Semblante

14/02/2011

Para aqueles que falam português do Brasil, e para aqueles que falam inglês americano, existe uma homonímia que permite um vislumbre daquilo que Lacan chamou “gozo fálico”, e também daquilo que ele chamou “outro gozo”. O significante “gozo” (cum em inglês) pode significar tanto a substância ejaculada, quanto o orgasmo. A substância ejaculada pode assumir então a função de prova do orgasmo: prova de que deu-se gozo.

As ditas “mulheres” não contam com isso, e a ciência tenta encontrar um equivalente nas alterações fisiológicas que acompanhariam o orgasmo da mulher: enrubescimento da face, intumescência dos mamilos, contrações dos músculos que circunscrevem a vagina.

O problema aí é o velho prejuízo de causa e efeito, que ainda orienta a pesquisa científica e o senso comum. Pode-se pensar que as alterações fisiológicas não são efeito do gozo, e não são o gozo mesmo. Elas apenas acompanham o gozo, contingencialmente: não necessariamente.

Se for assim, não existe garantia do gozo. Essa garantia é uma construção imaginária de quem ainda não se apropriou do próprio gozo. O gozo fálico é aquele que precisa apresentar a ejaculação como prova. Isso pode ser visto em abundância no Facebook, que parece funcionar como um grande depositório de ejaculações. Produzem-se ejaculaçoes para ntregalas como prova de felicidade ao Outro: “Olha só! Eu gozei!”. É o funcionamento inaugurado pelo Twitter, esse puleiro em que pássaros irritantes anunciam titica (não é só isso que acontece nesses lugares digitais, mas a maior parte é isso, até onde eu posso ver).

A variação dita feminna dessa necessidade de garantia é a de uma possível conversa de salão de beleza. Uma mulher descreve sua experiência do gozo de uma maneira que deixa uma outra na dúvida: “Por que eu não sinto assim? Será que eu gozo?” Como essa última gostaria que a ciência finalmente encontrasse a confirmação de seu gozo!

É evidente que tudo isso ultrapassa a cópula, o homem e a mulher. Isso diz sobre a busca pela felicidade. Sobre a afirmaçao da subjetividade. E perguntaram se existe um meio termo entre uma coisa e outra, isto é, entre esse gozo fálico, determinado, e o gozo sem forma. Parece que não é necessário um meio termo. Não no sentido do justo meio aristotélico, como um ponto ideal entre dois extremos. Aí vale a dialética hegeliana. Talvez seja possível tomar as duas situações (a da garantia imaginária, e a da total falta de garantia) como momentos que, suspensos no movimento dialético, podem culminar na afirmação: “Sei que gozo!” ou “Sei que sou feliz!”, ou ainda “Sei que amo!”, sem a necessidade de autorização do Outro.

Alguém pode se instalar em uma das duas posições: a de entregar ejaculações, ou de duvidar da próprio orgasmo. A partir da teoria psicanalítica, poderíamos chamar um de obsessivo, e o outro de histérico. Ambos estão na lógica fálica. O outro gozo é a ultrapassagem disso. Ele implica um outro saber. A psicanálise pode encaminhar esse movimento, até o autorizar-se de si mesmo proposto por Lacan, porque a ejaculação não é garantia de gozo: os homens também fingem orgasmo, frequentemente para eles mesmos. Os neuróticos fingem sua felicidade e seu sofrimento, frequentemente para eles mesmos. Nisso, somos todos histéricos. Dizer “a histérica” e “o obsessivo”, é uma tentativa de validar a ordem fálica a partir da própria psicanálise, e é impedimento desta.

 

 

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Até sábado eu lia a proposição de Lacan “a mulher não existe” como enunciado de que o modo de gozo da mulher não existe. Então, numa conversa com Rodolpho Ruffino ele me disse: “o que interessa aí é o artigo definido”. Pronto! Isso enriquece a leitura da proposição.

Muitas vezes, ouvi psicanalistas remetendo essa senteça à proposição afirmativa universal da lógica aristotélica. Alguns chegaram mesmo a referir o artigo definido “a” à letra “A”, que indica a proposição universal afirmativa no esquema que os medievais usavam para codificar a lógica.

Na lógica aristotélica, existem quatro tipo de sentenças:

– universais afirmativas: “todo mamífero é mortal”

– universais negativas: “nenhum mamífero é vegetal”

– particulares afirmativas: “algum mamífero é anfíbio”

– particulares negativas: “algum mamífero não é vivíparo”

Os medievais usavam as vogais dos termos “afirmo” e “nego” para designar os quatro tipo de sentenças, de forma que “a” servia para as universais afirmativas e “i” para as particulares afirmativas; “e” servia para as universais negativas e “o” para as particulares negativas.

Ora, o que alguns propuseram é que o “a” de “a mulher não existe” é o “a” que os medievais usavam para designar sentenças universais afirmativas, entendendo que a proposição de Lacan quer dizer que “a mulher” não existe como universal, isto é, não existe o conceito de mulher.: não é possível descrever a mulher. A sentença foi psicologizada a ponto de muitos dizerem que por isso as mulheres não fazem grupo: elas não têm um conceito comum ao qual poderiam se referir. Já os homens podem formar esse conceito, a partir da imagem do “pai da horda” e, por isso, podem se reunir em grupo. Se a intenção de Lacan era manter o pensamento no âmbito da lógica, essas interpretações colocam de volta na teoria psicanalítica as genitálias de organismos masculinos e femininos e a observação quase etológica do comportamento dito humano.

Tentemos manter a abstração: pensamos que Lacan esteja se referindo a um modo de gozo, e não às chamadas “mulheres”. Com a observação de Ruffino, posso abandonar a interpretação de que o modo de gozar “mulher” não existe, para pensar que existe apenas como um modo de gozar indefinido, sem forma, sem sentido.

Aí, aproximo mais uma vez Lacan e Nietzsche, para entender esse gozo da mulher como o gozo de uma mulher. Não é possível capturá-lo de uma vez por todas em um significante ou em uma imagem. É preciso experimentá-lo a cada vez. Trata-se aqui do que Nietzsche encontrou em Dioniso. Trata-se da música em sentido absurdamente amplo.

Proust ajuda a mostrar isso quando apresenta o momento em que Swann ouve a frase musical da sonata de Vinteuil que anunciava para ele o gozo sem forma. Nese trecho de “Um amor de Swann”, quem toca a melodia é Odette, uma mulher que Swann amou (a citação é longa, mas deliciosa):

“A sede de um desconhecido encanto despertava-a nele aquela frase, mas não lhe trazia nada de preciso para aplacá-la. De sorte que as partes da alma de Swann em que a frase apagara o cuidado dos interesses materiais, as considerações humanas e válidas para todos, tinham ficado vagas e em branco, e ele era livre de ali inscrever o nome de Odette. Depois, ao que a afeição de Odette pudesse ter de um pouco estreito e decepcionante, vinha a frase acrescentar, amalgamar a sua essência misteriosa. A julgar pela fisionomia de Swann enquanto escutava a frase, dir-se-ia que estava ele absorvendo um anestésico que lhe dava maior amplitude à respiração. E o prazer que lhe dava a música e que em breve ia criar nele uma verdadeira necessidade, assemelhava-se com efeito, em tais momentos, ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não fomos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem siginifcado porque escapa à nossa inteligência, e nós só o atingimos por um único sentido. Que grande repouso, que misteriosa renovação para Swann – ele cujos olhos, embora delicados amadores de pintura, cujo espírito, embora fino observador de costumes, carregavam para sempre a marca indelével da secura de sua vida – sentir-se assim transformado numa criatura estranha à humanidade, desprovida de faculdades lógicas, quase um licorne, uma criatura quimérica que percebia o mundo apenas pelo ouvido.”

Fica uma questão: será que a música apenas anuncia Dioniso, ou será que ela é Dioniso?

Chocolate

17/07/2009

Ele calcula cuidadosamente as mordidas: a quantidade de chocolate oferecida as suas papilas degustativas deve ser suficiente para que goze deste sabor e ao mesmo tempo garanta a permanência da barra pelo maior período que consiga. Seu ideal é que ela termine extamente no instante de sua morte, e garanta com isso que ele gozou na maior medida possível durante sua existência. Se a barra terminar antes que ele morra, restará um tempo de vida reduzido à espera resignada pela morte: tempo miserável. Se, no instante derradeiro, constatar a sobra de algum (ou alguns) dos pequenos quadriláteros que compõem a barra de chocolate, experimentará o amargor de ter gozado menos do que poderia em cada mordida avarenta que deu na vida.

Ela se lambuza inteira. Morde avidamente tentando ultrapassar-se no sabor do chocolate e, por maior que seja a mordida, não consegue saborear o tanto que imagina poder. Nenhum chocolateiro conseguiu, até agora, preparar a massa com sabor intenso suficiente para que ela possa dizer afinal que gosto tem o chocolate.

Ele tem medo de morrer. Ela, de enlouquecer.

Gozo místico?

Gozo místico?

Como saber se Santa Teresa d’Ávila de fato gozava? E se fosse apenas mascarada? Que provas ela deva de seu gozo? Basta o relato desse gozo?

Diz-se que ela levitava durante a missa … Uau! Que gozada! Também, pudera, estava sendo copulada pelo próprio Deus!

As santas do nosso tempo não levitam: ejaculam!

p.s.: o chamado “gozo místico” parece ser possível, em graus diferentes. Isso, aprendi com Nietzsche e com a música. Soube do ue se trata com Bataille, no capítulo “Misticismo e Santidade” de seu “Erotismo”. É possível gozar para além do falo. É um gozo de entrega, que não precisa se mostrar. Um gozo de quem pôde, por instantes, ultrapassar os limites do “eu”, isto é, os limites do corpo, entendido aqui como o corpo da psicanálise. O gozo do outro sexo: da mulher. Um gozo que não se imaginariza: daí o desespero e a urgência em ver Teresa levitando, ou Carly ejaculando. Dersconfia-se da mulher, quando o que é preciso, não é obter provas de seu gozo, mas aprender a gozar com ela.

Gozo : gozo fálico = Morte : pequena morte = Outro : outro

Gozar a vida ou ser gozado pela morte?

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Será que foi por ter pensado um outro gozo que Lacan precisou pensar uma outra lógica? Uma lógica que pode considerar um meio termo entre a vida e a morte? Um justo meio? Um gozo justo? Além do Falo? Além do Homem?

Uau! Começo a me empolgar com a idéia de que Lacan se atreveu a continuar de onde Nietzsche parou.

definição: gozo é efetivação.

proposição: do gozo não se escapa.

corolário: não existem “tipos” de gozo, mas modalidades de gozo. Na teoria lacaniana são essas as modalidades: gozo mítico, gozo do Outro, gozo fálico, outro gozo.

– O gozo mítico é o gozo da plenitude. Daí a aproximação de gozo e pulsão de morte. Para o humano, a plenitude só é possível na  morte. No entanto, não é possível experimentar esse gozo. Ele permanece apenas como o paradoxo de uma nostalgia do futuro. Algo que só será alcançado no momento em que não mais estivermos em efetivação. Estaremos efetivados de uma vez por todas, plenos e mortos.

– O gozo do Outro é a modalidade de gozo passiva, em que a efetivação que ocorre é a efetivação de um Outro. Penso no gozo que se efetiva nas compulsões.

– O gozo fálico é aquele que se dá a partir do desejo. Penso aqui na efetivação afirmadora da vontade de poder nietzscheana. Sendo assim, o que se afirma no gozo fálico é o desejo, conceito que pensamos ser homólogo aos conceitos de vontade de poder em Nietzsche, ou conatus, em Spinoza. O gozo fálico é alegria, júbilo, considerando ainda Spinoza.

Seguindo a recomendação nietzscheana, talvez nem devêssemos usar o termo “gozo”, mas somente “gozar”, já que gozo designa uma ação. Seria mais preciso ficarmos apenas com a forma verbal.

Para alguns causa escândalo que se fale em gozo para além do humano. Eu me sinto confortável com a idéia de que haja um gozo das ostras. No entanto, para estas não é possível o gozo fálico, simplesmente porque não consigo pensar um desejo das ostras. Desejar é a maneira de efetivação dos seres falantes na linguagem.

Abandonar-se à passividade do gozo compulsivo, anelando pela plenitude do gozo da morte, engendra somente o gozo de um Outro envolvido no circuito da compulsão. O júbilo nessa efetivação é miserável, minguado. Autorizar-se e servir-se do falo abre a possibilidade do gozar jubiloso.

ps.: parece haver outro gozo, que é de entrega, mas  não é do Outro, isto é, não é o gozo das compulsões. Trata-se do gozo da música, do gozo dionisíaco. Em suma, gozo trágico.

Mascarada

07/05/2009

O senso comum toma o ciclo “ereção-ejaculação-detumescência” como o gozo do homem. Nisso também ele está capturado pelo imaginário: trata-se apenas de um processo fisiológico. O gozo não tem nenhuma ligação necessária com isso. A rara experiência tântrica vai além disso e denuncia assim a “mascarada”: é possível que o processo ocorra, sem que haja gozo, ou que haja gozo independentemente desse processo (como atesta o êxtase dos religiosos que, não raro, chegam ao orgasmo em suas orações). Mas então o orgasmo que se convencionou chamar de “gozo” do homem pode ser também fingimento, semblante? Confunde-se mesmo, em nossa língua, gozo com a substância ejaculada, como se este fosse visível. As assim tomadas manifestações do prazer sexual não garantem nada, nem para o homem, nem para a mulher.

Se na conclusão do coito o homem constata o produto de seus testículos espirrado para fora do seu corpo e diz “gozei!”, a mulher pode perguntar “tem certeza?”. O homem que sabe que a mulher não existe e que por isso sabe que está em condição de igualdade com ela pode responder “talvez …”

Excesso

29/04/2009

E se um acidente metabólico fez com que em um determinado momento da eternidade esses animais fossem carregados com mais energia do que a necessária para comer, digerir, evacuar, copular, reproduzir …

Que outro animal come além da conta? Que outro animal, com exceção dos “humanizados”, engorda?

Mais uma vez penso na linguagem como jogo, que jogamos com esse excesso de energia.

Maneiras de dissipação desse calor: o gozo inumano e miserável de uma tentativa de retorno à animalidade bruta nas diversas compulsões;  a brincadeira enfadonha do sintoma; o jogo do desejo.

Para muitos restou apenas gozar no asfalto com os testículos pendurados no espelho retrovisor … E o noticiário fala de “Guerra do Trânsito”. Mas, o que há de glorioso no trânsito?!? Nele não circulam guerreiros ou heróis, mas estúpidos, vítimas e sobreviventes.