Semblante

14/02/2011

Para aqueles que falam português do Brasil, e para aqueles que falam inglês americano, existe uma homonímia que permite um vislumbre daquilo que Lacan chamou “gozo fálico”, e também daquilo que ele chamou “outro gozo”. O significante “gozo” (cum em inglês) pode significar tanto a substância ejaculada, quanto o orgasmo. A substância ejaculada pode assumir então a função de prova do orgasmo: prova de que deu-se gozo.

As ditas “mulheres” não contam com isso, e a ciência tenta encontrar um equivalente nas alterações fisiológicas que acompanhariam o orgasmo da mulher: enrubescimento da face, intumescência dos mamilos, contrações dos músculos que circunscrevem a vagina.

O problema aí é o velho prejuízo de causa e efeito, que ainda orienta a pesquisa científica e o senso comum. Pode-se pensar que as alterações fisiológicas não são efeito do gozo, e não são o gozo mesmo. Elas apenas acompanham o gozo, contingencialmente: não necessariamente.

Se for assim, não existe garantia do gozo. Essa garantia é uma construção imaginária de quem ainda não se apropriou do próprio gozo. O gozo fálico é aquele que precisa apresentar a ejaculação como prova. Isso pode ser visto em abundância no Facebook, que parece funcionar como um grande depositório de ejaculações. Produzem-se ejaculaçoes para ntregalas como prova de felicidade ao Outro: “Olha só! Eu gozei!”. É o funcionamento inaugurado pelo Twitter, esse puleiro em que pássaros irritantes anunciam titica (não é só isso que acontece nesses lugares digitais, mas a maior parte é isso, até onde eu posso ver).

A variação dita feminna dessa necessidade de garantia é a de uma possível conversa de salão de beleza. Uma mulher descreve sua experiência do gozo de uma maneira que deixa uma outra na dúvida: “Por que eu não sinto assim? Será que eu gozo?” Como essa última gostaria que a ciência finalmente encontrasse a confirmação de seu gozo!

É evidente que tudo isso ultrapassa a cópula, o homem e a mulher. Isso diz sobre a busca pela felicidade. Sobre a afirmaçao da subjetividade. E perguntaram se existe um meio termo entre uma coisa e outra, isto é, entre esse gozo fálico, determinado, e o gozo sem forma. Parece que não é necessário um meio termo. Não no sentido do justo meio aristotélico, como um ponto ideal entre dois extremos. Aí vale a dialética hegeliana. Talvez seja possível tomar as duas situações (a da garantia imaginária, e a da total falta de garantia) como momentos que, suspensos no movimento dialético, podem culminar na afirmação: “Sei que gozo!” ou “Sei que sou feliz!”, ou ainda “Sei que amo!”, sem a necessidade de autorização do Outro.

Alguém pode se instalar em uma das duas posições: a de entregar ejaculações, ou de duvidar da próprio orgasmo. A partir da teoria psicanalítica, poderíamos chamar um de obsessivo, e o outro de histérico. Ambos estão na lógica fálica. O outro gozo é a ultrapassagem disso. Ele implica um outro saber. A psicanálise pode encaminhar esse movimento, até o autorizar-se de si mesmo proposto por Lacan, porque a ejaculação não é garantia de gozo: os homens também fingem orgasmo, frequentemente para eles mesmos. Os neuróticos fingem sua felicidade e seu sofrimento, frequentemente para eles mesmos. Nisso, somos todos histéricos. Dizer “a histérica” e “o obsessivo”, é uma tentativa de validar a ordem fálica a partir da própria psicanálise, e é impedimento desta.

 

 

Supondo que não existam fatos, mas apenas interpretações dos fatos, então, toda proposição está comprometida com uma interpretação, com uma perspectiva, com uma visada, uma visão de mundo, uma Weltanschaung … inclusive as proposições “Todo sonho é realização de um desejo inconsciente”, ou “Não há relação sexual”. Preciso continuar o argumento?

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Os fatos que não existem como fatos, são os fatos morais. Importante fazer a predicação.

E a psicanálise não é Weltanschaung porque é uma prática clínica: não é proposta de civilização, sociedade ou, para usar um termo mais preciso, cunhado por Husserl: Lebenswelt [mundo da vida].

No entanto, não se pode negar que ela interpreta os fatos morais à sua maneira, a partir de uma vontade de poder determinada (é assim se acompanharmos Nietzsche; obviamente, ninguém é obrigado a acompanhá-lo; talvez sejam poucos aqueles que se sentem à vontade andando com ele).

Existe um punhado de certeza no fantástico Lebenswelt do avesso da psicanálise.

Um psicanalista é alguém que pôde atravessar essa certeza para prescindir dela.

A própria análise é construção em análise.

Orgulho

17/02/2010

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Comtesse d'Haussonville (1845), de Jean-Auguste-Dominique Ingres

“Some women have been made unhappy by petty considerations of pride and social convention, and have been placed in an intolerable position by the pride of their relatives. In generous compensation for all their misfortunes, Destiny decreed that they should know the bliss of loving and being loved with passion. But there comes a day when they borrow from their enemies that same insensate pride which had made them unhappy, only to destroy the unique happiness left to them, and to bring misfortune upon themselves and those who love them.” Stendhal, Love, Chapter 30, A Strange and Sorry Spectacle

Aqui vai o trecho traduzido do inglês (prefiro ler esses clássicos em inglês, porque as edições parecem mais cuidadosas e custam muito menos do que as edições em português):

“Algumas mulheres têm sido infelizes por conta de mesquinharias do orgulho e da convenção social, e têm sido colocadas numa posição intolerável por conta do orgulho de seus parentes. Como compensação generosa por todos os seus infortúnios, Destino decretou que eles devam conhecer a alegria de amar e serem amadas com paixão. Mas chega o dia em que elas tomam de seus inimigos o mesmo orgulho insensato que as têm feito infelizes, unicamente para destruir a única felicidade que resta para elas, e para trazer infortúnio para elas mesmas e para aqueles que as amam.”

No original francês:

“Les petites considérations de l’orgueil et des convenances du monde on fait les maulheurs de quelques femmes, et par orgueil leurs parents les ont placés dans une position abominable. Le destin leur avait réservé pour consolation bien supériere à tous leurs malheurs le bonheur d’aimer et d’êtrte aimées avec passion; mais voilá qu’un beau jour elles empruntent à leurs ennemies ce même orgueil insensé dont elles furent les preimières victimes, et c’est pour tuer le seul bonheur qui leur reste, c’est pour faire leur propore malheur etl le malheur des qui les aime.”

Stendhal escreveu isso no século XIX. Me parece que o tom é um tanto o quanto machista. Como se o autor estivesse pedindo que as mulheres não efetivassem o orgulho fálico, para que o amor pudesse acontecer.

Isso me remete à discussão atual sobre industrialização e mudanças climáticas. Os países não industrializados reivindicam o direito de industrializar-se, para entrarem no jogo da economia cacifados. A reivindicação parece justa. Mas, como é usual nesses debates, não se discute a industrialização mesma. é realmente uma boa estratégia para os conservadores: vamos manter as coisas como estão para preservar a Terra.

O mesmo poderia dizer-se do homem que pede à mulher que não seja orgulhosa, para o bem do Amor, reservando para si o direito à imbecilidade. Não acredito que essa possa ser a intenção de Stendhal. ele parece estar bem acima disso.

Nessa hora eu posso me entusiasmar com Lacan, por ele ter separado o feminino da vulva, do clitóris e das glândulas mamárias; e o masculino do pênis e dos testículos. Isso me dá a oportunidade de voltar a Stendhal pensando que o feminino é a capacidade de “amar e ser amado com paixão”, e o masculino é o “orgulho insensato”. O arranjo social distribui esses elementos pelos organismos.

A psicanálise enriquece a leitura de livros como “Do Amor”. Stendhal afirma que o amor acontece em estágios. Um dos estágios fundamentais é o que ele chama de “cristalização”: nesse estágio, atribuímos à pessoa amada tantas perfeições que, num determinado ponto, não podemos mais reconhecer a pessoa que serve de suporte para a cristalização, e oferece como imagem para mostrar essa ideia o “graveto de Slazburg”: em partes abandonadas das minas de sal de Salzburg, joga-se um graveto sem folhas e depois de alguns meses é possível retirá-lo de onde foi deixado coberto por um “depósito brilhante de cristais”. O interessante, é que para ele o processo tem um gatilho fisiológico. A cristalização começa com um impulso da Natureza, mas é a imaginação que cuida de efetivá-la. Para isso, o arranjo social é fundamental.

Stendhal chega afirmar que “nenhuma forma racional de governo pode recapturar a cristalização” (“recapturar”, ou “refazer”, porque acontecem duas cristalizações no amor, e a segunda é mesmo uma “refação” da primeira, que precisa ser maculada, afim de que uma cristalização mais forte se dê). O exemplo máximo, para o autor, de um governo absolutamente “anti-imaginação”, é o governo dos Estados Unidos da América. Nesses arranjos sociais, o amor não vai além do que Stendhal chamou de amor-físico, porque as pessoas não têm tempo ou disposição para a cristalização.

As categorias lacanianas Real, Simbólico e Imaginário (R.S.I.) aparecem bem na formulação de Stendhal e, por sua vez, revelam a força crítica deste: até agora, as mulheres têm sido encarregadas de preservar o feminino em nosso arranjo social.

Talvez seja interessante distribuir essa tarefa …

Mais mulher

28/12/2009

Vamos tomar como princípio que o significante “mulher”, nos jogos que jogamos em nossa linguagem, possa referir-se ao indefinido, informe, louco, indizível.

Vamos assumir também que os humanos se esforçam por circunscrever esse elemento que escolhemos designar pelo termo “mulher”. Designemos esse esforço como “homem”.

Aqueles cujos organismos incluem útero, ovários, glândulas mamárias e vulvas são procuradores da “mulher”. Os portadores de testículos e pênis são procuradores do “homem”.

Essa é a montagem do fantasma de grupo que faz funcionar a sexualidade. Daí a crítica de Deleuze e Guattari à noção de “fantasma”. Daí a crítica ao “Bate-se em uma criança”, de Freud. Alguém poderia, baseado na psicanálise, argumentar que as mulheres sempre estiveram de acordo. Que se submetem porque gozam assim (não faltam exemplos de que existe essa idéia, desde o dito popular “a mão que balança o berço é a mão que governa o mundo” até o AntiCristo de Lars von Trier). As “mulheres” encarnariam de bom grado a loucura para serem contidas pelo “homem”, incumbido de encarnar a razão, e isso ensejaria a repetição neurótica da “atuação” dessa fábula.

A crítica de Deleuze e Guattari parece dizer que é a psicanálise que faz a conjunção de “razão” e “loucura” com a sexualidade, atribuindo ao homem a razão e à mulher a loucura. Nós, psicanalistas, entendemos que essa conjunção é anterior à psicanálise e que a psicanálise pode desvelar o caráter fantasmático dessa conjunção e instaurar a possibilidade de atravessamento desse fantasma.

Mas, para Deleuze e Guattari (e, talvez também para Foucault), isso não basta. É preciso “mais um esforço”. É preciso atravessar a disjunção “razão” e “loucura”.  É preciso resgatar a “loucura”, o indizível, o indefinível, o sem forma. Várias pensadores falaram muito bem sobre isso no século passado: Heidegger, Wittgenstein, Lacan, Deleuze. Mas, nas minhas leituras, ainda não encontrei quem dissesse isso melhor do que Nietzsche.

Até sábado eu lia a proposição de Lacan “a mulher não existe” como enunciado de que o modo de gozo da mulher não existe. Então, numa conversa com Rodolpho Ruffino ele me disse: “o que interessa aí é o artigo definido”. Pronto! Isso enriquece a leitura da proposição.

Muitas vezes, ouvi psicanalistas remetendo essa senteça à proposição afirmativa universal da lógica aristotélica. Alguns chegaram mesmo a referir o artigo definido “a” à letra “A”, que indica a proposição universal afirmativa no esquema que os medievais usavam para codificar a lógica.

Na lógica aristotélica, existem quatro tipo de sentenças:

– universais afirmativas: “todo mamífero é mortal”

– universais negativas: “nenhum mamífero é vegetal”

– particulares afirmativas: “algum mamífero é anfíbio”

– particulares negativas: “algum mamífero não é vivíparo”

Os medievais usavam as vogais dos termos “afirmo” e “nego” para designar os quatro tipo de sentenças, de forma que “a” servia para as universais afirmativas e “i” para as particulares afirmativas; “e” servia para as universais negativas e “o” para as particulares negativas.

Ora, o que alguns propuseram é que o “a” de “a mulher não existe” é o “a” que os medievais usavam para designar sentenças universais afirmativas, entendendo que a proposição de Lacan quer dizer que “a mulher” não existe como universal, isto é, não existe o conceito de mulher.: não é possível descrever a mulher. A sentença foi psicologizada a ponto de muitos dizerem que por isso as mulheres não fazem grupo: elas não têm um conceito comum ao qual poderiam se referir. Já os homens podem formar esse conceito, a partir da imagem do “pai da horda” e, por isso, podem se reunir em grupo. Se a intenção de Lacan era manter o pensamento no âmbito da lógica, essas interpretações colocam de volta na teoria psicanalítica as genitálias de organismos masculinos e femininos e a observação quase etológica do comportamento dito humano.

Tentemos manter a abstração: pensamos que Lacan esteja se referindo a um modo de gozo, e não às chamadas “mulheres”. Com a observação de Ruffino, posso abandonar a interpretação de que o modo de gozar “mulher” não existe, para pensar que existe apenas como um modo de gozar indefinido, sem forma, sem sentido.

Aí, aproximo mais uma vez Lacan e Nietzsche, para entender esse gozo da mulher como o gozo de uma mulher. Não é possível capturá-lo de uma vez por todas em um significante ou em uma imagem. É preciso experimentá-lo a cada vez. Trata-se aqui do que Nietzsche encontrou em Dioniso. Trata-se da música em sentido absurdamente amplo.

Proust ajuda a mostrar isso quando apresenta o momento em que Swann ouve a frase musical da sonata de Vinteuil que anunciava para ele o gozo sem forma. Nese trecho de “Um amor de Swann”, quem toca a melodia é Odette, uma mulher que Swann amou (a citação é longa, mas deliciosa):

“A sede de um desconhecido encanto despertava-a nele aquela frase, mas não lhe trazia nada de preciso para aplacá-la. De sorte que as partes da alma de Swann em que a frase apagara o cuidado dos interesses materiais, as considerações humanas e válidas para todos, tinham ficado vagas e em branco, e ele era livre de ali inscrever o nome de Odette. Depois, ao que a afeição de Odette pudesse ter de um pouco estreito e decepcionante, vinha a frase acrescentar, amalgamar a sua essência misteriosa. A julgar pela fisionomia de Swann enquanto escutava a frase, dir-se-ia que estava ele absorvendo um anestésico que lhe dava maior amplitude à respiração. E o prazer que lhe dava a música e que em breve ia criar nele uma verdadeira necessidade, assemelhava-se com efeito, em tais momentos, ao prazer que sentiria ao experimentar perfumes, ao entrar em contato com um mundo para o qual não fomos feitos, que nos parece sem forma porque nossos olhos não o percebem, sem siginifcado porque escapa à nossa inteligência, e nós só o atingimos por um único sentido. Que grande repouso, que misteriosa renovação para Swann – ele cujos olhos, embora delicados amadores de pintura, cujo espírito, embora fino observador de costumes, carregavam para sempre a marca indelével da secura de sua vida – sentir-se assim transformado numa criatura estranha à humanidade, desprovida de faculdades lógicas, quase um licorne, uma criatura quimérica que percebia o mundo apenas pelo ouvido.”

Fica uma questão: será que a música apenas anuncia Dioniso, ou será que ela é Dioniso?

Contatos

16/11/2009

Assisti esse documentário sobre o Cartier-Bresson ontem, depois de ver a exposição de suas fotos no SESC Pinheiros. Quando cheguei na sala de exibição do vídeo, este já estava começado. Não peguei a parte em que ele diz que “a prova de contatos é como o divã do psicanalista” mas a relação entre o ofício desse fotógrafo e o ofício do psicanalista se apresentou de maneira muito evidente na parte que vi do documentário. As imagens são de provas de contato: acho que isso não se usa mais nos tempo das câmeras digitais, mas quem fotografou com filme vai se lembrar delas. São cópias dos negativos em tamanho natural (sem ampliação). A partir dessa prova você escolhe que “cliques” vai ampliar. No documentário “Contacts”, a câmera percorre a folha de contato, deslizando pelos vários cliques até se fixar naquele escolhido para ser ampliado por Cartier-Bresson.

Eu já tinha saído da exposição com esse pensamento: o fotógrafo está lá, imerso no fluxo do mundo, com o dispositivo fotomecânico: a câmera. Ele entende de luz, de química, de mêcanica. Ele sabe ajustar a abertura do diafragma e a velocidade dessa abertura para, regulando a luz que sensibiliza o filme, conseguir a foto que dá aos olhares dos outros: “somos ladrões, mas é para dar”, diz ele no documentário. Então, ele liga o olho ao visor da câmera e prepara sua entrada no mundo. Ele deve entrar desprevinido: “Não se deve buscar. É preciso estar disponível, receptivo. É importante não pensar.” No momento oportuno, ele clica: num momento, vários instantes. Ele revela os negativos e imprime a prova de contatos: “A prova de contatos é como o divã do psicanalista”. Então, na folha de contatos, ele encontra uma composição, uma narrativa insuspeitada: “Tudo vem do inconsciente: não sabemos nada. É inconsciente”. Está lá o instantâneo! O feito! O ato! A ação do clicar efetivou a composição revelada na foto. Revela-se uma composição que não se apresenta ao mero olhar. Ou melhor, se apresenta como ato, depois do clique do fotógrafo.

Indicações preciosas de um fotógrafo para um psicanalista.  “Não se deve buscar … é importante não pensar”! Como disse Lacan, “é preciso não compreender depressa demais”. Não antes do ato … No momento oportuno, pontuamos os instantes e, talvez, alguma composição se revele em nossa prova de contatos. Talvez, o paciente queira ampliá-la. Talvez ele queira enxergar as coisas como elas se apresentaram relacionadas no instante daquele clique, remetendo a uma ordem que não se revela ao mero escutar.

Dualismo imanente

31/07/2009

Deleuze e Guattari já haviam notado e anotado em seu Anti-Édipo: a imagem psíquica do corpo é a última versão da alma.

Sendo assim, a alma da psicanaĺise é imanente. Melhor chamá-la “corpo” e relacioná-la com a carne. Ao invés do dualismo corpo e alma, propõe-se o dualismo corpo e carne.

No Fédon , de Platão, discute-se a natureza da alma e sua relação com o corpo. Sócrates argumenta para justificar sua tranqüilidade no dia em que tomaria a cicuta: se não teme a morte é porque, experimentado na filosofia, sabe da indestrutibilidade da alma, e sabe que depois da morte, que é apenas do corpo, estará melhor do que aprisonado à carne grosseira. Me parece que a psicanálise está no argumento de Símias, em oposição à Sócrates: a alma está para o corpo, assim como a harmonia está para a lira.

Isto é, a alma é efeito do corpo, e se forma a partir dele, e se desfaz quando ele se corrompe. Tomando os termos da psicanálise, o corpo é efeito da carne; o corpo é imagem que se articula no simbólico, e o real é a carne. Daí podemos inferir que o corpo morre junto com a carne, e que, vivos, somos o corpo e somos a carne. Ou melhor, somos essa relação ente corpo e carne.

No entanto, entre psicanalistas, “dualismo” parece ser um termo maldito. Especialmente porque remete ao dualismo “corpo e alma” de um pensamento que despreza o corpo e a carne. Dizer que corpo e carne são coisas diversas me parece fundamental para a teoria lacaniana da corporeidade, e esta posição é dualista, isto é, o corpo é dual: é carne incorporada.

Me parece até que essa dualidade permite superar o problema do hilomorfismo aristotélico como base para o entendimento da relação entre corpo e alma nos seres vivos (a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem um bom artigo a respeito bem aqui). Aristóteles postula que sem alma, o corpo não é mais corpo. Sendo assim, um cadáver não é corpo. Penso que Lacan concordaria com isso. Talvez ele disesse: “é óbvio que um cadáver não é mais corpo! Para continuar sendo corpo, tem que ser sepultado!” Se fizesse isso, tiraria Aristóteles de uma grande enrascada. Ele não fez, mas deixou em Radiofonia a condição de fazermos …

Chocolate

17/07/2009

Ele calcula cuidadosamente as mordidas: a quantidade de chocolate oferecida as suas papilas degustativas deve ser suficiente para que goze deste sabor e ao mesmo tempo garanta a permanência da barra pelo maior período que consiga. Seu ideal é que ela termine extamente no instante de sua morte, e garanta com isso que ele gozou na maior medida possível durante sua existência. Se a barra terminar antes que ele morra, restará um tempo de vida reduzido à espera resignada pela morte: tempo miserável. Se, no instante derradeiro, constatar a sobra de algum (ou alguns) dos pequenos quadriláteros que compõem a barra de chocolate, experimentará o amargor de ter gozado menos do que poderia em cada mordida avarenta que deu na vida.

Ela se lambuza inteira. Morde avidamente tentando ultrapassar-se no sabor do chocolate e, por maior que seja a mordida, não consegue saborear o tanto que imagina poder. Nenhum chocolateiro conseguiu, até agora, preparar a massa com sabor intenso suficiente para que ela possa dizer afinal que gosto tem o chocolate.

Ele tem medo de morrer. Ela, de enlouquecer.

… perversos polissêmicos.

spirochaeta pallida

spirochaeta pallida

“A strong ego affords some protection against falling ill; but in the end we must necessarily start loving if we are not to fall ill, and we must necessarily fall ill if refusal* makes us incapable of loving.”

(Freud, On the introduction of Narcissism, trad.  John Reddick)

*[Freud’s important but challenging term is Versagung, from the verb versagen, itself cognate with English ‘forsake’ – one now-obsolete meaning of wich is ‘To decline or refuse (something offered)’ (OED – Oxford English Dictionary). What he means by the term is rather more clearly shown by the opening sentences of ‘Die am Erfolge scheitern’ (‘Those who founder on Success’): ‘Our work in psychoanalysis has presented us with the following proposition: People incur neurotic illness as a result of refusal. What is meant by this is that their libidinal desires are refused gratification’ – i.e. by the savagely censorious entity within that oversees their very thought and deed. See also the penultimate sentence of this present essay: ‘We can thus more readily understand the fact that paranoia is frequently caused by the ego being wounded, by gratification being refused within the domain of the ego-ideal.’ The Standard Edition routinely and astonishingly mistranslates the term as ‘frustration’.]

Minha tradução:

“Um ego forte conta com alguma proteção contra o adoecimento; mas, no final das contas, precisamos necessariamente começar a amar se não vamos adoecer, e necessariameente adoeceremos se a recusa nos fizer incapazes de amar.”

“O termo importante mas desafiador de Freud é Versagung, do verbo versagen, ele mesmo cognato do inglês forsake – cujo um dos significados, agora obsoleto, é ‘declinar ou recusar (alguma coisa oferecida). O que ele significa com o termo é mostrado mais claramente nas sentenças de abertura de ‘Aqueles que fracassam no sucesso’: ‘Nosso trabalho na psicanálise nos apresentou a seguinte proposição: as pessoas incorrem no adoecimeento neurótico como resultado de recusa. O que se significa com isso é que seus desejos libidinais têm gratificação recusada.’ Isto é, pela entidade interior selvagemente censuradora que supervisiona seus próprios pensamentos e intenções. Veja-se também a penúltima sentença do presente ensaio: ‘Nós podemos então entender mais prontamente o fato da paranóia ser frequentemente causada pelo ego sendo ferido, pela gratificação sendo recusada dentro do domínio do ego-ideal.’ A Edição Standard [Stratchey] rotineiramente e assustadoramente traduz erroneamente o termo como ‘frustração’.”

Minha leitura:

Não se trata então de “frustar a demanda” do paciente, mas de “recusar a demanda” deste. Como? Recusando a oferta de reconhecimento que ele nos faz. Oferta de reconhecimento=demanda de amor.

Outro problema de tradução que, se for ultrapassado pode facilitar o entendimento disso: por que verter “discours du maître” como “discurso do mestre”?!?!? É tão óbvio que trata-se do “discurso do senhor”! Senhor que é a verdade do escravo,  como mostra o “discurso do universitário” que poderia, talvez, chamar-se também “discurso do escravo”.

Ao recusar o reconhecimento que o paciente oferece como dádiva, o analista recusa a demanda que este lhe faz. Qual seja: a demanda de aceitá-lo (o paciente) como sua verdade (a do analista). Isto é, ao recusar a oferta de reconhecimento que o paciente lhe faz, o analista recusa-se a reconhecê-lo como sua verdade, o que engendraria uma relação de amor.  Isto está em Hegel. Lembremos que “senhor e escravo” em francês diz-se “maître et esclave”. (por que traduziram “maître” como “mestre”?!?!?)

Poderia-se advogar a favor da tradução corrente recorrendo à uma relação “mestre/universitário” ao invés de “senhor/escravo”. Isso só me faz preferir a oposição “senhor/universitário”.

Nessa recusa, o analista cancela a dialética do reconhecimento proposta por Hegel. O senhor da psicanálise é o senhor para além de bem e mal. Senhor cuja ética é a ética da psicanálise, como pode enunciar veementemente Néstor Braunstein em seu Gozo*. Esse senhor afirma-se em seu ato; ele é ato: isso está documentado nas páginas da Genealogia da Moral, d’isso que cataloga-se sob “Nietzsche”.

Ao propor o mestre no lugar do senhor perde-se a coloração ética. Mas não é de ética que se trata?!?!?

De agora em diante lerei “recusa da demanda” e “discurso do senhor”.

Mas, não posso deixar de agradecer aos maus tradutores o material para fricção. Os erros deles tornam mais divertido pensar a psicanálise. Vou brincar um pouco com “a-senhorar-se” e “a-mestrar-se”. Vou brincar também com a idéia de que o paciente chega procurando Hegel e encontra Nietzsche!

* se faço argumento à autoridade evocando Braunstein, faço isso por exigência da brevidade que este meio, o email, sugere. Estou disposto e disponível para desenvolver esse argumento em outros meios.