Mal ético

16/07/2012

Nietzsche ainda causa desconforto. Ele não se deixa apanhar. Talvez esteja em algum lugar entre o livre arbítrio dos modernos,  e o cativo arbítrio dos positivistas. Não se tratando de uma coisa, nem outra, a liberdade não tem lugar marcado: é a liberdade de “tornar-se o que se é”, prerrogativa da vontade de poder “saudável”. Mas, colocando as coisas nesses termos, permanecemos ainda presos à “liberdade”, que só pode ser desiderato de escravos. O que, em nós, anseia por libertação é a porção mais fraca de nossas forças, e já esse “nossas” é indevido, é posterior.  O “eu” que participa do “nós” é uma ilusão (fundamental em sua função de máscara, mas uma ilusão). Aludindo à nobreza de Platão, ele diz: ” … na oposição à evidência dos sentidos estava o encanto do modo platônico de pensar, que era um modo nobre de pensar — entre homens, talvez, que desfrutavam de sentidos até mais fortes e imperiosos do que os de nossos contemporâneos, mas que sabiam ver um triunfo mais elevado em permanecer mestres desses sentidos: e isto mediante pálidas, cinzentas, frias redes de conceitos, que jogavam sobre o variegado torvelinho dos sentidos — a turba dos sentidos, como disse Platão.” Essa tomada de posição em relação aos sentidos é o movimento nobre de Platão. O problema é o estancamento que cancela o movimento para instaurar o Mundo das Ideias, locus da Verdade: o “gozo” de Platão fica velado quando ele pretende apresentar-se para além da própria máscara, transformando esta em ídolo. “Nessa interpretação e superação do mundo à maneira de Platão havia uma espécie de gozo distinto daquele que nos oferecem os físicos de hoje, ou os darwinistas e antiteleólogos entre os que trabalham na fisiologia, com seu princípio da ‘força mínima’ e da estupidez máxima.” E se essa “maneira de Platão” for a possibilidade de se querer o que se deseja, lançando mão aqui de uma proposição lacaniana? A ultrapassagem do cativo arbítrio descrito por uma fisiologia que é muito mais um fisiologismo? A travessia do fantasma?

“A neurose, um mal ético e não uma doença predestinada a classificações e tratamentos médicos, é a impotência ou a renúncia ante a jogada que cada um deveria fazer para chegar a ser.”, constatou Néstor Braunstein. Então, não se confunda o psicanalista com o sacerdote! O ascetismo está em outro lugar: está em um “saber fazer” sem inventividade, que opera a partir do “dado”: “Onde o homem nada encontra para ver e pegar, nada tem a fazer’ — este é sem dúvida um imperativo diferente do platônico, mas para uma raça dura e laboriosa de futuros mecânicos e construtores de pontes, que não terá senão trabalho grosseiro a executar, pode bem ser o imperativo justo.”

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Semblante

14/02/2011

Para aqueles que falam português do Brasil, e para aqueles que falam inglês americano, existe uma homonímia que permite um vislumbre daquilo que Lacan chamou “gozo fálico”, e também daquilo que ele chamou “outro gozo”. O significante “gozo” (cum em inglês) pode significar tanto a substância ejaculada, quanto o orgasmo. A substância ejaculada pode assumir então a função de prova do orgasmo: prova de que deu-se gozo.

As ditas “mulheres” não contam com isso, e a ciência tenta encontrar um equivalente nas alterações fisiológicas que acompanhariam o orgasmo da mulher: enrubescimento da face, intumescência dos mamilos, contrações dos músculos que circunscrevem a vagina.

O problema aí é o velho prejuízo de causa e efeito, que ainda orienta a pesquisa científica e o senso comum. Pode-se pensar que as alterações fisiológicas não são efeito do gozo, e não são o gozo mesmo. Elas apenas acompanham o gozo, contingencialmente: não necessariamente.

Se for assim, não existe garantia do gozo. Essa garantia é uma construção imaginária de quem ainda não se apropriou do próprio gozo. O gozo fálico é aquele que precisa apresentar a ejaculação como prova. Isso pode ser visto em abundância no Facebook, que parece funcionar como um grande depositório de ejaculações. Produzem-se ejaculaçoes para ntregalas como prova de felicidade ao Outro: “Olha só! Eu gozei!”. É o funcionamento inaugurado pelo Twitter, esse puleiro em que pássaros irritantes anunciam titica (não é só isso que acontece nesses lugares digitais, mas a maior parte é isso, até onde eu posso ver).

A variação dita feminna dessa necessidade de garantia é a de uma possível conversa de salão de beleza. Uma mulher descreve sua experiência do gozo de uma maneira que deixa uma outra na dúvida: “Por que eu não sinto assim? Será que eu gozo?” Como essa última gostaria que a ciência finalmente encontrasse a confirmação de seu gozo!

É evidente que tudo isso ultrapassa a cópula, o homem e a mulher. Isso diz sobre a busca pela felicidade. Sobre a afirmaçao da subjetividade. E perguntaram se existe um meio termo entre uma coisa e outra, isto é, entre esse gozo fálico, determinado, e o gozo sem forma. Parece que não é necessário um meio termo. Não no sentido do justo meio aristotélico, como um ponto ideal entre dois extremos. Aí vale a dialética hegeliana. Talvez seja possível tomar as duas situações (a da garantia imaginária, e a da total falta de garantia) como momentos que, suspensos no movimento dialético, podem culminar na afirmação: “Sei que gozo!” ou “Sei que sou feliz!”, ou ainda “Sei que amo!”, sem a necessidade de autorização do Outro.

Alguém pode se instalar em uma das duas posições: a de entregar ejaculações, ou de duvidar da próprio orgasmo. A partir da teoria psicanalítica, poderíamos chamar um de obsessivo, e o outro de histérico. Ambos estão na lógica fálica. O outro gozo é a ultrapassagem disso. Ele implica um outro saber. A psicanálise pode encaminhar esse movimento, até o autorizar-se de si mesmo proposto por Lacan, porque a ejaculação não é garantia de gozo: os homens também fingem orgasmo, frequentemente para eles mesmos. Os neuróticos fingem sua felicidade e seu sofrimento, frequentemente para eles mesmos. Nisso, somos todos histéricos. Dizer “a histérica” e “o obsessivo”, é uma tentativa de validar a ordem fálica a partir da própria psicanálise, e é impedimento desta.

 

 

“Nome é vapor e som”, diz Fausto para Gretchen no jardim de Marta.

Vapor que nos envolve, que se dissipa, mas que é sempre vapor. Grande problema se os nomes mudam de estado. Grande problema se solidificam e cancelam todo movimento, ou se viram enxurrada que arrasta todo o sentido. Precisamos do sentido, esse cobertor curto com o qual nos viramos em nossa condição de seres que falam.

Os nomes permanecem suspensos como vapor, entre o sólido e o líquido.

Comecei o ano atravessando a doença metafísica com Nietzsche, e terminei com a segunda natureza de Hegel. Começo 2011 com o conatus de Spinoza e a percepção de Merleau-Ponty. De fundo, sempre, a lalíngua de Lacan. Um percurso. Uma meta: ultrapassar a metafísica; prescindir dela. Talvez prescindir da metapsicologia. Uma quimera?

O sentido continua dando mostras de uma tendência à cristalização, que se manifesta como ansiedade: como anseio de controle. Então a lalíngua nos salva: nome é, também, som. É ar deslocado. Moterialité.

Resta deixar os nomes soarem. Fazer o ar se deslocar e esperar a volta deste deslocamento. Nessa hora o sentido parece poder muito pouco na relação com as intensidades. E, mais uma vez, o romantismo se insinua. A tensão permanece, fazendo todo ser evanescente. Nem Apolo, nem Dioniso, mas a tragédia. Foi o próprio Nietzsche quem percebeu o movimento hegeliano no seu Nascimento da Tragédia.

Mas, e quanto ao silêncio da palavra escrita? É de outro jeito que ela nos pega, mas pega. Como é possível esse milagre? Será que, de cara, a escrita pode contar com uma certa nostalgia do som? Uma melancolia que já nos põe sensíveis aos deslocamentos do poeta?

Questões! O bom começo!

Supondo que não existam fatos, mas apenas interpretações dos fatos, então, toda proposição está comprometida com uma interpretação, com uma perspectiva, com uma visada, uma visão de mundo, uma Weltanschaung … inclusive as proposições “Todo sonho é realização de um desejo inconsciente”, ou “Não há relação sexual”. Preciso continuar o argumento?

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Os fatos que não existem como fatos, são os fatos morais. Importante fazer a predicação.

E a psicanálise não é Weltanschaung porque é uma prática clínica: não é proposta de civilização, sociedade ou, para usar um termo mais preciso, cunhado por Husserl: Lebenswelt [mundo da vida].

No entanto, não se pode negar que ela interpreta os fatos morais à sua maneira, a partir de uma vontade de poder determinada (é assim se acompanharmos Nietzsche; obviamente, ninguém é obrigado a acompanhá-lo; talvez sejam poucos aqueles que se sentem à vontade andando com ele).

Existe um punhado de certeza no fantástico Lebenswelt do avesso da psicanálise.

Um psicanalista é alguém que pôde atravessar essa certeza para prescindir dela.

A própria análise é construção em análise.

Orgulho

17/02/2010

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Comtesse d'Haussonville (1845), de Jean-Auguste-Dominique Ingres

“Some women have been made unhappy by petty considerations of pride and social convention, and have been placed in an intolerable position by the pride of their relatives. In generous compensation for all their misfortunes, Destiny decreed that they should know the bliss of loving and being loved with passion. But there comes a day when they borrow from their enemies that same insensate pride which had made them unhappy, only to destroy the unique happiness left to them, and to bring misfortune upon themselves and those who love them.” Stendhal, Love, Chapter 30, A Strange and Sorry Spectacle

Aqui vai o trecho traduzido do inglês (prefiro ler esses clássicos em inglês, porque as edições parecem mais cuidadosas e custam muito menos do que as edições em português):

“Algumas mulheres têm sido infelizes por conta de mesquinharias do orgulho e da convenção social, e têm sido colocadas numa posição intolerável por conta do orgulho de seus parentes. Como compensação generosa por todos os seus infortúnios, Destino decretou que eles devam conhecer a alegria de amar e serem amadas com paixão. Mas chega o dia em que elas tomam de seus inimigos o mesmo orgulho insensato que as têm feito infelizes, unicamente para destruir a única felicidade que resta para elas, e para trazer infortúnio para elas mesmas e para aqueles que as amam.”

No original francês:

“Les petites considérations de l’orgueil et des convenances du monde on fait les maulheurs de quelques femmes, et par orgueil leurs parents les ont placés dans une position abominable. Le destin leur avait réservé pour consolation bien supériere à tous leurs malheurs le bonheur d’aimer et d’êtrte aimées avec passion; mais voilá qu’un beau jour elles empruntent à leurs ennemies ce même orgueil insensé dont elles furent les preimières victimes, et c’est pour tuer le seul bonheur qui leur reste, c’est pour faire leur propore malheur etl le malheur des qui les aime.”

Stendhal escreveu isso no século XIX. Me parece que o tom é um tanto o quanto machista. Como se o autor estivesse pedindo que as mulheres não efetivassem o orgulho fálico, para que o amor pudesse acontecer.

Isso me remete à discussão atual sobre industrialização e mudanças climáticas. Os países não industrializados reivindicam o direito de industrializar-se, para entrarem no jogo da economia cacifados. A reivindicação parece justa. Mas, como é usual nesses debates, não se discute a industrialização mesma. é realmente uma boa estratégia para os conservadores: vamos manter as coisas como estão para preservar a Terra.

O mesmo poderia dizer-se do homem que pede à mulher que não seja orgulhosa, para o bem do Amor, reservando para si o direito à imbecilidade. Não acredito que essa possa ser a intenção de Stendhal. ele parece estar bem acima disso.

Nessa hora eu posso me entusiasmar com Lacan, por ele ter separado o feminino da vulva, do clitóris e das glândulas mamárias; e o masculino do pênis e dos testículos. Isso me dá a oportunidade de voltar a Stendhal pensando que o feminino é a capacidade de “amar e ser amado com paixão”, e o masculino é o “orgulho insensato”. O arranjo social distribui esses elementos pelos organismos.

A psicanálise enriquece a leitura de livros como “Do Amor”. Stendhal afirma que o amor acontece em estágios. Um dos estágios fundamentais é o que ele chama de “cristalização”: nesse estágio, atribuímos à pessoa amada tantas perfeições que, num determinado ponto, não podemos mais reconhecer a pessoa que serve de suporte para a cristalização, e oferece como imagem para mostrar essa ideia o “graveto de Slazburg”: em partes abandonadas das minas de sal de Salzburg, joga-se um graveto sem folhas e depois de alguns meses é possível retirá-lo de onde foi deixado coberto por um “depósito brilhante de cristais”. O interessante, é que para ele o processo tem um gatilho fisiológico. A cristalização começa com um impulso da Natureza, mas é a imaginação que cuida de efetivá-la. Para isso, o arranjo social é fundamental.

Stendhal chega afirmar que “nenhuma forma racional de governo pode recapturar a cristalização” (“recapturar”, ou “refazer”, porque acontecem duas cristalizações no amor, e a segunda é mesmo uma “refação” da primeira, que precisa ser maculada, afim de que uma cristalização mais forte se dê). O exemplo máximo, para o autor, de um governo absolutamente “anti-imaginação”, é o governo dos Estados Unidos da América. Nesses arranjos sociais, o amor não vai além do que Stendhal chamou de amor-físico, porque as pessoas não têm tempo ou disposição para a cristalização.

As categorias lacanianas Real, Simbólico e Imaginário (R.S.I.) aparecem bem na formulação de Stendhal e, por sua vez, revelam a força crítica deste: até agora, as mulheres têm sido encarregadas de preservar o feminino em nosso arranjo social.

Talvez seja interessante distribuir essa tarefa …

Mais mulher

28/12/2009

Vamos tomar como princípio que o significante “mulher”, nos jogos que jogamos em nossa linguagem, possa referir-se ao indefinido, informe, louco, indizível.

Vamos assumir também que os humanos se esforçam por circunscrever esse elemento que escolhemos designar pelo termo “mulher”. Designemos esse esforço como “homem”.

Aqueles cujos organismos incluem útero, ovários, glândulas mamárias e vulvas são procuradores da “mulher”. Os portadores de testículos e pênis são procuradores do “homem”.

Essa é a montagem do fantasma de grupo que faz funcionar a sexualidade. Daí a crítica de Deleuze e Guattari à noção de “fantasma”. Daí a crítica ao “Bate-se em uma criança”, de Freud. Alguém poderia, baseado na psicanálise, argumentar que as mulheres sempre estiveram de acordo. Que se submetem porque gozam assim (não faltam exemplos de que existe essa idéia, desde o dito popular “a mão que balança o berço é a mão que governa o mundo” até o AntiCristo de Lars von Trier). As “mulheres” encarnariam de bom grado a loucura para serem contidas pelo “homem”, incumbido de encarnar a razão, e isso ensejaria a repetição neurótica da “atuação” dessa fábula.

A crítica de Deleuze e Guattari parece dizer que é a psicanálise que faz a conjunção de “razão” e “loucura” com a sexualidade, atribuindo ao homem a razão e à mulher a loucura. Nós, psicanalistas, entendemos que essa conjunção é anterior à psicanálise e que a psicanálise pode desvelar o caráter fantasmático dessa conjunção e instaurar a possibilidade de atravessamento desse fantasma.

Mas, para Deleuze e Guattari (e, talvez também para Foucault), isso não basta. É preciso “mais um esforço”. É preciso atravessar a disjunção “razão” e “loucura”.  É preciso resgatar a “loucura”, o indizível, o indefinível, o sem forma. Várias pensadores falaram muito bem sobre isso no século passado: Heidegger, Wittgenstein, Lacan, Deleuze. Mas, nas minhas leituras, ainda não encontrei quem dissesse isso melhor do que Nietzsche.

Até sábado eu lia a proposição de Lacan “a mulher não existe” como enunciado de que o modo de gozo da mulher não existe. Então, numa conversa com Rodolpho Ruffino ele me disse: “o que interessa aí é o artigo definido”. Pronto! Isso enriquece a leitura da proposição.

Muitas vezes, ouvi psicanalistas remetendo essa senteça à proposição afirmativa universal da lógica aristotélica. Alguns chegaram mesmo a referir o artigo definido “a” à letra “A”, que indica a proposição universal afirmativa no esquema que os medievais usavam para codificar a lógica.

Na lógica aristotélica, existem quatro tipo de sentenças:

– universais afirmativas: “todo mamífero é mortal”

– universais negativas: “nenhum mamífero é vegetal”

– particulares afirmativas: “algum mamífero é anfíbio”

– particulares negativas: “algum mamífero não é vivíparo”

Os medievais usavam as vogais dos termos “afirmo” e “nego” para designar os quatro tipo de sentenças, de forma que “a” servia para as universais afirmativas e “i” para as particulares afirmativas; “e” servia para as universais negativas e “o” para as particulares negativas.

Ora, o que alguns propuseram é que o “a” de “a mulher não existe” é o “a” que os medievais usavam para designar sentenças universais afirmativas, entendendo que a proposição de Lacan quer dizer que “a mulher” não existe como universal, isto é, não existe o conceito de mulher.: não é possível descrever a mulher. A sentença foi psicologizada a ponto de muitos dizerem que por isso as mulheres não fazem grupo: elas não têm um conceito comum ao qual poderiam se referir. Já os homens podem formar esse conceito, a partir da imagem do “pai da horda” e, por isso, podem se reunir em grupo. Se a intenção de Lacan era manter o pensamento no âmbito da lógica, essas interpretações colocam de volta na teoria psicanalítica as genitálias de organismos masculinos e femininos e a observação quase etológica do comportamento dito humano.

Tentemos manter a abstração: pensamos que Lacan esteja se referindo a um modo de gozo, e não às chamadas “mulheres”. Com a observação de Ruffino, posso abandonar a interpretação de que o modo de gozar “mulher” não existe, para pensar que existe apenas como um modo de gozar indefinido, sem forma, sem sentido.

Aí, aproximo mais uma vez Lacan e Nietzsche, para entender esse gozo da mulher como o gozo de uma mulher. Não é possível capturá-lo de uma vez por todas em um significante ou em uma imagem. É preciso experimentá-lo a cada vez. Trata-se aqui do que Nietzsche encontrou em Dioniso. Trata-se da música em sentido absurdamente amplo.

Proust ajuda a mostrar isso quando apresenta o momento em que Swann ouve a frase musical da sonata de Vinteuil que anunciava para ele o gozo sem forma. Nese trecho de “Um amor de Swann”, quem toca a melodia é Odette, uma mulher que Swann amou (a citação é longa, mas deliciosa):

“A sede de um desconhecido encanto despertava-a nele aquela frase, mas não lhe trazia nada de preciso para aplacá-la. De sorte que as partes da alma de Swann em que a frase apagara o cuidado dos interesses materiais, as considerações humanas e válidas para todos, tinham ficado vagas e em branco, e ele era livre de ali inscrever o nome de Odette. Depois, ao que a afeição de Odette pudesse ter de um pouco estreito e decepcionante, vinha a frase acrescentar, amalgamar a sua essência misteriosa. A julgar pela fisionomia de Swann enquanto escutava a frase, dir-se-ia que estava ele absorvendo um anestésico que lhe dava maior amplitude à respiração. E o prazer que lhe dava a música e que em breve ia criar nele uma verdadeira necessidade, assemelhava-se com efeito, em tais momentos, ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não fomos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem siginifcado porque escapa à nossa inteligência, e nós só o atingimos por um único sentido. Que grande repouso, que misteriosa renovação para Swann – ele cujos olhos, embora delicados amadores de pintura, cujo espírito, embora fino observador de costumes, carregavam para sempre a marca indelével da secura de sua vida – sentir-se assim transformado numa criatura estranha à humanidade, desprovida de faculdades lógicas, quase um licorne, uma criatura quimérica que percebia o mundo apenas pelo ouvido.”

Fica uma questão: será que a música apenas anuncia Dioniso, ou será que ela é Dioniso?

Contatos

16/11/2009

Assisti esse documentário sobre o Cartier-Bresson ontem, depois de ver a exposição de suas fotos no SESC Pinheiros. Quando cheguei na sala de exibição do vídeo, este já estava começado. Não peguei a parte em que ele diz que “a prova de contatos é como o divã do psicanalista” mas a relação entre o ofício desse fotógrafo e o ofício do psicanalista se apresentou de maneira muito evidente na parte que vi do documentário. As imagens são de provas de contato: acho que isso não se usa mais nos tempo das câmeras digitais, mas quem fotografou com filme vai se lembrar delas. São cópias dos negativos em tamanho natural (sem ampliação). A partir dessa prova você escolhe que “cliques” vai ampliar. No documentário “Contacts”, a câmera percorre a folha de contato, deslizando pelos vários cliques até se fixar naquele escolhido para ser ampliado por Cartier-Bresson.

Eu já tinha saído da exposição com esse pensamento: o fotógrafo está lá, imerso no fluxo do mundo, com o dispositivo fotomecânico: a câmera. Ele entende de luz, de química, de mêcanica. Ele sabe ajustar a abertura do diafragma e a velocidade dessa abertura para, regulando a luz que sensibiliza o filme, conseguir a foto que dá aos olhares dos outros: “somos ladrões, mas é para dar”, diz ele no documentário. Então, ele liga o olho ao visor da câmera e prepara sua entrada no mundo. Ele deve entrar desprevinido: “Não se deve buscar. É preciso estar disponível, receptivo. É importante não pensar.” No momento oportuno, ele clica: num momento, vários instantes. Ele revela os negativos e imprime a prova de contatos: “A prova de contatos é como o divã do psicanalista”. Então, na folha de contatos, ele encontra uma composição, uma narrativa insuspeitada: “Tudo vem do inconsciente: não sabemos nada. É inconsciente”. Está lá o instantâneo! O feito! O ato! A ação do clicar efetivou a composição revelada na foto. Revela-se uma composição que não se apresenta ao mero olhar. Ou melhor, se apresenta como ato, depois do clique do fotógrafo.

Indicações preciosas de um fotógrafo para um psicanalista.  “Não se deve buscar … é importante não pensar”! Como disse Lacan, “é preciso não compreender depressa demais”. Não antes do ato … No momento oportuno, pontuamos os instantes e, talvez, alguma composição se revele em nossa prova de contatos. Talvez, o paciente queira ampliá-la. Talvez ele queira enxergar as coisas como elas se apresentaram relacionadas no instante daquele clique, remetendo a uma ordem que não se revela ao mero escutar.

Juntos

06/11/2009

Parece que enquanto Nietzsche aposta na tragédia, isto é, na música e no drama (especialmente na música!), Freud e Lacan apostam na psicanálise.

Mas, para aproximar todas eles, talvez seja prudente pensar a cultura e o indivíduo como “psicologias” distintas. Talvez seja necessário tomar o  pensamento de Nietzsche, que está declaradamente endereçado à cultura, como analogia para pensarmos a psicologia dos indivíduos. É mais ou menos como o exercíco de Platão na República: para podermos responder o que é a justiça, ao invés de procurá-la imedidatamente no homem, vamos procurá-la na pólis: uma vez que tenhamos apreendido (ou recuperado) a idéia de justiça, voltamos então ao homem para poder enunciar o que é um “homem justo”.

Talvez seja necessário mais um passo ainda. Tomamos a cultura adoecida descrita por Nietzsche, e a terapêutica que ele propõe (a tragédia) e uma vez munidos desses elementos, voltamos ao sujeito do divã, a quem propomos a psicanálise: será que podemos encontrar nesse sujeito o dionisíaco, o apolíneo e o socrático? Será que esse sujeito está estabelecido como uma cultura dionisíaca (esquizofrênico) ou apolínea (paranóico)? Socrática (o simbólico subjuga o real, “a música se submete às palavras”) ou trágica (o real inspira o simbólico). O passo além é voltar à cultura e saber se, junto com a tragédia proposta por Nietzsche, podemos propor a psicanálise. Para mim, foi importante atravessar o texto de Nietzsche para acompanhar o movimento que ela faz da Grécia até a  Alemanha, para poder acreditar num renascimento da tragédia no lugar da “ópera”, onde a música é “funcionária” das palavras. É mesmo nos capítulos finais em que aparecem no texto dele “drama” e “música” como coisas distintas. Isso me faz pensar que o sintoma é como um drama sem música, como uma ópera: talvez seja por isso que ele se torna ridículo depois que é atravessado na análise (em geral, a ópera me parece ridícula). Um certo riso do paciente certamente marca esse atravessamento do “drama”. Penso que esse tipo de atravessamento permita à orquestra trocar as partituras e tocar música pra valer. O herói do drama está lá para ser atravessado; está lá para morrer: isso está muito bem escrito por Nietzsche, e foi bem falado por Lacan naquela palestra em Louvain: “Vocês fazem muito bem em crer que vão morrer! Do contrário, como poderiam suportar essas vidas que vocês levam …”

Ora, não ouvimos aí um eco da fala do Sileno, apresentada por Nietzsche nos primeiros capítulos do Nascimento da Tragédia? Mas ele avisa: para entendê-lo, é preciso ter experimentado a música, e avisa também que nem todos são músicos. Aliás, “muitos carregam o tirso, mas poucos são os místicos” (Sócrates, momentos antes de morrer), ou “muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos” (Cristo). Será que isso que vale para a música, vale também para a anáĺise? Parece que vale …

Alexitimia?!?!?

19/08/2009

Então inventaram esse termo: alexitimia. Foi em 1973, um tal Peter, se não me engano. O termo serve para designar um determinado quadro “clínico”: a incapacidade do “paciente” em falar sobre seus sentimentos. Uma tradução literal do termo, que se forma a partir de significantes gregos, poderia ser “sem palavras para as emoções”. Mas, quem tem palavras para as emoções? Não é preciso forjá-las sempre? Não é esse o trabalho do poeta lírico? Não é esse o legado de Arquíloco? Que alguém tente me descrever a angústia sem passar pelo lirismo! As tentativas de descrever isso com base em processos físicos e químicos me parecem poesia menor. Tomar a maneira de Lacan, através de grafos, equações e figuras topológicas é o recital enfadonho da poesia dele, que tem sua genialidade.

Enquadrar a incapacidade lírica no discurso da ciência, através de um termo, de uma tabela de valores, de um protocolo de pesquisa, parece servir apenas para neutralizar qualquer possibilidade de crítica. Ainda bem que as palavras forjadas e arranjadas por Nietzsche e Heidegger não perden sua força diante da poesia fraca do discurso da ciência!

Essa timidez poética (e não será essa a natureza de toda timidez?) é, nos textos científicos, associada às questões da psicossomática da seguinte maneira (grosso modo): as lesões no corpo substituem a fala sobre os sentimentos, que não se dá. Bem ,se for assim, a psicossomática é uma maneira possível de descrever os sentimentos. Mas, falta explicar por que é escolhida essa maneira? Eu ainda prefiro trabalhar na minha hipótese do “corpo ad hoc”, isto é, de que esses pacientes não têm “corpo”, e o fenômeno psicossomático é a tentativa de esculpir um corpo na própria carne.

Numa pesquisa da qual participo, sobre psicossomática, constata-se mesmo essa dificuldade dos pacientes em expressarem o que sentem na fala. Outro dia, numa reunião do grupo que faz essa pesquisa, levantei a possibilidade de que essa timidez poética esteja ligada a fatores socioculturais, dado que a pesquisa é realizada numa insituição da rede pública de saúde, e a maioria absoluta dos pacientes é de classe financeiramente pobre. Fui considerado preconceituoso, como se estivesse dizendo que pobres não fazem poesia. Não creio que a proposição “pobres não fazem poesia” seja consequência necessária de meu raciocínio. De qualquer maneira, essa proposição não é minha!

Mas, será que podemos levantar a hipótese de que nesses tempos em que a razão instrumental hegemônica tende a aniquilar a poesia (sua contrária), e em que o acesso às formas mais sublimes da cultura (sim, eu acredito em formas mais sublimes da cultura) está, numa medida importante, possibilitado por condições financeiras melhores e, ao mesmo tempo, dificultado para aqueles que alimentados pela indústria alimentícia, cozinham no caldeirão do Huck – será que podemos levantar a hipótese de que essa timidez lírica seja consequência da racionalidade de nossos tempos, e que essa consequência seja mais perversa entre os mais pobres? É evidente que, ainda bem, muitos sujeitos escapam à essa lógica, tanto nas classes mais ricas, quanto nas mais pobres. É possível que a realidade não seja tão adorniana quanto parece …

O preconceito linguístico não ajuda em nada. Já percebi que alguém pode se calar simplesmente por vergonha de falar diante do “doutor”. Os personagens de Guimarães Rosa se expressavam à sua maneira, porque se expressavam no sertão. Talvez se calassem na metrópole ubíqua contemporânea: seriam personagens de Graciliano Ramos …

Em suma, isso que se chama “alexitimia” é coisa antiga. Talvez exista desde o tempo em que os gregos deixaram de ser pessimistas e trágicos, e se transformaram em otimistas e teóricos. Não sei o que se ganha associando isso à psicossomática. É evidente que o fenômeno se apresenta para muito além disso. Bem dizer “alexitimia” pode ser dizer “apoesia”. Melhor manter a primeira bem longe do consultório, psicanalítico, bem dito.