Hierarquia

18/07/2012

“Existe, afinal, uma hierarquia de estados anímicos, à qual corresponde a hierarquia dos problemas; e os problemas mais altos repudiam sem piedade todo aquele que ousa se avizinhar, sem estar predestinado a resolvê-los pela altura e o poder de sua espiritualidade. De que serve hábeis sabichões ou inábeis e honestos empíricos e mecânicos forçarem uma aproximação, como hoje é tão comum, tentando penetrar com ambição plebéia nessa ‘corte das cortes’!” Aí também Nietzsche parece próximo a Platão que, em sua República, coloca o filósofo no comando. Mas, quem é o filósofo? Não o encontraremos entre os “hábeis sabichões ou inábeis e honestos empíricos”, entre os “eruditos” do tempo de Nietzsche, que ainda é o nosso tempo. Ele não é o cientista, nem tampouco o especialista. Esses devem trabalhar para o filósofo, catalogando ideias e acelarando partículas. O filósofo é um “predestinado”, para Platão, porque antes de retornar ao mundo sensível bebeu um bocado menor das águas do rio do Esquecimento, e conservou uma lembrança mais nítida das Verdades Eternas que contemplou no Mundo das Ideias. Para Nietzsche, ele é um destino, porque foi “cultivado”. E esse cultivo, que se faz por gerações, não engendraria um erudito, porque exige vivências que não são as do erudito: “Para o surgimento do espírito e filósofo independente, forte, talvez a dureza e a astúcia forneçam condições mais favoráveis que a suave, fina, complacente disposição, a arte de aceitar as coisas com leveza, que é apreciada e justamente apreciada num filósofo.”

Supondo que um sorriso de sarcasmo persiste por baixo do bigode: “Tremendo provocateur, o nosso Filósofo!”

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Mal ético

16/07/2012

Nietzsche ainda causa desconforto. Ele não se deixa apanhar. Talvez esteja em algum lugar entre o livre arbítrio dos modernos,  e o cativo arbítrio dos positivistas. Não se tratando de uma coisa, nem outra, a liberdade não tem lugar marcado: é a liberdade de “tornar-se o que se é”, prerrogativa da vontade de poder “saudável”. Mas, colocando as coisas nesses termos, permanecemos ainda presos à “liberdade”, que só pode ser desiderato de escravos. O que, em nós, anseia por libertação é a porção mais fraca de nossas forças, e já esse “nossas” é indevido, é posterior.  O “eu” que participa do “nós” é uma ilusão (fundamental em sua função de máscara, mas uma ilusão). Aludindo à nobreza de Platão, ele diz: ” … na oposição à evidência dos sentidos estava o encanto do modo platônico de pensar, que era um modo nobre de pensar — entre homens, talvez, que desfrutavam de sentidos até mais fortes e imperiosos do que os de nossos contemporâneos, mas que sabiam ver um triunfo mais elevado em permanecer mestres desses sentidos: e isto mediante pálidas, cinzentas, frias redes de conceitos, que jogavam sobre o variegado torvelinho dos sentidos — a turba dos sentidos, como disse Platão.” Essa tomada de posição em relação aos sentidos é o movimento nobre de Platão. O problema é o estancamento que cancela o movimento para instaurar o Mundo das Ideias, locus da Verdade: o “gozo” de Platão fica velado quando ele pretende apresentar-se para além da própria máscara, transformando esta em ídolo. “Nessa interpretação e superação do mundo à maneira de Platão havia uma espécie de gozo distinto daquele que nos oferecem os físicos de hoje, ou os darwinistas e antiteleólogos entre os que trabalham na fisiologia, com seu princípio da ‘força mínima’ e da estupidez máxima.” E se essa “maneira de Platão” for a possibilidade de se querer o que se deseja, lançando mão aqui de uma proposição lacaniana? A ultrapassagem do cativo arbítrio descrito por uma fisiologia que é muito mais um fisiologismo? A travessia do fantasma?

“A neurose, um mal ético e não uma doença predestinada a classificações e tratamentos médicos, é a impotência ou a renúncia ante a jogada que cada um deveria fazer para chegar a ser.”, constatou Néstor Braunstein. Então, não se confunda o psicanalista com o sacerdote! O ascetismo está em outro lugar: está em um “saber fazer” sem inventividade, que opera a partir do “dado”: “Onde o homem nada encontra para ver e pegar, nada tem a fazer’ — este é sem dúvida um imperativo diferente do platônico, mas para uma raça dura e laboriosa de futuros mecânicos e construtores de pontes, que não terá senão trabalho grosseiro a executar, pode bem ser o imperativo justo.”

Juntos

06/11/2009

Parece que enquanto Nietzsche aposta na tragédia, isto é, na música e no drama (especialmente na música!), Freud e Lacan apostam na psicanálise.

Mas, para aproximar todas eles, talvez seja prudente pensar a cultura e o indivíduo como “psicologias” distintas. Talvez seja necessário tomar o  pensamento de Nietzsche, que está declaradamente endereçado à cultura, como analogia para pensarmos a psicologia dos indivíduos. É mais ou menos como o exercíco de Platão na República: para podermos responder o que é a justiça, ao invés de procurá-la imedidatamente no homem, vamos procurá-la na pólis: uma vez que tenhamos apreendido (ou recuperado) a idéia de justiça, voltamos então ao homem para poder enunciar o que é um “homem justo”.

Talvez seja necessário mais um passo ainda. Tomamos a cultura adoecida descrita por Nietzsche, e a terapêutica que ele propõe (a tragédia) e uma vez munidos desses elementos, voltamos ao sujeito do divã, a quem propomos a psicanálise: será que podemos encontrar nesse sujeito o dionisíaco, o apolíneo e o socrático? Será que esse sujeito está estabelecido como uma cultura dionisíaca (esquizofrênico) ou apolínea (paranóico)? Socrática (o simbólico subjuga o real, “a música se submete às palavras”) ou trágica (o real inspira o simbólico). O passo além é voltar à cultura e saber se, junto com a tragédia proposta por Nietzsche, podemos propor a psicanálise. Para mim, foi importante atravessar o texto de Nietzsche para acompanhar o movimento que ela faz da Grécia até a  Alemanha, para poder acreditar num renascimento da tragédia no lugar da “ópera”, onde a música é “funcionária” das palavras. É mesmo nos capítulos finais em que aparecem no texto dele “drama” e “música” como coisas distintas. Isso me faz pensar que o sintoma é como um drama sem música, como uma ópera: talvez seja por isso que ele se torna ridículo depois que é atravessado na análise (em geral, a ópera me parece ridícula). Um certo riso do paciente certamente marca esse atravessamento do “drama”. Penso que esse tipo de atravessamento permita à orquestra trocar as partituras e tocar música pra valer. O herói do drama está lá para ser atravessado; está lá para morrer: isso está muito bem escrito por Nietzsche, e foi bem falado por Lacan naquela palestra em Louvain: “Vocês fazem muito bem em crer que vão morrer! Do contrário, como poderiam suportar essas vidas que vocês levam …”

Ora, não ouvimos aí um eco da fala do Sileno, apresentada por Nietzsche nos primeiros capítulos do Nascimento da Tragédia? Mas ele avisa: para entendê-lo, é preciso ter experimentado a música, e avisa também que nem todos são músicos. Aliás, “muitos carregam o tirso, mas poucos são os místicos” (Sócrates, momentos antes de morrer), ou “muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos” (Cristo). Será que isso que vale para a música, vale também para a anáĺise? Parece que vale …

Dualismo imanente

31/07/2009

Deleuze e Guattari já haviam notado e anotado em seu Anti-Édipo: a imagem psíquica do corpo é a última versão da alma.

Sendo assim, a alma da psicanaĺise é imanente. Melhor chamá-la “corpo” e relacioná-la com a carne. Ao invés do dualismo corpo e alma, propõe-se o dualismo corpo e carne.

No Fédon , de Platão, discute-se a natureza da alma e sua relação com o corpo. Sócrates argumenta para justificar sua tranqüilidade no dia em que tomaria a cicuta: se não teme a morte é porque, experimentado na filosofia, sabe da indestrutibilidade da alma, e sabe que depois da morte, que é apenas do corpo, estará melhor do que aprisonado à carne grosseira. Me parece que a psicanálise está no argumento de Símias, em oposição à Sócrates: a alma está para o corpo, assim como a harmonia está para a lira.

Isto é, a alma é efeito do corpo, e se forma a partir dele, e se desfaz quando ele se corrompe. Tomando os termos da psicanálise, o corpo é efeito da carne; o corpo é imagem que se articula no simbólico, e o real é a carne. Daí podemos inferir que o corpo morre junto com a carne, e que, vivos, somos o corpo e somos a carne. Ou melhor, somos essa relação ente corpo e carne.

No entanto, entre psicanalistas, “dualismo” parece ser um termo maldito. Especialmente porque remete ao dualismo “corpo e alma” de um pensamento que despreza o corpo e a carne. Dizer que corpo e carne são coisas diversas me parece fundamental para a teoria lacaniana da corporeidade, e esta posição é dualista, isto é, o corpo é dual: é carne incorporada.

Me parece até que essa dualidade permite superar o problema do hilomorfismo aristotélico como base para o entendimento da relação entre corpo e alma nos seres vivos (a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um bom artigo a respeito bem aqui). Aristóteles postula que sem alma, o corpo não é mais corpo. Sendo assim, um cadáver não é corpo. Penso que Lacan concordaria com isso. Talvez ele disesse: “é óbvio que um cadáver não é mais corpo! Para continuar sendo corpo, tem que ser sepultado!” Se fizesse isso, tiraria Aristóteles de uma grande enrascada. Ele não fez, mas deixou em Radiofonia a condição de fazermos …