Dualismo imanente

31/07/2009

Deleuze e Guattari já haviam notado e anotado em seu Anti-Édipo: a imagem psíquica do corpo é a última versão da alma.

Sendo assim, a alma da psicanaĺise é imanente. Melhor chamá-la “corpo” e relacioná-la com a carne. Ao invés do dualismo corpo e alma, propõe-se o dualismo corpo e carne.

No Fédon , de Platão, discute-se a natureza da alma e sua relação com o corpo. Sócrates argumenta para justificar sua tranqüilidade no dia em que tomaria a cicuta: se não teme a morte é porque, experimentado na filosofia, sabe da indestrutibilidade da alma, e sabe que depois da morte, que é apenas do corpo, estará melhor do que aprisonado à carne grosseira. Me parece que a psicanálise está no argumento de Símias, em oposição à Sócrates: a alma está para o corpo, assim como a harmonia está para a lira.

Isto é, a alma é efeito do corpo, e se forma a partir dele, e se desfaz quando ele se corrompe. Tomando os termos da psicanálise, o corpo é efeito da carne; o corpo é imagem que se articula no simbólico, e o real é a carne. Daí podemos inferir que o corpo morre junto com a carne, e que, vivos, somos o corpo e somos a carne. Ou melhor, somos essa relação ente corpo e carne.

No entanto, entre psicanalistas, “dualismo” parece ser um termo maldito. Especialmente porque remete ao dualismo “corpo e alma” de um pensamento que despreza o corpo e a carne. Dizer que corpo e carne são coisas diversas me parece fundamental para a teoria lacaniana da corporeidade, e esta posição é dualista, isto é, o corpo é dual: é carne incorporada.

Me parece até que essa dualidade permite superar o problema do hilomorfismo aristotélico como base para o entendimento da relação entre corpo e alma nos seres vivos (a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um bom artigo a respeito bem aqui). Aristóteles postula que sem alma, o corpo não é mais corpo. Sendo assim, um cadáver não é corpo. Penso que Lacan concordaria com isso. Talvez ele disesse: “é óbvio que um cadáver não é mais corpo! Para continuar sendo corpo, tem que ser sepultado!” Se fizesse isso, tiraria Aristóteles de uma grande enrascada. Ele não fez, mas deixou em Radiofonia a condição de fazermos …

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arco

Na semana passada ouvi, em uma palestra, alguém, um psicanalista, afirmar que não somos um corpo, mas temos um corpo. O que significa isso?!?!?!? Um retorno a Descartes? Somos uma alma que tem um corpo? Não!!!!!!!

Tanto o verbo ter, quanto o verbo ser, em nossa gramática, podem ser usados com sentido quando o objeto é o corpo. Isto é, posso dizer tanto eu sou esse corpo, quanto eu tenho esse corpo.

No entanto, a fala de uma paciente me chamou atenção para a distinção do sentido na utilização desses dois verbos em relação ao corpo. Ela descrevia uma crise de angústia a partir dos sintomas corporais (dormência, palpitação, dor) e dizia que, na angústia, tudo vinha de uma só vez: os sintomas tomavam o corpo todo. Se eles viessem separadamente, ela não se angustiaria: se viesse somente a dor na mão, ou a palpitação, ou a dormência nas pernas …  No real da angústia, ela é  o corpo, e gostaria de ter uma mão que doesse, uma perna que formigasse, um corpo recortado imaginariamente e articulado simbolicamente. Penso que somos um corpo (real) que tem um corpo (imaginário e simbólico).  O que comumente se chama alma, é o corpo que somos.

Traduzi uns versos de Walt Whitman que se encerram com uma pergunta que faz pensar sobre o tema:

Eu canto o corpo, elétrico,
As multidões daqueles que eu amo me envolvem e eu os envolvo,
Eles não me deixarão ir até que eu vá com eles, reaja a eles,
e os purifique, e os carregue plenamente com a carga da alma.

Foi posto em dúvida se aqueles que corrompem seus próprios corpos escondem eles mesmos?
E se aqueles que profanam os vivos são tão maus quanto aqueles que profanam os mortos?
E se o corpo não fizer plenamente o mesmo tanto que faz a alma?
E se o corpo não for a alma, o que é a alma?