Chocolate

17/07/2009

Ele calcula cuidadosamente as mordidas: a quantidade de chocolate oferecida as suas papilas degustativas deve ser suficiente para que goze deste sabor e ao mesmo tempo garanta a permanência da barra pelo maior período que consiga. Seu ideal é que ela termine extamente no instante de sua morte, e garanta com isso que ele gozou na maior medida possível durante sua existência. Se a barra terminar antes que ele morra, restará um tempo de vida reduzido à espera resignada pela morte: tempo miserável. Se, no instante derradeiro, constatar a sobra de algum (ou alguns) dos pequenos quadriláteros que compõem a barra de chocolate, experimentará o amargor de ter gozado menos do que poderia em cada mordida avarenta que deu na vida.

Ela se lambuza inteira. Morde avidamente tentando ultrapassar-se no sabor do chocolate e, por maior que seja a mordida, não consegue saborear o tanto que imagina poder. Nenhum chocolateiro conseguiu, até agora, preparar a massa com sabor intenso suficiente para que ela possa dizer afinal que gosto tem o chocolate.

Ele tem medo de morrer. Ela, de enlouquecer.

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