prazer e o espírito foram igualmente expulsos. Em um como no outro rege a seriedade bovina e a pseudo-atividade.” (Minima Moralia, aforismo 84, Agenda)

Seriedade bovina e pseudo-atividade!!!

Adorno me diverte …

Sid e Nancy

24/02/2012

Alguns homens estão bem assustados … Alguns, tão desesperados que escrevem artigos sobre a dificuldade dos homens em geral para perceber, entender e amar as “pegadoras modernas”, ou as “mulheres apaixonadas”. Colocam-se no lugar de quem as percebe, entende, ama, de um jeito que os cretinos fundamentais não conseguem. Mas, eles mesmos são os mais desesperados, tentando escapar de fininho. Tudo o que escrevem sobre as mulheres poderia traduzir-se por “sou sensível e compreensivo: por misericórdia, não me maltratem!”. Não conseguem cair com dignidade.

Conservadorismo

09/01/2012

Toda a verdade é conservadora, tanto a verdade loca, quanto a verdade careta. Mas essa não é também uma proposição de verdade? Uma remissão ao infinito? Um regresso? Um retorno? Eterno retorno? Não há resposta possível. Toda resposta é parcial, inclusive esta. A pergunta é pela causa. Por que? Por que essa alegria? Por que esse sofrimento? Por que esse repouso? Por que essa tensão? Por que essa indiferença? Por que essa paixão? E todas as respostas são parciais: valem e não valem; bastam e não bastam. A causa do desejo é uma virtude e um vício (um arranjo de virtudes e vícios), e mesmo isso é parcial.

“Amor é aquilo que faz o gozo condescender ao desejo.” O desejo tem sempre qualquer coisa de fetichismo, de parcialidade, de vício: sua condição sine qua non. Mas amor e desejo são cúmplices na trama que envia o gozo. Fica difícil pensar em temporalidade; em “causa e efeito”. Qual a ordem, se há alguma, na relação entre a condição, o desejo e o amor? Parece que eles se dão no instante. Não há causa e efeito. Há somente o acontecimento. No encontro com a condição do desejo, o gozo aceita condicionar-se, e isso chamamos amor. Então amor é efeito? Mas pode haver efeito sem causa? Vale a pergunta por essa causa? Vale a pergunta por essa razão? Talvez valha, desde que se saiba que a resposta sempre será insuficiente e ambígua. A razão suficiente revela a insuficiência da resposta, que sempre remeterá a um além, a um super, a um sobredeterminado.

Arriscar uma resposta definitiva vale pelo risco, que implica não saber.

Propor uma verdade incerta: o que não é conservador é ambíguo.

Me irritam os garçons subservientes da pizzaria pastiche. Ficaria mais à vontade se eles não disfarçassem o ódio de classe, supondo que alguma parte da dignidade deles está preservada.

Gerundismo

25/10/2011

E se a irritação com o  gerundismo tiver como “causa” a revelação da fragilidade do “eu sou”, e o desvelamento da tragicidade do “estou sendo”? Poder suportar o gerúndio!