“Nome é vapor e som”, diz Fausto para Gretchen no jardim de Marta.

Vapor que nos envolve, que se dissipa, mas que é sempre vapor. Grande problema se os nomes mudam de estado. Grande problema se solidificam e cancelam todo movimento, ou se viram enxurrada que arrasta todo o sentido. Precisamos do sentido, esse cobertor curto com o qual nos viramos em nossa condição de seres que falam.

Os nomes permanecem suspensos como vapor, entre o sólido e o líquido.

Comecei o ano atravessando a doença metafísica com Nietzsche, e terminei com a segunda natureza de Hegel. Começo 2011 com o conatus de Spinoza e a percepção de Merleau-Ponty. De fundo, sempre, a lalíngua de Lacan. Um percurso. Uma meta: ultrapassar a metafísica; prescindir dela. Talvez prescindir da metapsicologia. Uma quimera?

O sentido continua dando mostras de uma tendência à cristalização, que se manifesta como ansiedade: como anseio de controle. Então a lalíngua nos salva: nome é, também, som. É ar deslocado. Moterialité.

Resta deixar os nomes soarem. Fazer o ar se deslocar e esperar a volta deste deslocamento. Nessa hora o sentido parece poder muito pouco na relação com as intensidades. E, mais uma vez, o romantismo se insinua. A tensão permanece, fazendo todo ser evanescente. Nem Apolo, nem Dioniso, mas a tragédia. Foi o próprio Nietzsche quem percebeu o movimento hegeliano no seu Nascimento da Tragédia.

Mas, e quanto ao silêncio da palavra escrita? É de outro jeito que ela nos pega, mas pega. Como é possível esse milagre? Será que, de cara, a escrita pode contar com uma certa nostalgia do som? Uma melancolia que já nos põe sensíveis aos deslocamentos do poeta?

Questões! O bom começo!

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“A strong ego affords some protection against falling ill; but in the end we must necessarily start loving if we are not to fall ill, and we must necessarily fall ill if refusal* makes us incapable of loving.”

(Freud, On the introduction of Narcissism, trad.  John Reddick)

*[Freud’s important but challenging term is Versagung, from the verb versagen, itself cognate with English ‘forsake’ – one now-obsolete meaning of wich is ‘To decline or refuse (something offered)’ (OED – Oxford English Dictionary). What he means by the term is rather more clearly shown by the opening sentences of ‘Die am Erfolge scheitern’ (‘Those who founder on Success’): ‘Our work in psychoanalysis has presented us with the following proposition: People incur neurotic illness as a result of refusal. What is meant by this is that their libidinal desires are refused gratification’ – i.e. by the savagely censorious entity within that oversees their very thought and deed. See also the penultimate sentence of this present essay: ‘We can thus more readily understand the fact that paranoia is frequently caused by the ego being wounded, by gratification being refused within the domain of the ego-ideal.’ The Standard Edition routinely and astonishingly mistranslates the term as ‘frustration’.]

Minha tradução:

“Um ego forte conta com alguma proteção contra o adoecimento; mas, no final das contas, precisamos necessariamente começar a amar se não vamos adoecer, e necessariameente adoeceremos se a recusa nos fizer incapazes de amar.”

“O termo importante mas desafiador de Freud é Versagung, do verbo versagen, ele mesmo cognato do inglês forsake – cujo um dos significados, agora obsoleto, é ‘declinar ou recusar (alguma coisa oferecida). O que ele significa com o termo é mostrado mais claramente nas sentenças de abertura de ‘Aqueles que fracassam no sucesso’: ‘Nosso trabalho na psicanálise nos apresentou a seguinte proposição: as pessoas incorrem no adoecimeento neurótico como resultado de recusa. O que se significa com isso é que seus desejos libidinais têm gratificação recusada.’ Isto é, pela entidade interior selvagemente censuradora que supervisiona seus próprios pensamentos e intenções. Veja-se também a penúltima sentença do presente ensaio: ‘Nós podemos então entender mais prontamente o fato da paranóia ser frequentemente causada pelo ego sendo ferido, pela gratificação sendo recusada dentro do domínio do ego-ideal.’ A Edição Standard [Stratchey] rotineiramente e assustadoramente traduz erroneamente o termo como ‘frustração’.”

Minha leitura:

Não se trata então de “frustar a demanda” do paciente, mas de “recusar a demanda” deste. Como? Recusando a oferta de reconhecimento que ele nos faz. Oferta de reconhecimento=demanda de amor.

Outro problema de tradução que, se for ultrapassado pode facilitar o entendimento disso: por que verter “discours du maître” como “discurso do mestre”?!?!? É tão óbvio que trata-se do “discurso do senhor”! Senhor que é a verdade do escravo,  como mostra o “discurso do universitário” que poderia, talvez, chamar-se também “discurso do escravo”.

Ao recusar o reconhecimento que o paciente oferece como dádiva, o analista recusa a demanda que este lhe faz. Qual seja: a demanda de aceitá-lo (o paciente) como sua verdade (a do analista). Isto é, ao recusar a oferta de reconhecimento que o paciente lhe faz, o analista recusa-se a reconhecê-lo como sua verdade, o que engendraria uma relação de amor.  Isto está em Hegel. Lembremos que “senhor e escravo” em francês diz-se “maître et esclave”. (por que traduziram “maître” como “mestre”?!?!?)

Poderia-se advogar a favor da tradução corrente recorrendo à uma relação “mestre/universitário” ao invés de “senhor/escravo”. Isso só me faz preferir a oposição “senhor/universitário”.

Nessa recusa, o analista cancela a dialética do reconhecimento proposta por Hegel. O senhor da psicanálise é o senhor para além de bem e mal. Senhor cuja ética é a ética da psicanálise, como pode enunciar veementemente Néstor Braunstein em seu Gozo*. Esse senhor afirma-se em seu ato; ele é ato: isso está documentado nas páginas da Genealogia da Moral, d’isso que cataloga-se sob “Nietzsche”.

Ao propor o mestre no lugar do senhor perde-se a coloração ética. Mas não é de ética que se trata?!?!?

De agora em diante lerei “recusa da demanda” e “discurso do senhor”.

Mas, não posso deixar de agradecer aos maus tradutores o material para fricção. Os erros deles tornam mais divertido pensar a psicanálise. Vou brincar um pouco com “a-senhorar-se” e “a-mestrar-se”. Vou brincar também com a idéia de que o paciente chega procurando Hegel e encontra Nietzsche!

* se faço argumento à autoridade evocando Braunstein, faço isso por exigência da brevidade que este meio, o email, sugere. Estou disposto e disponível para desenvolver esse argumento em outros meios.