Mais mulher

28/12/2009

Vamos tomar como princípio que o significante “mulher”, nos jogos que jogamos em nossa linguagem, possa referir-se ao indefinido, informe, louco, indizível.

Vamos assumir também que os humanos se esforçam por circunscrever esse elemento que escolhemos designar pelo termo “mulher”. Designemos esse esforço como “homem”.

Aqueles cujos organismos incluem útero, ovários, glândulas mamárias e vulvas são procuradores da “mulher”. Os portadores de testículos e pênis são procuradores do “homem”.

Essa é a montagem do fantasma de grupo que faz funcionar a sexualidade. Daí a crítica de Deleuze e Guattari à noção de “fantasma”. Daí a crítica ao “Bate-se em uma criança”, de Freud. Alguém poderia, baseado na psicanálise, argumentar que as mulheres sempre estiveram de acordo. Que se submetem porque gozam assim (não faltam exemplos de que existe essa idéia, desde o dito popular “a mão que balança o berço é a mão que governa o mundo” até o AntiCristo de Lars von Trier). As “mulheres” encarnariam de bom grado a loucura para serem contidas pelo “homem”, incumbido de encarnar a razão, e isso ensejaria a repetição neurótica da “atuação” dessa fábula.

A crítica de Deleuze e Guattari parece dizer que é a psicanálise que faz a conjunção de “razão” e “loucura” com a sexualidade, atribuindo ao homem a razão e à mulher a loucura. Nós, psicanalistas, entendemos que essa conjunção é anterior à psicanálise e que a psicanálise pode desvelar o caráter fantasmático dessa conjunção e instaurar a possibilidade de atravessamento desse fantasma.

Mas, para Deleuze e Guattari (e, talvez também para Foucault), isso não basta. É preciso “mais um esforço”. É preciso atravessar a disjunção “razão” e “loucura”.  É preciso resgatar a “loucura”, o indizível, o indefinível, o sem forma. Várias pensadores falaram muito bem sobre isso no século passado: Heidegger, Wittgenstein, Lacan, Deleuze. Mas, nas minhas leituras, ainda não encontrei quem dissesse isso melhor do que Nietzsche.

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Dualismo imanente

31/07/2009

Deleuze e Guattari já haviam notado e anotado em seu Anti-Édipo: a imagem psíquica do corpo é a última versão da alma.

Sendo assim, a alma da psicanaĺise é imanente. Melhor chamá-la “corpo” e relacioná-la com a carne. Ao invés do dualismo corpo e alma, propõe-se o dualismo corpo e carne.

No Fédon , de Platão, discute-se a natureza da alma e sua relação com o corpo. Sócrates argumenta para justificar sua tranqüilidade no dia em que tomaria a cicuta: se não teme a morte é porque, experimentado na filosofia, sabe da indestrutibilidade da alma, e sabe que depois da morte, que é apenas do corpo, estará melhor do que aprisonado à carne grosseira. Me parece que a psicanálise está no argumento de Símias, em oposição à Sócrates: a alma está para o corpo, assim como a harmonia está para a lira.

Isto é, a alma é efeito do corpo, e se forma a partir dele, e se desfaz quando ele se corrompe. Tomando os termos da psicanálise, o corpo é efeito da carne; o corpo é imagem que se articula no simbólico, e o real é a carne. Daí podemos inferir que o corpo morre junto com a carne, e que, vivos, somos o corpo e somos a carne. Ou melhor, somos essa relação ente corpo e carne.

No entanto, entre psicanalistas, “dualismo” parece ser um termo maldito. Especialmente porque remete ao dualismo “corpo e alma” de um pensamento que despreza o corpo e a carne. Dizer que corpo e carne são coisas diversas me parece fundamental para a teoria lacaniana da corporeidade, e esta posição é dualista, isto é, o corpo é dual: é carne incorporada.

Me parece até que essa dualidade permite superar o problema do hilomorfismo aristotélico como base para o entendimento da relação entre corpo e alma nos seres vivos (a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um bom artigo a respeito bem aqui). Aristóteles postula que sem alma, o corpo não é mais corpo. Sendo assim, um cadáver não é corpo. Penso que Lacan concordaria com isso. Talvez ele disesse: “é óbvio que um cadáver não é mais corpo! Para continuar sendo corpo, tem que ser sepultado!” Se fizesse isso, tiraria Aristóteles de uma grande enrascada. Ele não fez, mas deixou em Radiofonia a condição de fazermos …