Até sábado eu lia a proposição de Lacan “a mulher não existe” como enunciado de que o modo de gozo da mulher não existe. Então, numa conversa com Rodolpho Ruffino ele me disse: “o que interessa aí é o artigo definido”. Pronto! Isso enriquece a leitura da proposição.

Muitas vezes, ouvi psicanalistas remetendo essa senteça à proposição afirmativa universal da lógica aristotélica. Alguns chegaram mesmo a referir o artigo definido “a” à letra “A”, que indica a proposição universal afirmativa no esquema que os medievais usavam para codificar a lógica.

Na lógica aristotélica, existem quatro tipo de sentenças:

– universais afirmativas: “todo mamífero é mortal”

– universais negativas: “nenhum mamífero é vegetal”

– particulares afirmativas: “algum mamífero é anfíbio”

– particulares negativas: “algum mamífero não é vivíparo”

Os medievais usavam as vogais dos termos “afirmo” e “nego” para designar os quatro tipo de sentenças, de forma que “a” servia para as universais afirmativas e “i” para as particulares afirmativas; “e” servia para as universais negativas e “o” para as particulares negativas.

Ora, o que alguns propuseram é que o “a” de “a mulher não existe” é o “a” que os medievais usavam para designar sentenças universais afirmativas, entendendo que a proposição de Lacan quer dizer que “a mulher” não existe como universal, isto é, não existe o conceito de mulher.: não é possível descrever a mulher. A sentença foi psicologizada a ponto de muitos dizerem que por isso as mulheres não fazem grupo: elas não têm um conceito comum ao qual poderiam se referir. Já os homens podem formar esse conceito, a partir da imagem do “pai da horda” e, por isso, podem se reunir em grupo. Se a intenção de Lacan era manter o pensamento no âmbito da lógica, essas interpretações colocam de volta na teoria psicanalítica as genitálias de organismos masculinos e femininos e a observação quase etológica do comportamento dito humano.

Tentemos manter a abstração: pensamos que Lacan esteja se referindo a um modo de gozo, e não às chamadas “mulheres”. Com a observação de Ruffino, posso abandonar a interpretação de que o modo de gozar “mulher” não existe, para pensar que existe apenas como um modo de gozar indefinido, sem forma, sem sentido.

Aí, aproximo mais uma vez Lacan e Nietzsche, para entender esse gozo da mulher como o gozo de uma mulher. Não é possível capturá-lo de uma vez por todas em um significante ou em uma imagem. É preciso experimentá-lo a cada vez. Trata-se aqui do que Nietzsche encontrou em Dioniso. Trata-se da música em sentido absurdamente amplo.

Proust ajuda a mostrar isso quando apresenta o momento em que Swann ouve a frase musical da sonata de Vinteuil que anunciava para ele o gozo sem forma. Nese trecho de “Um amor de Swann”, quem toca a melodia é Odette, uma mulher que Swann amou (a citação é longa, mas deliciosa):

“A sede de um desconhecido encanto despertava-a nele aquela frase, mas não lhe trazia nada de preciso para aplacá-la. De sorte que as partes da alma de Swann em que a frase apagara o cuidado dos interesses materiais, as considerações humanas e válidas para todos, tinham ficado vagas e em branco, e ele era livre de ali inscrever o nome de Odette. Depois, ao que a afeição de Odette pudesse ter de um pouco estreito e decepcionante, vinha a frase acrescentar, amalgamar a sua essência misteriosa. A julgar pela fisionomia de Swann enquanto escutava a frase, dir-se-ia que estava ele absorvendo um anestésico que lhe dava maior amplitude à respiração. E o prazer que lhe dava a música e que em breve ia criar nele uma verdadeira necessidade, assemelhava-se com efeito, em tais momentos, ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não fomos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem siginifcado porque escapa à nossa inteligência, e nós só o atingimos por um único sentido. Que grande repouso, que misteriosa renovação para Swann – ele cujos olhos, embora delicados amadores de pintura, cujo espírito, embora fino observador de costumes, carregavam para sempre a marca indelével da secura de sua vida – sentir-se assim transformado numa criatura estranha à humanidade, desprovida de faculdades lógicas, quase um licorne, uma criatura quimérica que percebia o mundo apenas pelo ouvido.”

Fica uma questão: será que a música apenas anuncia Dioniso, ou será que ela é Dioniso?

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