Li Saussure antes de ler Lacan. Em verdade, o primeiro trabalho de Lacan com o qual tive contato foi o Livro 5, do Seminário: As Formações do Inconsciente. Não me autorizei a avançar para além das primeiras páginas e decidi começar meu percurso na leitura do Curso de Linguística Geral.

Fiquei impressionado. Essa leitura provocou uma reflexão intensa sobre a experiência analítica.

Os conceitos de diacronia e sincronia me interessaram especialmente porque através deles, por analogia, pude pensar as formações do inconsciente sem ler Lacan!

A diacronia é o eixo em que acontecem as modificações da língua no decorrer da história. Por exemplo: “vossa mercê” transformou-se em “vosmicê” que transformou-se em “você”. Obviamente, isso me remete à idéia de condensação em Freud. Dois significantes que permanecem até hoje em nossa língua se condensaram num só que exerce função diversa dos significantes a partir dos quais foi engendrado. Isso, por conta de uma alteração fonética, como o exemplo dado faz notar bem. É na efetividade histórica da fala, e para “facilitação” da fala, que ocorrem essas alterações.

A sincronia é o eixo em que se estabelecem as relações de significação entre os diversos significantes da língua. Esse eixo é estático até que uma alteração diacrônica provoque uma alteração no estado sincrônico da língua. O significante “você” tem sua significação estabelecida pela oposição aos outros significantes do português corrente (p. ex. “eu”, “ele”).

Os dois eixos (sincrônico e diacrônico) são portanto transversais. Seguindo pelo eixo diacrônico podemos percorrer a história de uma língua, encontrando os diversos estados sincrônicos que já se estabeleceram.

A analogia com a teoria saussuriana que me permite entender melhor a fala analítica é a seguinte: enunciado e enunciação estão em eixos sincrônicos diversos, e a associação livre permite  o trilhamento do eixo diacrônico que pode estabelecer a conexão entre esses dois estados sincrônicos. As manifestações das formações do inconsciente são pontos que marcam a possibilidade de mudança de eixo durante uma sessão de análise.

Vou ilustrar isso com um evento em minha própria análise:

O que posso lembrar é que no meu enunciado apareceu o significante “desamparo”. Não lembro em que contexto (sincronia) eu me encontrava, porque a intervenção do analista provocou um salto tão radical de um contexto para outro (de uma sincronia para outra) que não pude reter o contexto do enunciado (contexto de partida).

Diante do meu “desamparo”, o analista pediu que eu fizesse a etimologia do termo, desviando minha fala do eixo sincrônico para o eixo diacrônico. Fiz então a escansão do termo para dar prosseguimento à investigação “etimológica” separando o significante da seguinte forma: des – amparo. Por associação livre, remeti “amparo” a “ampére”, unidade de medida da corrrente elétrica.

Importante dizer aqui que tive contato com o segundo termo no curso técnico de eletrotécnica que fiz no lugar do segundo grau normal. O ingresso nesse curso marcou um rompimento importante com a autoridade paterna. Deixei o Liceu Pasteur, colégio que meu pai frequentou e cujas mensalidades era ele quem pagava para mim, para entrar numa escola técnica que eu mesmo descobrira e onde não havia cobrança de mensalidades. Trata-se da Escola Técnica Walter Belian, mantida então pela Fundação Antonio e Helena Zerrener, da qual fazia parte também a cervejaria Antarctica. Apesar de não ter obtido pontuação suficiente no vestibulinho para entrar na escola, fui chamado para estudar lá pelo diretor, por conta de meu histórico no Pasteur. Dali em diante eu não precisei que meu pai pagasse pelos meus estudos. Obvimante, junto com o júbilo desse momento houve a perda que qualquer ruptura implica. Perda cujo luto eu não havia feito.

Pois bem: depois que enunciei “ampére”, o analista perguntou em francês “un pére?”, levando-me para uma outra sincronia em que “desamparo” era “des’un’pére”. Uma sincronia em que eu poderia finalmente fazer o luto da ruptura com o pai.

A relação entre “des’un’pére” e “desamparo” é análoga à relação entre “vossa mercê” e “você”. Isto é, é uma relação que se dá no eixo diacrônico saussuriano.

No entanto, os termos “sincrônico” e “diacrônico” têm uma significação diferente para Lacan. Isso porque, me parece, ele refere ambos à fala, e não à língua.

Na fala, cada significante é enunciado em um momento diferente no decorrer do tempo, e é isso que Lacan chama de diacronia. Nós não falamos todos os significantes no mesmo momento. A sincronia está lá o tempo todo, mas só se evidencia no ponto em que referimos um significante aos significantes enunciados anteriormente na fala.

O que causa confusao é pensar em verticalidade e horizontalidade dos eixos diacrônico e sincrônico em Lacan, porque tratam-se de eixos paralelos e não transversais, como em Saussure.

Para visualizar isso é preciso lembrar que a sincronia aparece no grafo lacaniano como uma parábola que intercepta a diacronia em dois pontos: o ponto de partida e o ponto de parada da fala. Duas transversais encontram-se em apenas um ponto.

Me parece que a intervenção do analista é justamente “encurvar” uma das paralelas para que essa faça a interceptação da fala expondo a sincronia que a determina. No exemplo clínico dado, isso aparece na “volta” de “un pére” para “des’un’pére”. A retomada do prefixo “des-” é um evento sincrônico.

A intervenção do analista gerou portanto uma nova sincronia, um novo estado, uma nova sensibilidade.