Nietzsche parece ser insuportável para nossa sensibilidade. Ao menos para as sensibilidades daqueles que ainda são tocados pela liberdade, igualdade e fraternidade da revolução. Talvez seja possível preservar a fraternidade a partir das idéias de Nietzsche, mas, a partir do percurso que fiz até agora pela obra do filósofo, é muito difícil preservar a liberdade e a igualdade.

E o que fazer agora que fomos seduzidos pela beleza de seus escritos? Pela agudeza de sua argumentação? Pela pertinência de suas idéias?

É bom lembrar que Nietzsche não formulou uma teoria do Estado. Ele não foi propriamente um pensador político. No mais das vezes declarou-se psicólogo. Talvez seja possível, a partir dessa psicologia, apreender uma racionalidade que possa servir de paramêtro para crítica de qualquer teoria do Estado: o Estado proposto é condição para afirmação da vontade de poder, ou é uma construção do ressentimento, negadora da vontade? Ele é parte de uma cultura exuberante, ou de uma cultura acanhada?

Mas, o que é uma cultura exuberante? Ora, e aí vem a parte dura: uma cultura onde os melhores possam ser melhores. Isso não quer dizer que a neoliberalidade toda possa regozijar-se e exaltar-se por ter encontrado o seu filósofo! Não! Esse nosso capitalismo está fundamentado em uma cultura do medo. Não tem exuberância. É feio! É fraco!Talvez caiba sobre ele o comentário de Nietzsche sobre a satisfação secreta do filósofo na Grécia antiga: este sabia que havia muito mais escravos do que parecia haver. Os “melhores” do nosso tempo não são os melhores da história, assim como alguns dos “melhores” da aristocracia grega. Piores ainda são os “melhoradores”, esses perpetuadores do ressentimento. E há quem faça malabarismos incríveis com os aforismos de Nietzsche para fazer a pregação de um mundo melhor. Um mundo “pata todos”, emancipado da condição culpada e ressentida.  O difícil é encontrar este “para todos” em Nietzsche … Abunda o “para alguns”, e isso dói. Isso traz dúvida. Afinal, qual o lugar de cada um de nós no eterno retorno? E se eu for um escravo, condenado à posição ressentida? Isso, é a ação que revela (de fato, não é nem pertinente dizer “Eu sou” com Nietzsche: deve-se dizer apenas “É”. Só o verbo importa, só a ação importa. “Eu” é ilusão gramatical). Nesse movimento fica cancelado até mesmo um ideal para o Eu.

Mas há quem queira melhorar o mundo a partir do legado de Nietzsche, esquecendo os aforismos sobre os “melhoradores” da humanidade publicados no “Crepúsculo dos Ídolos”. Chegam a evocar o “Criminoso Pálido” de “Assim Falou Zaratustra” para encontrar em Raskolnikov alguma potência de superação da culpa. Ora, isso só é possível se desconsiderarmos a leitura tanto de “Crime e Castigo”, quanto da “Genealogia da Moral“. Raskolnikov não pode ser um herói! O que há de heróico no assassinato da velha agiota e da sobrinha abobada?!? O que há de nobre nessa ação?!? O que há de superação da culpa no ajoelhar-se em público e clamar plo perdão divino?!? A palidez desse criminoso aparece quando o comparamos ao criminoso da “Genealogia da Moral”, que não se arrepende de seu crime, mas apenas de ter sido pego. Aparece na incapacidade de assumir a vontade de sangue, a “sede pela alegria da faca”; na necessidade de justificar o assassinato pelo roubo; na comparação com os detentos da Casa dos Mortos.. O criminoso palido é o “inimigo”, “inválido” e “tolo”, nas palavras de Zaratustra. Não parece que ele seja passagem para a nova sensibilidade do Além-do-homem. Seu crime é vulgar. É trivial.

Não parece boa a estratégia de comparar o criminoso pálido ao delinquente por sentimento de culpa de Freud, para encontrar no primeiro algum potencial disruptivo de um enodamento civilizatório amarrado pela culpa. O crime de Raskolnikov não é motivado por sentimento de culpa. Parece que é motivado por um delírio de presunção A tentativa besta de igualar-se aos “extraordiunários” da história. Raskolnikov era um “ordinário”. de acordo com a classificação proposta pro ele mesmo. É cúmplice da velha usurária na manutenção da ordem do “Último Homem”: a ordem do conforto anestesiado e das perversõezinhas cotidianas; a ordem dos atiradores de Columbine, ou do atirador de Realengo.

Por que essa aproximação de Nietzsche e Freud?!? Para propor a psicanálise como via de passagem para o Além-do-Homem?

Aparece aí a palidez de uma certa leitura da obra de Nietzsche.

Zaratustra declara que o Além-do-Homem não é uma nova razão, mas umanova sensibilidade, e isso pode ser uma boa meta para orientação de uma análise. Mas essa leitura que faz da culpa o combustível de alguma ruptura, e a transformação da culpa em responsabilidade como desiderato de um final de análise, fica aquém dessa nova sensibilidade, da qual não podemos dizer nada, porque é nova, ao menos para aqueles que procuram a nós, analistas, em nossos consultórios. Eles não estão em busca de um sistema filosófico, ou de um novo ordenamento moral, ou de esclarecimento, mas de uma nova sensibilidade.

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Supondo que não existam fatos, mas apenas interpretações dos fatos, então, toda proposição está comprometida com uma interpretação, com uma perspectiva, com uma visada, uma visão de mundo, uma Weltanschaung … inclusive as proposições “Todo sonho é realização de um desejo inconsciente”, ou “Não há relação sexual”. Preciso continuar o argumento?

**********************************

Os fatos que não existem como fatos, são os fatos morais. Importante fazer a predicação.

E a psicanálise não é Weltanschaung porque é uma prática clínica: não é proposta de civilização, sociedade ou, para usar um termo mais preciso, cunhado por Husserl: Lebenswelt [mundo da vida].

No entanto, não se pode negar que ela interpreta os fatos morais à sua maneira, a partir de uma vontade de poder determinada (é assim se acompanharmos Nietzsche; obviamente, ninguém é obrigado a acompanhá-lo; talvez sejam poucos aqueles que se sentem à vontade andando com ele).

Existe um punhado de certeza no fantástico Lebenswelt do avesso da psicanálise.

Um psicanalista é alguém que pôde atravessar essa certeza para prescindir dela.

A própria análise é construção em análise.

Juntos

06/11/2009

Parece que enquanto Nietzsche aposta na tragédia, isto é, na música e no drama (especialmente na música!), Freud e Lacan apostam na psicanálise.

Mas, para aproximar todas eles, talvez seja prudente pensar a cultura e o indivíduo como “psicologias” distintas. Talvez seja necessário tomar o  pensamento de Nietzsche, que está declaradamente endereçado à cultura, como analogia para pensarmos a psicologia dos indivíduos. É mais ou menos como o exercíco de Platão na República: para podermos responder o que é a justiça, ao invés de procurá-la imedidatamente no homem, vamos procurá-la na pólis: uma vez que tenhamos apreendido (ou recuperado) a idéia de justiça, voltamos então ao homem para poder enunciar o que é um “homem justo”.

Talvez seja necessário mais um passo ainda. Tomamos a cultura adoecida descrita por Nietzsche, e a terapêutica que ele propõe (a tragédia) e uma vez munidos desses elementos, voltamos ao sujeito do divã, a quem propomos a psicanálise: será que podemos encontrar nesse sujeito o dionisíaco, o apolíneo e o socrático? Será que esse sujeito está estabelecido como uma cultura dionisíaca (esquizofrênico) ou apolínea (paranóico)? Socrática (o simbólico subjuga o real, “a música se submete às palavras”) ou trágica (o real inspira o simbólico). O passo além é voltar à cultura e saber se, junto com a tragédia proposta por Nietzsche, podemos propor a psicanálise. Para mim, foi importante atravessar o texto de Nietzsche para acompanhar o movimento que ela faz da Grécia até a  Alemanha, para poder acreditar num renascimento da tragédia no lugar da “ópera”, onde a música é “funcionária” das palavras. É mesmo nos capítulos finais em que aparecem no texto dele “drama” e “música” como coisas distintas. Isso me faz pensar que o sintoma é como um drama sem música, como uma ópera: talvez seja por isso que ele se torna ridículo depois que é atravessado na análise (em geral, a ópera me parece ridícula). Um certo riso do paciente certamente marca esse atravessamento do “drama”. Penso que esse tipo de atravessamento permita à orquestra trocar as partituras e tocar música pra valer. O herói do drama está lá para ser atravessado; está lá para morrer: isso está muito bem escrito por Nietzsche, e foi bem falado por Lacan naquela palestra em Louvain: “Vocês fazem muito bem em crer que vão morrer! Do contrário, como poderiam suportar essas vidas que vocês levam …”

Ora, não ouvimos aí um eco da fala do Sileno, apresentada por Nietzsche nos primeiros capítulos do Nascimento da Tragédia? Mas ele avisa: para entendê-lo, é preciso ter experimentado a música, e avisa também que nem todos são músicos. Aliás, “muitos carregam o tirso, mas poucos são os místicos” (Sócrates, momentos antes de morrer), ou “muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos” (Cristo). Será que isso que vale para a música, vale também para a anáĺise? Parece que vale …

O estranho

11/09/2009

Jack Torrance é um tipo “estranho”, tomando este termo no sentido que Freud dá para ele no artigo sobre o “Das Umheiliche”.

A cena que mais me impressiona em “O Iluminado” é aquele na qual a esposa de Jack ouve, com alívio, o som familiar dos tipos da máquina de escrever chocando-se com o tambor da máquina para depositar tinta sobre a folha de papel que desliza entre os dois: os tipos e o tambor.

Ah, que alívio importante da tensão provocada pelo isolamento no Overlook Hotel! Jack está trabalhando! Tão produtivo! Parece um pianista inspirado executando um concerto exuberante no teclado da máquina de escrever … quando, num momento em que Jack se afasta da mesa de trabalho, ela pode ler o que ele vêm produzindo, ela encontra página s e páginas preenchidas com a frase “All work and no play makes Jack a dull boy” …

Tudo tão familiar e tudo tão estranho … acho isso muito mais arrepiante (“espeluznante” na tradução de Freud para o espanhol) do que as aparições das crianças gêmeas, da mulher na banheira etc.

Jack Torrance no salão de festas Do Overlook, em 1921 ... estranho ...

Jack Torrance, na parte de baixo, ao centro (Salão de festas do Overlook, 1921): estranho ...

Outro toque absolutamente “Umheilich” é a foto do baile que aconteceu no hotel em 1921, em que Jack aparece como um “mestre de cerimônias”, ou um anfitrião: “Wish you were here”, está grafado nessa imagem … Agradeço a intenção, mas declino  …

Mas o que é mesmo esse fenômeno do estranhamento? Parece ser o desvelamento de que pode haver um outro sentido, uma  outra razão, operando para além do sentido da cotidianidade. Um sentido inapreensível até mesmo para essas narrativas fantásticas. Kubrick não “fecha” a história … permanecemos na estranheza, sem uma explicação dos acontecimentos no Overlook Hotel. O que fica desvelado é a fragilidade do sentido.

Quando nos deparamos com trabalhos como O Iluminado (e falo somente do filme: não li o livro), talvez tenhamos a oportunidade de vislumbrar o que está para além do mundo como o conhecemos. Não se trata aqui de algo sobrenatural; de um outro mundo onde vigoram outras leis: trata-se mesmo do único mundo existente, sobre o qual, geralmente, estamos bem seguros, mas que não deixa de ser estranho …

Dualismo imanente

31/07/2009

Deleuze e Guattari já haviam notado e anotado em seu Anti-Édipo: a imagem psíquica do corpo é a última versão da alma.

Sendo assim, a alma da psicanaĺise é imanente. Melhor chamá-la “corpo” e relacioná-la com a carne. Ao invés do dualismo corpo e alma, propõe-se o dualismo corpo e carne.

No Fédon , de Platão, discute-se a natureza da alma e sua relação com o corpo. Sócrates argumenta para justificar sua tranqüilidade no dia em que tomaria a cicuta: se não teme a morte é porque, experimentado na filosofia, sabe da indestrutibilidade da alma, e sabe que depois da morte, que é apenas do corpo, estará melhor do que aprisonado à carne grosseira. Me parece que a psicanálise está no argumento de Símias, em oposição à Sócrates: a alma está para o corpo, assim como a harmonia está para a lira.

Isto é, a alma é efeito do corpo, e se forma a partir dele, e se desfaz quando ele se corrompe. Tomando os termos da psicanálise, o corpo é efeito da carne; o corpo é imagem que se articula no simbólico, e o real é a carne. Daí podemos inferir que o corpo morre junto com a carne, e que, vivos, somos o corpo e somos a carne. Ou melhor, somos essa relação ente corpo e carne.

No entanto, entre psicanalistas, “dualismo” parece ser um termo maldito. Especialmente porque remete ao dualismo “corpo e alma” de um pensamento que despreza o corpo e a carne. Dizer que corpo e carne são coisas diversas me parece fundamental para a teoria lacaniana da corporeidade, e esta posição é dualista, isto é, o corpo é dual: é carne incorporada.

Me parece até que essa dualidade permite superar o problema do hilomorfismo aristotélico como base para o entendimento da relação entre corpo e alma nos seres vivos (a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um bom artigo a respeito bem aqui). Aristóteles postula que sem alma, o corpo não é mais corpo. Sendo assim, um cadáver não é corpo. Penso que Lacan concordaria com isso. Talvez ele disesse: “é óbvio que um cadáver não é mais corpo! Para continuar sendo corpo, tem que ser sepultado!” Se fizesse isso, tiraria Aristóteles de uma grande enrascada. Ele não fez, mas deixou em Radiofonia a condição de fazermos …

Chocolate

17/07/2009

Ele calcula cuidadosamente as mordidas: a quantidade de chocolate oferecida as suas papilas degustativas deve ser suficiente para que goze deste sabor e ao mesmo tempo garanta a permanência da barra pelo maior período que consiga. Seu ideal é que ela termine extamente no instante de sua morte, e garanta com isso que ele gozou na maior medida possível durante sua existência. Se a barra terminar antes que ele morra, restará um tempo de vida reduzido à espera resignada pela morte: tempo miserável. Se, no instante derradeiro, constatar a sobra de algum (ou alguns) dos pequenos quadriláteros que compõem a barra de chocolate, experimentará o amargor de ter gozado menos do que poderia em cada mordida avarenta que deu na vida.

Ela se lambuza inteira. Morde avidamente tentando ultrapassar-se no sabor do chocolate e, por maior que seja a mordida, não consegue saborear o tanto que imagina poder. Nenhum chocolateiro conseguiu, até agora, preparar a massa com sabor intenso suficiente para que ela possa dizer afinal que gosto tem o chocolate.

Ele tem medo de morrer. Ela, de enlouquecer.

… perversos polissêmicos.

spirochaeta pallida

spirochaeta pallida

“A strong ego affords some protection against falling ill; but in the end we must necessarily start loving if we are not to fall ill, and we must necessarily fall ill if refusal* makes us incapable of loving.”

(Freud, On the introduction of Narcissism, trad.  John Reddick)

*[Freud’s important but challenging term is Versagung, from the verb versagen, itself cognate with English ‘forsake’ – one now-obsolete meaning of wich is ‘To decline or refuse (something offered)’ (OED – Oxford English Dictionary). What he means by the term is rather more clearly shown by the opening sentences of ‘Die am Erfolge scheitern’ (‘Those who founder on Success’): ‘Our work in psychoanalysis has presented us with the following proposition: People incur neurotic illness as a result of refusal. What is meant by this is that their libidinal desires are refused gratification’ – i.e. by the savagely censorious entity within that oversees their very thought and deed. See also the penultimate sentence of this present essay: ‘We can thus more readily understand the fact that paranoia is frequently caused by the ego being wounded, by gratification being refused within the domain of the ego-ideal.’ The Standard Edition routinely and astonishingly mistranslates the term as ‘frustration’.]

Minha tradução:

“Um ego forte conta com alguma proteção contra o adoecimento; mas, no final das contas, precisamos necessariamente começar a amar se não vamos adoecer, e necessariameente adoeceremos se a recusa nos fizer incapazes de amar.”

“O termo importante mas desafiador de Freud é Versagung, do verbo versagen, ele mesmo cognato do inglês forsake – cujo um dos significados, agora obsoleto, é ‘declinar ou recusar (alguma coisa oferecida). O que ele significa com o termo é mostrado mais claramente nas sentenças de abertura de ‘Aqueles que fracassam no sucesso’: ‘Nosso trabalho na psicanálise nos apresentou a seguinte proposição: as pessoas incorrem no adoecimeento neurótico como resultado de recusa. O que se significa com isso é que seus desejos libidinais têm gratificação recusada.’ Isto é, pela entidade interior selvagemente censuradora que supervisiona seus próprios pensamentos e intenções. Veja-se também a penúltima sentença do presente ensaio: ‘Nós podemos então entender mais prontamente o fato da paranóia ser frequentemente causada pelo ego sendo ferido, pela gratificação sendo recusada dentro do domínio do ego-ideal.’ A Edição Standard [Stratchey] rotineiramente e assustadoramente traduz erroneamente o termo como ‘frustração’.”

Minha leitura:

Não se trata então de “frustar a demanda” do paciente, mas de “recusar a demanda” deste. Como? Recusando a oferta de reconhecimento que ele nos faz. Oferta de reconhecimento=demanda de amor.

Outro problema de tradução que, se for ultrapassado pode facilitar o entendimento disso: por que verter “discours du maître” como “discurso do mestre”?!?!? É tão óbvio que trata-se do “discurso do senhor”! Senhor que é a verdade do escravo,  como mostra o “discurso do universitário” que poderia, talvez, chamar-se também “discurso do escravo”.

Ao recusar o reconhecimento que o paciente oferece como dádiva, o analista recusa a demanda que este lhe faz. Qual seja: a demanda de aceitá-lo (o paciente) como sua verdade (a do analista). Isto é, ao recusar a oferta de reconhecimento que o paciente lhe faz, o analista recusa-se a reconhecê-lo como sua verdade, o que engendraria uma relação de amor.  Isto está em Hegel. Lembremos que “senhor e escravo” em francês diz-se “maître et esclave”. (por que traduziram “maître” como “mestre”?!?!?)

Poderia-se advogar a favor da tradução corrente recorrendo à uma relação “mestre/universitário” ao invés de “senhor/escravo”. Isso só me faz preferir a oposição “senhor/universitário”.

Nessa recusa, o analista cancela a dialética do reconhecimento proposta por Hegel. O senhor da psicanálise é o senhor para além de bem e mal. Senhor cuja ética é a ética da psicanálise, como pode enunciar veementemente Néstor Braunstein em seu Gozo*. Esse senhor afirma-se em seu ato; ele é ato: isso está documentado nas páginas da Genealogia da Moral, d’isso que cataloga-se sob “Nietzsche”.

Ao propor o mestre no lugar do senhor perde-se a coloração ética. Mas não é de ética que se trata?!?!?

De agora em diante lerei “recusa da demanda” e “discurso do senhor”.

Mas, não posso deixar de agradecer aos maus tradutores o material para fricção. Os erros deles tornam mais divertido pensar a psicanálise. Vou brincar um pouco com “a-senhorar-se” e “a-mestrar-se”. Vou brincar também com a idéia de que o paciente chega procurando Hegel e encontra Nietzsche!

* se faço argumento à autoridade evocando Braunstein, faço isso por exigência da brevidade que este meio, o email, sugere. Estou disposto e disponível para desenvolver esse argumento em outros meios.

definição: gozo é efetivação.

proposição: do gozo não se escapa.

corolário: não existem “tipos” de gozo, mas modalidades de gozo. Na teoria lacaniana são essas as modalidades: gozo mítico, gozo do Outro, gozo fálico, outro gozo.

– O gozo mítico é o gozo da plenitude. Daí a aproximação de gozo e pulsão de morte. Para o humano, a plenitude só é possível na  morte. No entanto, não é possível experimentar esse gozo. Ele permanece apenas como o paradoxo de uma nostalgia do futuro. Algo que só será alcançado no momento em que não mais estivermos em efetivação. Estaremos efetivados de uma vez por todas, plenos e mortos.

– O gozo do Outro é a modalidade de gozo passiva, em que a efetivação que ocorre é a efetivação de um Outro. Penso no gozo que se efetiva nas compulsões.

– O gozo fálico é aquele que se dá a partir do desejo. Penso aqui na efetivação afirmadora da vontade de poder nietzscheana. Sendo assim, o que se afirma no gozo fálico é o desejo, conceito que pensamos ser homólogo aos conceitos de vontade de poder em Nietzsche, ou conatus, em Spinoza. O gozo fálico é alegria, júbilo, considerando ainda Spinoza.

Seguindo a recomendação nietzscheana, talvez nem devêssemos usar o termo “gozo”, mas somente “gozar”, já que gozo designa uma ação. Seria mais preciso ficarmos apenas com a forma verbal.

Para alguns causa escândalo que se fale em gozo para além do humano. Eu me sinto confortável com a idéia de que haja um gozo das ostras. No entanto, para estas não é possível o gozo fálico, simplesmente porque não consigo pensar um desejo das ostras. Desejar é a maneira de efetivação dos seres falantes na linguagem.

Abandonar-se à passividade do gozo compulsivo, anelando pela plenitude do gozo da morte, engendra somente o gozo de um Outro envolvido no circuito da compulsão. O júbilo nessa efetivação é miserável, minguado. Autorizar-se e servir-se do falo abre a possibilidade do gozar jubiloso.

ps.: parece haver outro gozo, que é de entrega, mas  não é do Outro, isto é, não é o gozo das compulsões. Trata-se do gozo da música, do gozo dionisíaco. Em suma, gozo trágico.

Mascarada

07/05/2009

O senso comum toma o ciclo “ereção-ejaculação-detumescência” como o gozo do homem. Nisso também ele está capturado pelo imaginário: trata-se apenas de um processo fisiológico. O gozo não tem nenhuma ligação necessária com isso. A rara experiência tântrica vai além disso e denuncia assim a “mascarada”: é possível que o processo ocorra, sem que haja gozo, ou que haja gozo independentemente desse processo (como atesta o êxtase dos religiosos que, não raro, chegam ao orgasmo em suas orações). Mas então o orgasmo que se convencionou chamar de “gozo” do homem pode ser também fingimento, semblante? Confunde-se mesmo, em nossa língua, gozo com a substância ejaculada, como se este fosse visível. As assim tomadas manifestações do prazer sexual não garantem nada, nem para o homem, nem para a mulher.

Se na conclusão do coito o homem constata o produto de seus testículos espirrado para fora do seu corpo e diz “gozei!”, a mulher pode perguntar “tem certeza?”. O homem que sabe que a mulher não existe e que por isso sabe que está em condição de igualdade com ela pode responder “talvez …”