Aplauso

27/02/2013

Na Filosofia da Nova Música, o elogio de Schoenberg é feito a partir das categorias “falso” e “verdadeiro”. Haveria uma arte “falsa”, que seria mera imitação, e uma arte “verdadeira” que, no caso da música, seria propriamente “composição”. A “nova música” de Schoenberg, com seus procedimentos de composição que pretendiam negar a tonalidade e as formas canônicas seria composição de fato, verdadeira. Um dos pontos fundamentais da Teoria Crítica é a ideia da repetição que se tornou totalizante na manutenção do capitalismo como único modo de vida possível: a naturalização do capitalismo. A manutenção desse modo de vida se perpetua no que Adorno e Horkheimer chamaram de Indústria Cultural: isto é, mesmo em seus momentos de lazer, o trabalhador do capital está exposto à lógica que rege o seu tempo “produtivo”, convertendo essa lógica na única lógica possível. A arte perdeu sua função de provocação, de negatividade, servindo doravante para apaziguar as inquietações dos homens. A arte se transformou em “entretenimento”. Ela não aponta para novas possibilidades. O raciocínio de Adorno vale, para além do momento da composição musical, também para o momento da fruição. Parece que é nesse último que tudo se decide. A falsidade está colocada na adesão às formas tradicionais de composição, assim como está colocada no protocolo da sala de concerto. O público que aplaude de pé emitindo o “bravo” ocasional não age de forma diferente daquela do “rocker” que se atira no “mosh pit” emitindo o grunhido ocasional. Aliás, a música popular, como produto de alcance comercial muito mais amplo, é um alvo muito mais fácil para a crítica frankfurtiana. Nela, de fato, parece não haver composição nenhuma para além da colagem de clichês: o que se busca nos álbuns de música popular é a tranquilidade de harmonias e timbres muito bem conhecidos: a canção “de protesto” tem elementos da canção de ninar: como poderia fazer despertar? E, obviamente, existem os “desavisados”, tanto na sala de concerto, quanto na casa de shows. Na sala de concerto, eles se traem quando esboçam algum aplauso no meio de uma pausa mais longa, ou quando aplaudem efusivamente no intervalo entre os movimentos da peça. Nesse instante, os “peritos” se exaltam e denunciam a falta de educação daqueles. Mas, será que eles sabem por que guardam silêncio? Será que percebem algum sentido musical nesse intervalo? Será que em algum momento da história esse intervalo teve algum sentido na obra? Talvez, no tempo em que essas obras ainda faziam sentido, e os ouvidos estivessem quase que organicamente ligados às formas hoje consideradas tradicionais, o aplauso só aparecesse acompanhado da percepção do final de uma peça. Talvez, para os ouvidos de hoje, qualquer resolução da tensão dissonante acompanhada de silêncio provoque o comichão do aplauso. Mas, será que os “peritos” têm o direito de censurar os “desavisados” por isso? Por que aplaudimos, afinal? Por entusiasmo? Por que deixamos de aplaudir quando estamos entusiasmados? Por “polidez”? O aplauso em cena aberta não está permitido no teatro? Não está permitido durante as improvisações dos solistas na casa de jazz? Aplaude-se até mesmo o pouso de um avião! Deve ser cada vez mais raro o ouvido que percebe uma ruptura com a música que se executa quando um tsunami de aplausos o arrasta de volta ao seu lugar na sala. Este, não participa da exaltação censora dos “peritos”: talvez lamente silenciosamente esse estado de coisas e pense: “Silêncio! Que se escute, sob tudo isso, as engrenagens rangendo.”

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Divertido

12/04/2012

Adorno diz que divertir-se é estar de acordo.

Adorno escreve na Minima Moralia: “Seria porém tão difícil imaginar Nietzsche sentado até as cinco da tarde à escrivaninha de um escritório em cuja antesala uma secretária atende o telefone como jogando golfe após a jornada … Enquanto o trabalho e o divertimento cada vez se assemelham mais na estrutura, com tanto mais rigor eles são apartados por linhas de demarcação invisíveis. De ambos o prazer e o espírito foram igualmente expulsos. Em um como no outro rege a seriedade bovina e a pseudo-atividade.” (Minima Moralia, aforismo 84, Agenda)

Seriedade bovina e pseudo-atividade!!!

Adorno me diverte …

Leitura de férias

07/07/2011

Férias são sempre boas para tirar os livros de literatura da estante. Desta vez, parece, não haverá tempo para isso. Não serão propriamente férias: o trabalho com Freud e Husserl no próximo semestre demanda que se adiante a leitura desses autores.

Mas, tirei da estante a “Minima Moralia” para ler esses dias, antes de passar na biblioteca para pegar a ” Crise das Ciências Européias e a Fenomenologia Transcendental”. O texto do Adorno é bonito, e os aforismos têm essa velocidade que cativa. Esse jeito de rajada. Cheguei na terceira parte, onde estão os aforismos escritos em 1946-1947. Ele começa tratando do tempo e, depois, do amor, sempre apresentando contradições que não se resolvem, afinal, tratam-se de reflexões sobre a vida lesada, ou mutilada (beschädigten). E aí, deparo com isso:

“A cigana que lê a sorte, admitida pela porta da frente, libera-se na senhora visitante e se transfigura no anjo salvador. Ela escapa da felicidade da aproximação mais íntima ao enlaçá-lo ao mais distante. É isso que espera a inteira existência da criança, e assim ainda deverá esperar mais tarde aquele que não tenha esquecido o melhor da infância. O amor conta as horas até aquela em que a visita transpõe a soleira e recompõe a vida desbotada num imperceptível: ‘Aqui estou de volta, vinda do vasto mundo’.”

O título do aforismo é Heliótropo. Provavelmente uma referência ao heliotropismo, ao movimento de algumas plantas em direção ao sol.

No aforismo anterior (Desmancha-Prazeres) ele tratou do tédio, da claustrofobia das relações amorosas burguesas:

“A sentença de que todo o animal é triste post-coitum deriva do desprezo burguês pela humanidade: em nenhum outro ponto o humano se diferencia tanto da melancolia da criatura. Não é ao êxtase, mas ao amor socialmente sancionado que se segue o nojo; ele é, nas palavras de Ibsen, pegajoso. Para quem está eroticamente absorvido o cansaço se converte em pedido de carinho, e a impossibilidade momentânea do sexo é compreendida como acidental e inteiramente alheia à paixão. Não é casual que Baudelaire tenha associado paixão erótica cativa e fulguração do espírito, e tenha pronunciado igualmente imortais o beijo, o aroma, a fala.”

Mas a claustrofobia é mais sufocante em “Tocante Fidelidade”:

“No momento em que opera o desencantamento do homem, cujo poder se estriba no ganhar dinheiro arvorado em estatuto humano, a mulher exprime a verdade sobre o casamento no qual busca sua verdade inteira. Nenhuma emancipação sem a da sociedade.”

Haverá um sol para orientar nossos movimentos na direção do vasto mundo, para além do familiarismo avarento?

Ainda que não haja tal sol, precisarei de óculos escuros para suportar a claridade dolorosa das páginas deste livro.

Alexitimia?!?!?

19/08/2009

Então inventaram esse termo: alexitimia. Foi em 1973, um tal Peter, se não me engano. O termo serve para designar um determinado quadro “clínico”: a incapacidade do “paciente” em falar sobre seus sentimentos. Uma tradução literal do termo, que se forma a partir de significantes gregos, poderia ser “sem palavras para as emoções”. Mas, quem tem palavras para as emoções? Não é preciso forjá-las sempre? Não é esse o trabalho do poeta lírico? Não é esse o legado de Arquíloco? Que alguém tente me descrever a angústia sem passar pelo lirismo! As tentativas de descrever isso com base em processos físicos e químicos me parecem poesia menor. Tomar a maneira de Lacan, através de grafos, equações e figuras topológicas é o recital enfadonho da poesia dele, que tem sua genialidade.

Enquadrar a incapacidade lírica no discurso da ciência, através de um termo, de uma tabela de valores, de um protocolo de pesquisa, parece servir apenas para neutralizar qualquer possibilidade de crítica. Ainda bem que as palavras forjadas e arranjadas por Nietzsche e Heidegger não perden sua força diante da poesia fraca do discurso da ciência!

Essa timidez poética (e não será essa a natureza de toda timidez?) é, nos textos científicos, associada às questões da psicossomática da seguinte maneira (grosso modo): as lesões no corpo substituem a fala sobre os sentimentos, que não se dá. Bem ,se for assim, a psicossomática é uma maneira possível de descrever os sentimentos. Mas, falta explicar por que é escolhida essa maneira? Eu ainda prefiro trabalhar na minha hipótese do “corpo ad hoc”, isto é, de que esses pacientes não têm “corpo”, e o fenômeno psicossomático é a tentativa de esculpir um corpo na própria carne.

Numa pesquisa da qual participo, sobre psicossomática, constata-se mesmo essa dificuldade dos pacientes em expressarem o que sentem na fala. Outro dia, numa reunião do grupo que faz essa pesquisa, levantei a possibilidade de que essa timidez poética esteja ligada a fatores socioculturais, dado que a pesquisa é realizada numa insituição da rede pública de saúde, e a maioria absoluta dos pacientes é de classe financeiramente pobre. Fui considerado preconceituoso, como se estivesse dizendo que pobres não fazem poesia. Não creio que a proposição “pobres não fazem poesia” seja consequência necessária de meu raciocínio. De qualquer maneira, essa proposição não é minha!

Mas, será que podemos levantar a hipótese de que nesses tempos em que a razão instrumental hegemônica tende a aniquilar a poesia (sua contrária), e em que o acesso às formas mais sublimes da cultura (sim, eu acredito em formas mais sublimes da cultura) está, numa medida importante, possibilitado por condições financeiras melhores e, ao mesmo tempo, dificultado para aqueles que alimentados pela indústria alimentícia, cozinham no caldeirão do Huck – será que podemos levantar a hipótese de que essa timidez lírica seja consequência da racionalidade de nossos tempos, e que essa consequência seja mais perversa entre os mais pobres? É evidente que, ainda bem, muitos sujeitos escapam à essa lógica, tanto nas classes mais ricas, quanto nas mais pobres. É possível que a realidade não seja tão adorniana quanto parece …

O preconceito linguístico não ajuda em nada. Já percebi que alguém pode se calar simplesmente por vergonha de falar diante do “doutor”. Os personagens de Guimarães Rosa se expressavam à sua maneira, porque se expressavam no sertão. Talvez se calassem na metrópole ubíqua contemporânea: seriam personagens de Graciliano Ramos …

Em suma, isso que se chama “alexitimia” é coisa antiga. Talvez exista desde o tempo em que os gregos deixaram de ser pessimistas e trágicos, e se transformaram em otimistas e teóricos. Não sei o que se ganha associando isso à psicossomática. É evidente que o fenômeno se apresenta para muito além disso. Bem dizer “alexitimia” pode ser dizer “apoesia”. Melhor manter a primeira bem longe do consultório, psicanalítico, bem dito.